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Nadando de braçada

Os movimentos de Bolsonaro não parecem improvisados. Há cálculo político

Zeina Latif*, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2020 | 04h00

A recente rodada de pesquisas de opinião confirmou o que alguns analistas já apontavam: o aumento da aprovação de Bolsonaro entre as camadas mais populares. Ambas as pesquisas, Datafolha e XP-Ipespe, indicam taxa de 37% para avaliação boa e ótima, com maior avanço entre mulheres, nordestinos, do interior e com renda de até cinco salários mínimos.

É inevitável a interpretação – e pesquisadores encontraram evidências – de que o auxílio emergencial foi a principal razão para esse resultado. Maurício Moura também identificou que 80% dos beneficiários de cidades pequenas e médias do Norte e Nordeste acham que o benefício é permanente.

Não à toa o presidente pretende estender o auxílio emergencial até o fim do ano e avança com a proposta do Renda Brasil, ainda que redimensionados. Há reconhecimento sobre a necessidade de ajustes. Se vai relaxar o teto de gastos ou vai procurar remanejar recursos do Orçamento, é outra história. Muito improvável que o Congresso não aprove a medida, que conta com o apoio da esquerda.

A saída de Sérgio Moro da pasta da Justiça, por outro lado, cobrou seu preço. No entanto, afetou mais as classes privilegiadas – onde estão os “lavajatistas” – que reduziram o apoio ao presidente. Já as classes populares são menos sensíveis ao tema da corrupção, segundo pesquisadores.

Os dados sugerem que outros fatores também contribuíram para a elevação da popularidade de Bolsonaro. Aparentemente, o seu discurso tem tido bastante aderência na classe “batalhadora”. 

No enfrentamento da covid-19, é inevitável concluir que Bolsonaro mostrou-se muito eficiente em sua comunicação. Apesar de 50% dos entrevistados pela XP-Ipespe avaliarem que o presidente conduziu mal a crise de saúde (ante 26% dos governadores), isso não impediu a recuperação de sua popularidade, sendo que pelo Datafolha, 47% acreditam que ele não tem culpa nenhuma pelas mortes.

Um outro ponto é que, provavelmente, a retórica de Bolsonaro de haver uma dicotomia entre a economia e o isolamento social teve ressonância, especialmente nas classes populares. A professora Esther Solano, que conduz pesquisa qualitativa entre bolsonaristas moderados das classes C e D, aponta que esse grupo teme mais a perda de renda do que a doença. O isolamento social seria privilégio dos mais ricos.

O silêncio de Bolsonaro em temas polêmicos e sua mudança de estilo podem também estar ajudando na melhora de sua imagem. O presidente agora adota o estilo “paz e amor”, suspendendo as falas ácidas e beligerantes no Palácio da Alvorada, procurando corrigir um problema apontado por Esther, que é o desconforto dos moderados com o seu comportamento considerado autoritário e indecoroso.

O estilo do presidente é controverso, mas é possivelmente um dos políticos que hoje mais entendem os anseios das classes populares, com a vantagem de ter visibilidade e palanque, o que tem explorado em suas viagens pelo País. Enquanto isso, os políticos de centro se mostram menos conectados. Discutem importantes questões éticas e relativas à democracia, mas nem tanto a realidade da nova classe média, que teme perder seu status quo.

Interessante notar que, na pesquisa XP-Ipespe, as notícias sobre o presidente são vistas como desfavoráveis para 48% dos entrevistados. Apenas 12% as julgam favoráveis. O balanço já foi pior. De qualquer forma, o descompasso em relação à taxa de aprovação sugere alguma discordância ou até injustiça na forma como se noticia o presidente. Talvez a imprensa fale de política mais do que a sociedade aprecie.

Não parece coincidência que o aumento de popularidade de Bolsonaro ocorra enquanto caem as aprovações de governadores e do Congresso, que haviam dado um salto após o início do isolamento social.

Olhando adiante, é difícil avaliar a resiliência da aprovação de Bolsonaro, dada a complexidade e as incertezas do quadro atual. As ações do presidente sugerem que ele compreende isso. Seus movimentos não parecem improvisados. Há cálculo político.

*CONSULTORA E DOUTORA EM ECONOMIA PELA USP

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