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Nada a comemorar, nem a lamentar

Autoridades precisam ser cuidadosas ao revelarem suas preferências sobre o patamar da taxa de câmbio

Claudio Adilson Gonçalez, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2020 | 04h00

O ministro da Economia, Paulo Guedes, em algumas oportunidades, tem comemorado publicamente, e com ênfase, a forte depreciação que o real vem registrando ante o dólar, desde o ano passado. Só em 2020, até a última sexta-feira, o real desvalorizou-se 8,5%. Esse movimento de alta se dá com elevada volatilidade, o que gera incertezas. Por exemplo, no dia 13/2, um dia após o ministro fazer mais uma dessas declarações, a taxa de câmbio alcançou R$ 4,38, só recuando após intervenção do Banco Central (BC).

Quando o ministro afirma que o real depreciado “é bom para todo mundo”, é imediato concluir que ele acredita que o aumento das exportações líquidas, decorrente da depreciação cambial, acelerará a expansão do PIB. Isso se daria pelo estímulo às exportações e pela substituição de importações, inclusive de serviços. O déficit atual em conta corrente tenderia a se reduzir muito ou até mesmo a se converter em superávit. Há alguns problemas, inclusive de consistência macroeconômica, com essas manifestações de Paulo Guedes.

Comecemos pela questão macroeconômica. O Brasil tem baixíssima taxa de poupança bruta doméstica (13,6% do PIB, em 2017). Se essa restrição não se atenuar – e é provável que isso não ocorra a médio prazo –, elevar os investimentos dependerá de o País receber poupança externa, que é o mesmo que o déficit em conta corrente. Enquanto a economia opera muito abaixo do pleno-emprego, com grande ociosidade no uso dos recursos produtivos, como ocorre hoje, a baixa taxa de poupança não chega a ser uma restrição. O aumento das exportações líquidas supre a fragilidade da demanda doméstica, que naturalmente tenderia a liberar poupança.

A situação é completamente diferente quando a economia opera em pleno-emprego, no jargão técnico, quando o hiato do produto for próximo de zero. O estímulo cambial não poderá gerar aumento do investimento, a não ser que a poupança doméstica cresça. Sem isso, a depreciação da moeda provocará inflação, que forçará o BC a elevar os juros e isso abortará o efeito expansionista do câmbio.

Em síntese: economias com baixas taxas de poupança doméstica não conseguem estimular, de forma sustentada, o crescimento induzido por superávits em conta corrente.

Em segundo lugar, num mundo que opera com predomínio das cadeias globais de valor, ou seja, quando as firmas envolvidas na produção de um bem ou serviço situam-se em vários países, o efeito do câmbio sobre as exportações é pequeno, e é superado largamente pela elasticidade-renda, ou seja, pelo crescimento da renda global e, consequentemente, do fluxo de comércio mundial.

As cadeias globais de valor também limitam o efeito da depreciação cambial sobre a substituição de importações. No caso brasileiro, porém, a alta carga tributária sobre a produção, além das carências de infraestrutura, são variáveis muito mais importantes do que a taxa de câmbio, que normalmente é volátil, para a decisão de passar a produzir no Brasil partes, peças, componentes e bens de capital que hoje são importados.

Outro problema sério no raciocínio do ministro é não levar em conta que o real mais depreciado eleva o preço relativo dos bens de capital, boa parte deles importada. Isso tende a dificultar a modernização das indústrias e até de serviços, como os de diagnósticos em saúde e telecomunicações, entre outros. Claro, isso afeta negativamente a produtividade da economia.

Finalmente, depreciação cambial brusca, com volatilidade elevada, tem efeitos negativos sobre o balanço de empresas com exposição em moeda estrangeira. As autoridades da área econômica precisam levar em conta que, ao revelarem suas preferências sobre o patamar da taxa de câmbio, provocam ganhos e perdas inesperados e injustificados para os agentes econômicos.

*ECONOMISTA, DIRETOR-PRESIDENTE DA MCM CONSULTORES, FOI CONSULTOR DO BANCO MUNDIAL, SUBSECRETÁRIO DO TESOURO NACIONAL E CHEFE DA ASSESSORIA ECONÔMICA DO MINISTÉRIO DA FAZENDA

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