Tiago Queiroz/Estadão
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coluna

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Serviços têm segunda alta seguida, mas setor deve ser o último a se recuperar a crise

Setor avançou 2,6% em julho, segundo o IBGE, mas o nível de atividade ainda está 12,5% abaixo do registrado em fevereiro, antes da pandemia

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2020 | 10h07
Atualizado 11 de setembro de 2020 | 18h02

RIO - O setor de serviços cresceu em julho, pelo segundo mês seguido, mas ainda está longe de recuperar as perdas causadas pela pandemia de covid-19, entre março e maio. O volume de serviços prestados subiu 2,6% na comparação com junho, após alta de 5,2% sobre maio, mas o nível de atividade ainda está 12,5% abaixo do registrado em fevereiro, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que divulgou nesta sexta-feira, 11, a Pesquisa Mensal de Serviços (PMS)

Para Rodrigo Lobo, gerente da PMS, por causa da essência “presencial” da maioria das atividades de serviços, o setor deverá ter uma recuperação mais lenta do que o varejo e a indústria. E os auxílios emergenciais pagos pelo governo federal deverão ter pouco efeito para estimular a demanda, diferentemente do que tem ocorrido com as vendas do varejo, que avançaram 5,2% em julho ante junho e já recuperaram as perdas com a pandemia.

Na avaliação do economista-chefe da Ativa Investimentos, Étore Sanchez, os “números ruins” do setor de serviços mitigaram o “otimismo de curto prazo” com os dados das vendas do varejo, divulgados na quinta-feira, 10, pelo IBGE. “Estamos esperando o tempo todo que os serviços demonstrem alguma recuperação, mas esse com certeza foi mais um sinal de recuperação heterogênea”, afirmou Sanchez.

Essa heterogeneidade, com algumas atividades melhores do que outras, foi verificada também dentro dos serviços. A alta de 2,6% foi puxada pelos serviços de comunicação e informação (alta de 2,2%) e pelos serviços de transportes (2,3%).

Segundo Lobo, do IBGE, na comunicação e informação, o destaque foram os portais e provedores de busca na internet, a TV aberta, que registrou aumento de receita. Isoladamente, os serviços de tecnologia da informação atingiram em julho o maior nível de atividade da série histórica, iniciada em 2012. Os transportes foram impulsionados pela movimentação de cargas.

Na contramão, os serviços prestados às famílias caíram 3,9% em julho, a única das cinco atividades investigadas na PMS com desempenho negativo na comparação com junho. O quadro dos serviços às famílias, que incluem restaurantes, salões de beleza e boa parte das atividades turísticas, é muito pior do que o do setor como um todo, pois o segmento está 56,6% abaixo do nível de antes da pandemia, em fevereiro.

“Mesmo com a flexibilização (do isolamento social), os serviços prestados às famílias mostram dificuldade de recuperação em função de sua característica presencial. Esse tipo de serviço vai demorar mais para se recuperar”, afirmou Lobo.

A desigualdade nos desempenhos é vista também dentro dos transportes: a movimentação de cargas se recupera, mas o quadro das companhias aéreas ainda é dramático. Com as viagens diretamente afetadas pelo isolamento social, o segmento ainda está 58,9% abaixo de fevereiro.

Os serviços administrativos e profissionais - que avançaram 2,0% ante junho, mas estão longe de anular a perda de 17,4% entre fevereiro e maio - ainda enfrentam um quadro marcado por empresas que, em dificuldades financeiras, cortam gastos com limpeza, segurança ou consultorias.

Conforme Lobo, a composição do crescimento dos serviços, com a demanda puxada pelos clientes corporativos, mostra que os auxílios emergenciais têm pouco efeito sobre o setor. O pesquisador lembrou que os serviços para as famílias não são essenciais e raramente podem ser prestados à distância. Além disso, a flexibilização do isolamento social ainda se dá com restrições, como na exigência para que restaurantes e hotéis reduzam suas ocupações.

“Os aumentos de renda, sejam do auxílio emergencial (para trabalhadores informais) sejam dos auxílios para a manutenção dos empregos, não são direcionados para as pessoas viajarem ou saírem para comer fora, mas para necessidades mais essenciais, como ir ao supermercado”, afirmou Lobo.

Para Alexandre Lohmann, economista da consultoria GO Associados, os dados divulgados pelo IBGE confirmam que os serviços serão os últimos a recuperarem o nível de atividade de antes da pandemia. “Os serviços de lazer dependem do fim da pandemia para voltar ao nível de antes da crise”, disse Lohmann.

Na visão do economista Lucas Rocca, da LCA Consultores, o contraste entre a recuperação das vendas do varejo e a lentidão do setor de serviços mostra que, apesar do movimento recente de melhora nas expectativas para o desempenho da economia em 2020 - nas últimas semanas, analistas têm elevado suas projeções, mas ainda preveem uma retração histórica no Produto Interno Bruto (PIB) deste ano -, há riscos pela frente.

“Estamos um pouco mais otimistas, mas temos que salientar que ainda há riscos, não só relacionados à pandemia”, afirmou Rocca, citando como exemplos a possível desaceleração de outras economias, incluindo Estados Unidos e países da Europa, e a resposta da economia quando as medidas de mitigação, como os auxílios emergenciais, forem retirados. / COLABORARAM CÍCERO COTRIM, GREGORY PRUDENCIANO E THAÍS BARCELLOS 

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