Nacionalização na Venezuela abala mercado e preocupa EUA

O pacote de estatização de empresas das áreas de eletricidade e de telefonia, anunciado na segunda-feira pelo presidente venezuelano Hugo Chávez, abalou o mercado financeiro do país e foi recebido com "forte preocupação" pelo governo dos Estados Unidos. A Bolsa de Caracas caiu nesta terça-feira 18,7% e a negociação das ações de duas empresas que devem ser afetadas pela estatização - a CANTV (maior operadora de telefonia da Venezuela) e a Eletricidade de Caracas - foram suspensas depois que a cotação despencou mais de 20%."As nacionalizações têm uma longa e pouco gloriosa história de fracassos ao redor do mundo", disse o porta-voz da Casa Branca Tony Snow. "Apoiamos o povo da Venezuela porque esse é um dia triste para eles". Outro funcionário americano, Gordon Johndroe, porta-voz do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, disse esperar que "empresas dos EUA atingidas sejam compensadas rápida e justamente". Regime socialistaChávez, reeleito em dezembro para um terceiro mandato (que vai até 2013) com 63% dos votos, tomará posse nesta quarta-feira. Ele anunciou seus planos como parte de um projeto de implementar um regime socialista em seu país. Chávez só se referiu explicitamente à CANTV, mas destacou a necessidade de retomar o controle de outras áreas, que foram privatizados antes de ele chegar ao poder, em 1999. O anúncio foi feito durante a posse do seu novo gabinete e surpreendeu os venezuelanos. Apesar de sua retórica socialista desde que assumiu o poder, em 1998, Chávez não havia tomado decisões tão drásticas como as prometidas na segunda-feira. Ele ainda determinou ao recém-nomeado vice-presidente Jorge Rodríguez que analise uma forma de aumentar o controle estatal nos projetos de empresas estrangeiras para exploração de petróleo na Bacia do Orinoco e prometeu acabar com a autonomia do Banco Central venezuelano. Além disso, Chávez disse que pedirá à Assembléia Nacional (parlamento) a aprovação da chamada "Lei Habilitante" - que lhe permite aprovar leis e medidas por decreto, sem que elas tenham de ser votadas no Legislativo. Antes, havia anunciado que pretende reformar a Constituição e criar um partido único para unificar as correntes governistas. "Nenhuma circunstância de conjuntura vai deter a disposição deste povo de construir uma visão de sociedade democrática", advertiu nesta terça o ministro das Finanças, Rodrigo Cabezas.Os EUA são o principal parceiro comercial da Venezuela, que contribui com 11% das importações de petróleo americanas. O comércio bilateral cresceu 24% em 2006. Várias empresas americanas que podem ser afetadas pelas medidas. A Verizon Communications detém 28,5% das ações da CANTV (apesar da maior parte das ações estar nas mãos de acionistas venezuelanos) e a AES, que no Brasil comprou a Eletropaulo, controla a Eletricidade Caracas. As petrolíferas ExxonMobil, Conoco Philips e Chevron Texaco trabalham em projetos de exploração de petróleo extra-pesado na região do Orinoco. O chefe do departamento de finanças da CANTV, Armando Yanes, exigiu explicações ao presidente. "O governo precisa explicar sua posição aos acionistas, como vai proceder, o quanto vai pagar, etc", disse. Já o presidente do Banco Central venezuelano, Domingo Maza reagiu ao discurso do presidente dizendo ser "inconcebível" um Banco Central sem autonomia.

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