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Cida Damasco
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Na vida real

No vale-tudo virtual, sobram‘soluções’ para a economia. Mas realidade desafia governo

O Estado de S.Paulo

01 Outubro 2018 | 05h00

A uma semana do primeiro turno das eleições presidenciais, parece que dois Brasis convivem em torno das principais candidaturas. Um deles, desenhado principalmente nas redes sociais, que preconizam o inferno ou o paraíso na economia do País, dependendo de quem for o vitorioso – o mergulho na recessão ou a volta à era da prosperidade. O outro Brasil, do mundo real, em que as dificuldades são mostradas na sua verdadeira dimensão e, por isso mesmo, deixam à vista, para quem quer enxergar, que não há solução simples e rápida.

É verdade que, nesta campanha eleitoral, as divisões se amplificam com espantosa velocidade pelas redes sociais, surpreendendo até mesmo quem já se considerava preparado para a perda de influência dos meios tradicionais de exposição dos candidatos, como o tempo de propaganda na TV. A vida real, porém, é uma só e desafia o novo ocupante do Planalto. Vamos a pelo menos seis pontos que comprovam a vulnerabilidade do quadro econômico e indicam que reverter esse quadro não é tarefa para amadores.

1) Há 12,7 milhões de desocupados no País e 4,8 milhões estão sem alento até para procurar emprego. A tendência é de queda, mas com uma lentidão de exasperar. Apesar da reforma trabalhista, centrada na flexibilização das relações entre patrões e empregados, 11,2 milhões mantêm algum tipo de ocupação, mas sem carteira assinada. Sinais de degradação do mercado, antes mesmo que a economia embarque de vez no ciclo inescapável de eliminação dos “velhos” empregos e na criação de outros postos, mais ajustados ao novo mundo do trabalho. 

2) Mal saída da recessão, a economia brasileira deve fechar 2018 ainda com crescimento anêmico, em torno de 1,5%, metade do que estava na planilha dos analistas no começo do ano. Consumo só reage aos soluços e sem força suficiente para movimentar a indústria e os serviços. Por enquanto, as apostas para 2019 convergem em 2,5%. 

3) Investimentos estão praticamente fora da agenda, tanto no setor privado como no público, especialmente em razão das incertezas. Programas de expansão e/ou modernização das empresas, obras de infraestrutura e de construção civil, tudo se mantém “em suspenso”. A taxa de investimentos se limita a cerca de 16% do PIB, quatro pontos abaixo do considerado adequado para o País.

4) Os juros pagos por quem toma um empréstimo ou financia a compra de um bem resistem nas alturas, na média de 52% ao ano, para as operações da chamada carteira livre para as famílias, oito vezes a taxa básica, de 6,5%. O Banco Central até tem procurado pressionar os bancos a derrubar os juros na ponta, mas só um forte – e improvável – aumento da concorrência permitiria que esse alvo fosse alcançado. 

5) As contas do setor público fecharão no vermelho pelo quinto ano, com um déficit primário (excluindo os juros) estimado em cerca de R$ 140 bilhões, frente à meta oficial de R$ 159 bilhões. E a dívida pública já supera os 77% do PIB. Ainda que não haja risco de desrespeito dos parâmetros fiscais no ano que vem – as projeções são de um rombo de R$ 123 bilhões, abaixo da meta de R$ 139 bilhões – sabe-se que a partir de 2021 a situação poderá desandar. 

6) A Previdência prossegue num caminho perigoso, com um rombo previsto para R$ 290 bilhões neste ano e R$ 308 bilhões no ano que vem, incluindo as contas do INSS e do regime próprio da União (servidores e militares). E, pior, apontando para cima. Há consenso de que é preciso partir para uma reforma que eleve a idade mínima para a aposentadoria, além de equiparar trabalhadores do setor privado e servidores públicos. Mas não há concordância em relação a todos os aspectos da reforma de Temer, até porque não entraram no mesmo “caldeirão” todos os regimes de aposentadoria, como é o caso dos militares. 

Por tudo isso, no mundo virtual, muitos palpites e avaliações podem dar a ilusão de que, com uma penada, o futuro governo conseguirá recuperar a confiança dos mercados, empresas, cidadãos comuns e, em consequência, minimizar essas vulnerabilidades da economia. Na vida real, porém, muito suor espera o futuro presidente, inclusive na articulação com o Congresso, para mostrar resultados nessa direção.

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