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Na torcida pela Câmara

O mercado seguirá dando suporte ao presidente Bolsonaro durante 2019

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

30 de janeiro de 2019 | 04h00

O grau de otimismo dos investidores estrangeiros em relação às perspectivas econômicas do Brasil alcançou, no início desta semana, o maior nível desde a vitória de Jair Bolsonaro na eleição presidencial.

Enquanto os investidores locais vinham alimentando a alta recente da Bolsa brasileira e do câmbio, os estrangeiros, ressabiados pelo mau humor dos mercados globais em dezembro, mantiveram-se cautelosos e não embarcaram na euforia dos preços dos ativos domésticos ao longo deste mês.

Relatos recentes de um apoio mais amplo, com acordos de vários partidos, à candidatura de Rodrigo Maia (DEM-RJ) para reeleição à presidência da Câmara dos Deputados injetaram uma dose de confiança nos estrangeiros, os quais passaram a ver a aprovação de uma reforma da Previdência como um cenário cada vez mais provável, mesmo que numa versão diluída em termos de economia com gastos previdenciários.

Os estrangeiros veem Maia como um grande aliado de Bolsonaro para fazer avançar na Câmara temas importantes da agenda econômica. O Congresso retoma os trabalhos após o fim do recesso nesta sexta-feira, com a eleição à presidência da Câmara e do Senado.

Para os estrangeiros, a disputa pelo comando da Câmara é o fator de maior peso a favor da reforma da Previdência. Se a eleição para a presidência do Senado oferece incertezas, num embate indefinido entre Renan Calheiros (MDB-AL) e Simone Tebet (MDB-MS), é quem vai comandar a Câmara que ditará a tramitação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) para mudar os benefícios previdenciários no Congresso.

Ou seja, o maior obstáculo à sobrevivência e ao ritmo de tramitação à reforma da Previdência estaria na Câmara e não no Senado, na visão de investidores estrangeiros. No Senado, composto de 81 parlamentares, a negociação para obtenção dos três quintos necessários para aprovar uma PEC é menos complexa do que na Câmara, com 513 deputados.

Além disso, a adesão ao governo em medidas importantes no Senado passa mais pelo alinhamento partidário do que por questões de disputas internas por cargos e benefícios como é na Câmara. Assim, a reeleição de Maia em primeiro turno na Câmara mais do que compensaria a vitória no Senado de um candidato não alinhado com o presidente Bolsonaro.

“Para a Câmara é quase certo que Rodrigo Maia será seu novo presidente, o que é uma boa notícia, uma vez que ele já mostrou sua capacidade em coordenar o processo de votação de temas econômicos importantes durante a gestão de Michel Temer e sua mentalidade é pró reforma e ajuste macroeconômico”, diz o diretor de renda fixa de um grande banco americano.

Também o gestor de um grande fundo americano, com sede em Greenwich (Connecticut), confirma que os investidores estrangeiros estão mais otimistas com a perspectiva para a economia brasileira e esperam a aprovação de algum tipo de reforma da Previdência e de simplificação tributária, além de medidas de desregulamentação.

“O governo Bolsonaro irá provavelmente conseguir aprovar medidas vistas como ‘market-friendly’ (favoráveis ao mercado), mas o custo político para o presidente poderá ser elevado com a aprovação de reformas polêmicas, corroendo sua popularidade à medida que o ano avance”, alerta o gestor americano.

Ele diz que o mercado seguirá dando suporte ao presidente Bolsonaro durante 2019, mesmo se a proposta original de reforma da Previdência que será anunciada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, a qual se espera um texto mais profundo e duro do que o projeto do governo Temer que está parado no Congresso, acabar sendo diluída em sua versão final aprovada pelos parlamentares.

Na opinião do gestor da carteira de mercados emergentes de um grande fundo europeu, os investidores esperam uma diluição na proposta original a ser enviada pelo governo mesmo com a eleição de aliados de Bolsonaro, tanto na Câmara quanto no Senado.

Mas a eventual reeleição de Maia na Câmara torna a aprovação de algum tipo de reforma da Previdência um cenário mais provável. E, segundo o gestor acima, isso é o que importa: algum tipo de reforma. “A dúvida agora é quão diluída será a proposta da reforma que passar no Congresso”, diz.

O problema é se a versão final da reforma aprovada pelo Congresso acabar sendo bem mais diluída do que esperam hoje os investidores estrangeiros. E uma vitória de Maia não elimina esse risco.

*COLUNISTA DO BROADCAST

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