Felipe Rau/Estadão - 6/3/2017
O economista Mailson da  Nóbrega, ex-ministro da Fazenda no governo Sarney e sócio da Tendências Consultoria. Felipe Rau/Estadão - 6/3/2017

Nada indica que inflação vai 'arrefecer muito' nos próximos meses, diz Mailson da Nóbrega

Ex-ministro da Fazenda diz que os choques de alimentos, combustíveis e, mais recentemente, o risco trazido pelo setor elétrico têm sustentado os índices de inflação no Brasil

Fabrício de Castro e Lorenna Rodrigues, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2021 | 10h00

BRASÍLIA - A pressão inflacionária deve diminuir nos próximos meses, mas nada indica que ela vai “arrefecer muito”. Essa é a avaliação do economista Mailson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda no governo Sarney e sócio da Tendências Consultoria Integrada.

Segundo ele, os choques de alimentos, combustíveis e, mais recentemente, o risco trazido pelo setor elétrico têm sustentado os índices de inflação no Brasil. Confira os principais trechos da entrevista.

Por que a inflação está mais elevada?

Essa inflação se deve na sua maior parte a uma pressão de custos. Portanto, é uma inflação de oferta. Primeiro, temos os custos decorrentes do aumento dos preços das commodities, que é uma consequência da forte recuperação das economias da China, dos Estados Unidos e agora da Europa. Isso esteve associado a uma depreciação cambial, que não é normal em ciclos positivos de commodities. Quando as commodities sobem, a tendência é a valorização da moeda do País que exporta esses produtos. No Brasil, aconteceu o contrário: houve uma depreciação do real. Isso decorrente de riscos percebidos tanto no campo fiscal quanto no político. Essas duas forças - depreciação e aumento de preços das commodities - levou a um aumento expressivo de alimentos e matérias-primas. Além disso, houve um aumento no preço de combustíveis e, mais recentemente, de energia, em função da crise hídrica.   

O que o governo pode fazer?

Esse tipo de inflação não tem como ser combatida pelos instrumentos convencionais de política monetária. A Selic (a taxa básica de juros) está aumentando - e é necessário que aumente - para combater os efeitos secundários da inflação. Isso diz respeito ao que influencia expectativas e produz remarcações de preços. Além disso, é preciso evitar que essa inflação mais alta, provocada pelo lado da oferta, contamine a inflação para 2022. O que o Banco Central nesta altura está fazendo é olhar a inflação em 2022, e não mais em 2021. O BC não tem como evitar que a inflação este ano fique acima do limite superior da meta.

O BC vinha defendendo no ano passado que a inflação de alimentos era passageira. Mas o choque continua. 

O BC tinha razão meses atrás ao estimar que esse choque seria temporário. Porque não havia estimativa de crescimento de 6,5% dos EUA este ano nem perto de 9% da China. O que era verdade três ou quatro meses atrás não é mais verdade hoje.

A inflação de serviços preocupa para o futuro? 

Há dois fatores de pressão, que virão do andamento da economia. Em primeiro lugar, à medida que a renda aumenta, sobe a possibilidade de as empresas repassarem aos preços finais custos reprimidos. As empresas estão operando hoje com margens mais baixas, porque não conseguem repassar. O segundo ponto está ligado ao fim da pandemia. A inflação de serviços em 12 meses até maio foi de apenas 1,7%. É menos de um quarto da inflação em 12 meses do IPCA cheio. As pessoas deixaram de ter contato entre si, de ir a cinemas, teatros, restaurantes. À medida que a vacinação avança, vamos ter daqui a pouco a liberação de estádios e festas, por exemplo. Tudo isso será uma demanda adicional por serviços. Então, nada indica que a inflação vai arrefecer muito nos próximos meses. Ela vai cair, de 8,06% em 12 meses até maio para 5,8% (no acumulado de 2021), segundo nossas estimativas. Mas não para 3,50%. 

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Inflação para os mais pobres chega a 8,57% desde o início da pandemia

Enquanto o IPCA, a inflação oficial do País, ficou em 7,39%, famílias com renda de até cinco salários mínimos sentiram mais a alta nos preços no período, principalmente por causa do aumento nos alimentos

Fabrício de Castro e Lorenna Rodrigues, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2021 | 10h00

BRASÍLIA - Estigma ainda recente da economia nacional, a inflação voltou a pressionar o orçamento das famílias no Brasil, em especial as de menor poder aquisitivo. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a alta de preços atinge de maneira diferente ricos e pobres.

Desde que a pandemia do novo coronavírus começou, em março do ano passado, a inflação oficial acumulada medida pelo IPCA foi de 7,39%. Para as famílias com renda de até cinco salários mínimos, porém, o índice medido pelo INPC foi maior, de 8,57%.

No início da pandemia, os índices chegaram a registrar deflação nos meses de abril e maio de 2020, em meio à retração da atividade econômica e à onda de bloqueios em todo o País. Mas nos meses seguintes os indicadores voltaram a subir, puxados por questões específicas.

O primeiro grande choque foi a alta do preço dos alimentos. Base da alimentação do brasileiro, o arroz disparou 76% no ano passado e o feijão preto subiu 45%. A alimentação em domicílio ficou 18% mais cara.

O que os economistas veem nos números, a população em geral sente no bolso. Morador de Santa Maria, região administrativa do Distrito Federal, o pintor Valdo Rocha, de 47 anos, diz que deixou de comprar carne no último ano por causa do preço do produto. “Não sei nem te falar a frequência com que como carne. Compro de vez em quando só para não esquecer o gosto”, disse.  

Rocha, que tem renda mensal de cerca de R$ 2 mil, reclama também do preço do gás de cozinha e diz que vem deixando de comprar outros itens por conta da alta de preços. “Hoje em dia está tudo um absurdo.”

Embora a inflação atinja todas as famílias, o impacto maior recai sobre as classes mais baixas. Isso ocorre justamente porque produtos básicos - como alimentos, gás e serviços de energia elétrica - têm um peso maior na cesta de consumo destas famílias. Em outras palavras, os pobres gastam uma parcela maior da renda com comida, na comparação com os ricos. Quando o preço do arroz sobe muito, são os pobres os mais prejudicados.

“A inflação não é igual para todo mundo e incide mais desastrosamente sobre os mais pobres. As classes mais baixas estão tendo uma queda real no consumo enquanto as classes mais altas, que acumularam poupança durante a pandemia, se preparam para um aumento no consumo de serviços, que tem uma demanda represada”, explica o diretor executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado, Felipe Salto.

É por esse motivo que, no Brasil, economistas costumam repetir que a inflação é o principal encargo sobre a população mais pobre. Era assim no período de hiperinflação, entre o fim da década de 1980 e o início da década de 1990, e continua sendo assim agora.

“É um ‘imposto inflacionário’”, resume o economista Fernando Ribeiro Leite Neto, professor do Insper em São Paulo. “Com o mercado de trabalho fragilizado, o espaço para recomposição salarial é muito reduzido. Boa parcela da população está tendo perda de renda real (descontada a inflação).”

Dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostram que, em meio à crise provocada pela pandemia de covid-19, apenas 38,5% dos reajustes salariais em 2020 resultaram em ganhos reais - ou seja, em aumentos acima da inflação. Outros 34% dos reajustes foram equivalentes à inflação e 27% ficaram abaixo do índice de preços.

Para o economista Mailson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda no governo Sarney e sócio da Tendências Consultoria Integrada, as classes mais baixas estão sofrendo um “duplo efeito” na renda. “Primeiro pela pandemia, que afetou de forma mais séria o mercado informal, onde estão os mais pobres”, explicou. “Segundo porque isso é agravado pela inflação mais elevada.”

Mailson lembra que a inflação é sempre uma espécie de “imposto inflacionário”. “Claro que isso é tolerável em níveis baixos, de 2% a 3%. Mas sempre que o índice sai disso, o imposto inflacionário se acentua, como está acontecendo agora”, diz.

“Quando a inflação aumenta, os preços ficam mais altos e o governo arrecada mais sem aumentar a alíquota de imposto. A inflação produz um aumento de receita sem o governo fazer esforço nenhum”, completa Salto.

O efeito é ainda maior sobre os mais pobres, que consomem bens e serviços que são mais tributados do que a renda. Assim, as camadas mais vulneráveis bancam a maior parte do “imposto inflacionário”. 

O diretor da IFI ressalta que o aumento da inflação tem um efeito de “melhora artificial” das contas públicas, mas que não se sustenta no longo prazo. A inflação faz com que suba o valor nominal do Produto Interno Bruto (PIB). Isso ocorre porque o preço dos bens produzidos na economia está mais alto, e não porque há aumento da atividade econômica propriamente dita. Crescendo o PIB, a relação entre dívida e PIB também fica menor em um primeiro momento.

“O problema é que não é sustentável. Não tem nada de estrutural acontecendo. O PIB potencial não aumentou, a produtividade está caindo, não aprovamos reformas para valer desde a da Previdência”, diz Salto. “A partir de 2022, voltamos aos problemas conhecidos. Temos risco de aumento de juros, de políticas externas afetarem a dinâmica da economia brasileira e o não avanço nas agendas que importam.” 

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Após alimentos e combustíveis, energia e serviços são ameaças inflacionárias

Gasolina e gás de botijão acumulam altas de 24,7% e 14,25% este ano, respectivamente, e agora, com a crise hídrica, a conta de luz também deve subir

Fabrício de Castro e Lorenna Rodrigues, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2021 | 10h00

BRASÍLIA - A escalada mais recente da inflação no Brasil é resultado, em grande parte, da pandemia de covid-19. Em primeiro lugar, a reaceleração de algumas das maiores economias ainda em 2020, principalmente a chinesa, elevou a demanda pelas commodities (produtos básicos) agrícolas brasileiras. Isso se traduziu na alta dos preços dos alimentos no mercado interno. 

Um segundo fator está ligado à elevação dos preços do petróleo no mercado internacional, que afetou o custo dos combustíveis no Brasil. O preço da gasolina encerrou 2020 praticamente estável, mas em 2021 até maio já subiu 24,7%. O gás de botijão - item importante para o orçamento das classes mais baixas - subiu 9,2% no ano passado e 14,25% este ano.         

Outro fator que contribuiu para a inflação foi o dólar. A moeda americana à vista se manteve em níveis superiores a R$ 5,50 durante boa parte do ano passado e deste ano, a despeito de o Brasil estar recebendo mais dólares em função da exportação de commodities.

Por trás disso estão as preocupações com o futuro da economia brasileira e com a sustentabilidade do déficit orçamentário do País. Como muitos produtos consumidos no Brasil são influenciados pelo câmbio, o dólar mais alto ajudou a sustentar a inflação. Somente recentemente a moeda americana perdeu força ante o real e se reaproximou dos R$ 5.

“Quando a pandemia veio, havia o temor de que os gastos (para fazer frente ao coronavírus) se tornassem permanentes. Houve uma desconfiança em relação à política fiscal que gerou alta do dólar, combinada ao aumento nos preços das commodities”, resume o diretor de Estudos e Políticas Macroeconômicas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), José Ronaldo Souza Junior. 

Mais recentemente, dois novos fatores entraram no radar do governo: o custo da energia elétrica e a inflação de serviços. No primeiro caso, a seca que atinge a região das hidrelétricas tende a elevar os preços da energia, como forma de compensar os gastos extras que o País terá com a produção das termoelétricas. Em 2020, a energia elétrica residencial ficou 9,14% mais cara. Em 2021 até maio, há uma baixa de 0,53%, mas a tendência é de elevação nos próximos meses. 

“O mercado coloca no cenário de inflação diversos riscos e um deles é a questão energética”, explica o economista-chefe da Greenbay Investimentos, Flávio Serrano. Desde junho, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) mantém acionada a bandeira vermelha patamar 2 no sistema elétrico - os brasileiros estão pagando R$ 6,24 a mais por cada 100 quilowatts-hora (kWh) consumidos.

Para piorar, estão em discussão na agência reguladora novos valores para as bandeiras tarifárias. Pela proposta apresentada em março, no patamar 2, o mais caro do sistema, o reajuste pode chegar a 21%, passando para R$ 7,57 a cada 100 kWh. “O risco é de termos mais inflação, e não menos”, alertou Serrano.

Outro fator que ganhará importância nos próximos meses é o custo dos serviços. O Banco Central já vem alertando que, em países onde a vacinação está mais avançada, surgiu uma “euforia de consumo” entre a população. Nos Estados Unidos, por exemplo, as pessoas passaram a alugar mais automóveis, a reservar mais hotéis e a comprar mais passagens aéreas. “Acreditamos que esta euforia da reabertura vai acontecer no Brasil também”, disse no início do mês o presidente do BC, Roberto Campos Neto, durante evento virtual do JP Morgan.

Todo este conjunto de fatores fez as projeções de inflação para 2021 e também 2022 subirem nos últimos meses. O Relatório de Mercado Focus - que compila os cálculos do mercado financeiro - indica atualmente que a inflação terminará 2021 em 5,82%, bem acima da meta de 3,75% perseguida pelo BC. A projeção para 2022 está em 3,78%, também acima da meta de 3,50%. 

Para evitar um descontrole inflacionário, o BC vem elevando os juros desde março deste ano. Na semana passada, a autarquia promoveu o terceiro aumento consecutivo de 0,75 ponto porcentual da Selic (a taxa básica da economia), para 4,25% ao ano. Os economistas do mercado financeiro esperam que, até o fim de 2021, a Selic chegue a 6,25% ao ano. 

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