Reuters
Reuters

Ações

Empresas de Eike disparam na bolsa após fim de recuperação judicial da OSX

Na Suécia, até as igrejas aderiram ao ‘fim do dinheiro’

País do Ocidente que foi pioneiro na criação de uma cédula nacional, em 1661, agora caminha para ser a 1.ª sociedade sem dinheiro físico

Jamil Chade | CORRESPONDENTE - GENEBRA, O Estado de S. Paulo

02 de outubro de 2016 | 05h00

Nas igrejas de Estocolmo, a tradicional coleta das ofertas mudou. A cesta que por séculos circulava na hora do culto já não faz o mesmo percurso, de banco em banco. O motivo: poucos são os suecos que, hoje, carregam notas ou moedas nos bolsos. A solução encontrada pelos diáconos foi a de criar um sistema pelo qual a contribuição é feita de forma eletrônica, como praticamente tudo no país.

Caixas eletrônicos foram colocados em cada uma das paróquias. Enquanto o coral canta, o telão exibe uma conta bancária e os fiéis precisam apenas teclar por alguns segundos seu celular para fazer uma contribuição. Hoje, menos de 15% das ofertas recebidas pelas igrejas suecas vêm em dinheiro. 

A tendência não se limita aos locais de fé. A Suécia, que ironicamente foi a primeira no Ocidente a criar uma nota válida em todo o país, em 1661, caminha para ser a primeira sociedade sem dinheiro físico, um caminho que outros países desenvolvidos já começam a tomar. Na Noruega, Dinamarca, Suíça, Finlândia e Canadá, medidas também vêm sendo adotadas para incentivar a redução de dinheiro vivo na economia. 

Mas são os suecos que lideram a tendência. Segundo o Riksbank, hoje apenas 2% do dinheiro movimentado na economia local é em forma de notas e moedas. A previsão é de que, até 2020, essa taxa caia para 0,5%. Nas lojas, o dinheiro representa apenas 20% das vendas, uma queda de 50% em comparação com 2010.

Os próprios bancos já começam a eliminar o dinheiro em suas agências: 900 das 1,6 mil unidades espalhadas pelo país não entregam mais notas a seus clientes. A partir de 2017, algumas notas sumirão de circulação, assim como certas moedas. 

Na Justiça. A recusa em receber dinheiro também já levou alguns casos à Justiça. No ano passado, um paciente sueco não pôde pagar suas consultas e exames em dinheiro, num centro médico. Depois de uma batalha jurídica, os tribunais do país indicaram que os serviços de saúde não podem se recusar a receber dinheiro. 

Hoje, numa esperança de acalmar a polêmica, os bancos oferecem treinamento e formação para idosos e imigrantes que queiram entender como funciona o pagamento eletrônico. 

A resistência pode mudar em uma geração. No Canadá, um estudo realizado pela Moneris Solutions indicou que a adoção de novas tecnologias por jovens deve fazer com que o dinheiro represente apenas 10% das transações comerciais do país até 2030, contra 35% hoje. Na geração entre 18 e 34 anos, 56% preferem não usar mais dinheiro.

Numa palestra concedida em novembro de 2015 em Dublin, o presidente da Apple, Tim Cook, disse que aposta na nova geração ao promover suas novas tecnologias de pagamento. Segundo ele, a próxima geração de crianças nascidas nessa região da Europa “não saberá o que é dinheiro”. 

Mas, se essa é a realidade em áreas restritas do mundo, a transformação da economia global em um mercado sem dinheiro pode levar décadas para ocorrer. Hoje, a MasterCard aponta que 85% da movimentação no varejo continua sendo em espécie. Por dia, US$ 14 trilhões continuam em circulação em diversas moedas pelo mundo.

Fim do dinheiro. A busca por uma economia sem dinheiro circulando tem um motivo: atacar a fraude e garantir um maior controle do Estado sobre os valores no mercado. Na Suíça, por exemplo, o Banco Central discute a possibilidade de acabar com as notas de mil francos. Segundo a reportagem apurou, a meta é tentar colocar um freio na fraude e na lavagem de dinheiro, num país cada vez mais pressionado a eliminar seus sigilos. 

As medidas ocorrem num momento em que os bancos indicam uma explosão no uso de dinheiro vivo na economia desde a eclosão da crise financeira internacional, em 2008. Com temor de quebra nas instituições financeiras, grandes fortunas ou pequenos poupadores passaram a guardar suas riquezas em notas. Nos bancos, o aluguel de cofres teve uma alta sem precedentes.

Alternativa. O dinheiro não tem sido substituído apenas pelos cartões. Na Suécia, um sistema foi criado pelos bancos para permitir que tudo possa ocorrer em aplicativos no telefone, ou que contas sejam cobradas no número de telefone do correntista. 

Na Dinamarca, o mesmo sistema ganha força. Mais da metade dos 5,6 milhões de habitantes já adotam essa forma de pagamento. O objetivo do governo é ter uma economia funcional sem a circulação de notas e moedas até 2030. O DNB, maior banco norueguês, fez um apelo no início do ano para acelerar o fim do dinheiro e já não distribui notas na maioria das agências. O setor financeiro estima que isso será realidade em 2020, mas entidades de consumidores e o governo garantem que o direito de pagar em espécie será preservado.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.