Nada a aprender em Davos

O Brasil destoa mais uma vez em Davos. Em tudo. Enquanto a maior parte do mundo luta para voltar a crescer depois da recessão, o Brasil anuncia que está tentando desaquecer a economia.

ALBERTO TAMER, O Estado de S.Paulo

30 de janeiro de 2011 | 00h00

Eles lutam para crescer sem ainda conseguir, enquanto o presidente do BC, Alexandre Tombini, afirma que "o Brasil precisa lidar com a bonança". São dois mundos. Eles enfrentam a contradição de juros baixos, que não conseguem reanimar o consumo, urgência de injeções monetárias e incentivos fiscais, mas têm dívidas crescentes. O endividamento médio dos países da União Europeia, por exemplo, é de 80% do PIB, a dos Estados Unidos, 88%. No Brasil, 42,5%, com tendência a recuar.

O Brasil retira dinheiro do sistema, eleva os juros, dificulta o crédito e afirma que vai continuar assim até conter as pressões inflacionárias. Em resumo, o País não tem nada a aprender em Davos, só a ensinar.

E lá vem a inflação. Os contrastes não param. Os países ricos temem uma inflação que ainda não veio; está abaixo de 2% na média. O Brasil tem uma inflação que ganhou força e ameaça passar de 6%. Eles não sabem ainda o que fazer. Estamos lidando com a inflação, que não é um "grande problema", porque o País tem as ferramentas necessárias e está comprometido com a questão, afirmou Tombini em Davos. Não é uma política isolada do banco. É do novo governo. Dilma, que antes da posse relutava em aceitar juros mais altos para conter a demanda, esta semana foi categórica ao afirmar: "Vamos manter o controle da inflação. Não vamos negociar com ela." Deve ter sido convencida pelos dados do IBGE que registram que a renda gerada pelos salários está sendo corroída pelo aumento dos preços, imediatamente repassado para os consumidores.

A inflação está corroendo o rendimento obtido com o trabalho. A renda salarial dos empregados aumentou 3,8% no ano passado, mas foi em parte comida pela inflação, informa o instituto. Isso se choca com a meta principal da presidente de combater a miséria. É lugar comum na teoria econômica: as pessoas que vivem do salário são as que mais sofrem com o aumento dos preços no seu consumo diário.

EUA discordam concordando. O secretário do Tesouro americano, Timothy Geithner, adotou posição desafiadora em Davos. "A inflação não está no topo da lista de preocupações (dos EUA)", afirmou, para perplexidade de muitos. O importante é voltar a crescer para criar empregos e sustentar o incerto crescimento que agora se registra. Ele admitiu que a situação fiscal do país é insustentável no longo prazo, mas o presidente Barack Obama já anunciou as metas para reduzir o déficit fiscal.

Geithner reflete a posição do Fed, que temia até agora não a inflação, mas a deflação provocada pela queda da confiança e do consumo. Os países da Eurozona discordam assustados com uma inflação média de 1,7%, igual à dos EUA.

Enquanto discorda dos outros, Geithner concorda em tese com o Brasil, que quer administrar, mas não conter o crescimento. Tem instrumentos para isso e um sistema financeiro que não foi contaminado pela crise recente, como disse o presidente do BC em Davos. É possível crescer em torno de 5% com inflação e recuando ao centro da meta prevista pelo governo.

O BC foi claro na ata da última reunião: as pressões sobre os preços existem, sim, não há como negá-las, e vai continuar agindo para contê-las. A atual situação do Brasil é diferente em relação a todos os outros que estavam representados em Davos. Está baseada em uma estrutura criada nos últimos dez anos que foi testada diversas vezes, com os bons resultados que estão aí.

Agora, é enfrentar o agradável "desconforto" do crescimento provocando um estado febril, que não se combate só com aspirina, mas não ameaça se transformar em pneumonia. Pelo menos por enquanto.

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