Na TV, Fraga ataca idéia de reestruturação da dívida

O presidente do Banco Central, Armínio Fraga, afirmou no programa Roda Viva, da TV Cultura, que será exibido hoje a partir das 22h30, que não há sentido em se fazer uma reestruturação "amigável" da dívida pública brasileira neste ou no próximo ano, como chegou a sugerir análise recente do banco investimentos Lehman Brothers. Segundo ele, a possibilidade de uma reestruturação da dívida é uma visão " terrorista, equivocada e desnecessária". "Mexer nos títulos da dívida interna seria um suicídio", disse o presidente do BC. O presidente do BC disse que a recompra de títulos da dívida externa que vencem em 2003 e 2004, anunciada recentemente pelo governo, é uma boa utilização das reservas internacionais do Brasil, e que "descongestiona" o próximo governo, que terá um volume menor de dívida externa para administrar.Questionado pelos jornalistas sobre o susto que os investidores tiveram com a questão da marcação a mercado para os papéis dos fundos de investimento e a potencialização que essa marcação trouxe para a instabilidade financeira, Fraga respondeu que as perdas nos fundos em maio foram de 1% a 3%, mas que esse investimento "já ganhou muito mais do que a caderneta de poupança no passado", e que "quem tem um horizonte mais longo não deveria mexer nos seus fundos de investimento agora". Sobre a razão da viagem que inicia amanhã pela Europa para tentar acalmar os investidores - entre outros motivos, sobre especulações de um eventual calote futuro para a dívida brasileira - Fraga disse que falará sobre o Brasil, que o País amadureceu e que não há "nenhuma solução mágica". Armínio Fraga disse também que os conceitos contidos na "Carta ao povo brasileiro", do candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, são positivos, importantes e que mostram um processo que vai caminhar bem para o País. Ele criticou, no entanto, a mudança no regime de meta inflacionária para o de bandas inflacionárias, proposta pelo candidato do PT. Segundo Fraga, não há razão de se utilizar bandas, porque isso reduz a flexibilidade e é uma amarração "à toa". Fraga disse também que, nos próximos dias, o BC vai divulgar as metas de inflação para 2004. O presidente do BC disse ainda, no programa Roda Viva, concordar com a avaliação feita pelo presidente do Federal Reserve, Alan Greenspan, de que o principal fator para a turbulência atual no mercado financeiro doméstico é político. "Existe uma ansiedade exagerada do que vem em 2003, mas é preciso atuar de maneira madura e serena", disse Fraga. "O Brasil precisa sair da categoria de alto risco", acrescentou. Ele sublinhou que não acredita que o País vá eleger um candidato que não assuma compromissos com a responsabilidade fiscal e que não há sentido em qualquer governo "jogar fora a estabilidade econômica já conquistada". Sobre a alta na Bolsa e a queda do dólar registrados hoje, ele disse que é difícil se dizer se foi motivada pela carta de compromisso de Lula ou se pela pesquisa do instituto CNT/Sensus, que apontou aumento das intenções de voto para o candidato José Serra, e queda para Lula. Fraga afirmou que os fundamentos da economia brasileira melhoraram nos últimos anos, mas ressaltou que ainda é preciso avançar mais. "Pois ainda não colamos grau", disse. "Ventos contra"Armínio Fraga disse que, a exemplo deste ano, houve também crises de confiança no Brasil em 1998, 1999 e em 2001. Ele afirmou que o clima hoje é o mesmo, mas com a diferença de que a condição de saída (da crise) vai ser transferida para o próximo governo. Segundo Fraga, o País tem vulnerabilidade e tem agüentado ?um tranco danado?.Segundo ele, o viés de baixa introduzido na taxa Selic, na última reunião do Copom, refletiu a inflação em queda, mas só haverá efetiva redução do juro quando houver a reversão do clima de turbulência no mercado financeiro. Ele disse que não defende o gradualismo na queda do juro e sim a adaptação das taxas às circunstâncias. Fraga admitiu que os juros no Brasil são elevados, mas que caíram de uma trajetória de 20% reais ao ano, na média dos anos 1995/1998, para os 10% atuais. Ele acredita que o juro real pode cair mais, quando passadas as turbulências. O presidente do BC fez um balanço de sua gestão dizendo que houve uma frustração, causada por tantos ?ventos contra?, mas satisfação pelo trabalho realizado no governo. O presidente do BC disse que o Brasil tem avançado, mas que a dimensão dos problemas não permite solução em quatro anos. Ele disse que espera que nos próximos quatro anos o governo reduza o custo do capital e invista mais em educação e saúde.O presidente do Banco Central defendeu ainda que a próxima diretoria do BC venha ser composta por profissionais que já passaram pelo mercado financeiro. Para ele, esses profissionais devem formar um time com diversas especialidades e devem ter relacionamento com bancos, conhecimentos de macroeconomia, de relações internacionais e, ainda, sobre normas e fiscalização. Fraga defendeu um Banco Central independente e uma regulamentação do mercado, com união da Superintendência de Seguros Privados (Susep) com a Secretaria de Previdência Complementar. Para Fraga, é importante também que haja reforço financeiro da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). O presidente do BC diz que há uma vaga na diretoria da instituição que pode ser ocupada por um representante do próximo governo a ser eleito, a partir de outubro, para acompanhar a transição. Fraga demonstrou ainda preocupação com a regulamentação do Artigo 192, da Constituição, que prevê juros máximos de 12%. Ele diz que espera que o próximo governo coloque a responsabilidade fiscal e o respeito aos contratos como metas principais.Armínio Fraga afirmou que o FMI "continuará a nos apoiar, desde que a política macroeconômica seja razoável e que se busque a solvência". Ele disse que as declarações recentes do secretário do Tesouro norte-americano, Paul O´Neill, de que não apoiaria novo empréstimo do Fundo ao Brasil, "não espelham a realidade do pensamento dos técnicos do FMI em relação ao País", e sublinhou que essas declarações não vieram num bom momento. Durante a gravação do programa Roda Viva, Fraga também concordou com o ex-ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros, de que o Brasil deveria ter saído do regime de câmbio fixo mais cedo.

Agencia Estado,

24 de junho de 2002 | 18h57

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.