Calogero Russo/NYT
Calogero Russo/NYT

Na rota do abismo, bancos italianos arrastam a Europa

Instituições do país já foram consideradas grandes demais para falir, mas agora caminham lentamente para a bancarrota

Peter S. Goodman/THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

02 Dezembro 2016 | 05h00

MILÃO - Victor Massiah sempre desconfiou do papo de que o sistema bancário italiano está em tão mau estado e tão repleto de empréstimos ruins, que coloca a Europa em risco de outra crise financeira. A mansão que abriga a sede local do UBI Banca, o banco comandado por Messiah e um dos maiores credores da Itália, não parece ser o tipo de lugar que está prestes a ficar sem dinheiro. Uma lareira de mármore entalhado adorna uma sala de conferência sustentada por vigas de madeira dignas de um castelo. Uma estátua da deusa grega Atena observa triunfante do alto da escada. “Como você pode ver”, afirmou, indicando o espaço com um gesto, “não estamos falidos”.

Os legisladores temem os primeiros sinais de desastre financeiro: a inimaginável montanha de dívidas inadimplentes da Itália é um assunto discutido como se fosse uma pilha de plutônio. Os bancos do país já foram considerados grandes demais para falir, mas agora caminham lentamente para a bancarrota, ameaçando a economia global.

Durante anos, os credores italianos se arrastaram, esperando que o tempo resolvesse suas aflições. Porém, a economia italiana continua enfraquecida, sem registrar crescimento nos últimos 13 anos. Empréstimos ruins se multiplicaram. Bons empréstimos se deterioraram.

Os problemas da Itália são problemas de toda a Europa. Quase um quinto de todos os empréstimos do sistema bancário italiano são considerados problemáticos, somando cerca de ¤ 360 bilhões no fim de 2015, segundo o Fundo Monetário Internacional. Isso representa cerca de 40% de todos os empréstimos inadimplentes dos países do bloco do euro.

Nas últimas semanas, o mundo voltou os olhos para o maior credor da Alemanha, o Deutsche Bank, temendo que o banco precisasse de ajuda do governo. Contudo, embora o Deutsche tenha se tornado a crise do momento, a Itália é uma ameaça perene que, a qualquer instante, pode presentear o mundo com uma surpresa desagradável e grande o bastante para que representantes de governos de todo o planeta venham a Roma para tentar conter os danos.

O governo italiano tentou aumentar os gastos públicos para acelerar a economia. Contudo, os líderes da União Europeia, como a Alemanha, estabeleceram regras para limitar os déficits orçamentários. Além disso, os bancos italianos estão guardando dinheiro, retirando capital de uma economia já anêmica.

Tudo isso leva a Itália, a Europa, e em certa medida a economia global a um impasse considerável. É possível que a Europa jamais recupere o vigor econômico do passado e, nesse contexto, os bancos italianos criam uma emergência em câmera lenta. Os bancos italianos não serão capazes de se restabelecer sem que haja crescimento, e a economia italiana não pode crescer sem bancos saudáveis.

Massiah não tem paciência para histórias que identifiquem os bancos como fonte do perigo. A não ser por alguns casos irresponsáveis, os credores italianos não são os causadores do problema, insiste o banqueiro. Na verdade, eles são vítimas do momento histórico.

Uma recessão que durou sete anos destruiu cerca de um quarto da indústria italiana. Os índices de desemprego passam dos 11%. Muitas empresas italianas são de pequeno porte, o que as torna especialmente vulneráveis à globalização. Empresas familiares especializadas na fabricação de produtos artesanais foram massacradas pela concorrência da China. Além disso, as taxas de juros negativas mantidas pelo Banco Central Europeu para encorajar os empréstimos afetaram a lucratividade dos bancos. “A Itália é um país ‘bancocêntrico’, e a crise é gigantesca. Quando a maré baixar, não vai restar nada que preste”, afirmou Massiah.

Sintoma, não causa. Os problemas bancários da Itália são um sintoma do estilo italiano de fazer negócios, que tradicionalmente prioriza relacionamentos pessoais e laços comunitários, em vez da busca fria pela lucratividade. Durante visitas a autoridades italianas em escritórios que mais parecem versões particulares da Capela Sistina, sempre se repetem as reclamações de que as reformas passaram despercebidas. As autoridades revelam que se ressentem do fato de a Itália continuar a ser vista como o país dos irresponsáveis no centro da decadência econômica da Europa.

O ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi – magnata da imprensa viciado em bronzeamento artificial – era comicamente incapaz do ponto de vista econômico e assim entrou para os livros de história. Atualmente, quem está no controle é o jovem tecnocrata Matteo Renzi, responsável por uma série de reformas politicamente perigosas há muito tempo desejadas pelas autoridades carrancudas em Bruxelas.

Ainda assim, de acordo com alguns economistas, as reformas não são mais que uma cortina de fumaça: o verdadeiro problema está no sistema bancário, que mantém “empresas zumbi”, que jamais serão capazes de pagar suas dívidas, mas que recebem crédito o suficiente para não atrasar os pagamentos. Mas, se dizem isso ao homem responsável pelo sistema, Ignazio Visco, diretor do Banco da Itália, ele reage como se alguém tivesse atirado um objeto sujo na tapeçaria elegante de seu escritório. A maior parte das dívidas podres da Itália tem algum tipo de garantia, afirmou. “Esse é o resultado de uma situação econômica desfavorável, de sete anos de recessão quase contínua. Os bancos são um sintoma. Não a causa.”

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