Fabio Motta/Estadão - 5/4/2019
Fabio Motta/Estadão - 5/4/2019

'Não acho que corremos risco de hiperinflação', diz economista

Porém, segundo Armando Castelar, dívida em trajetória crescente pode impedir o BC de aumentar os juros para segurar a inflação, sob o risco de piorar situação das contas públicas

Entrevista com

Armando Castelar, economista do Ibre/FGV

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2020 | 00h08

Ao contrário do afirmado pelo ministro da  EconomiaPaulo Guedes não há risco de hiperinflação no País hoje, segundo Armando Castelar, economista coordenador da área de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV)

Segundo ele, porém, caso a dívida continue sua trajetória crescente, o Banco Central pode cair em uma situação de “dominância fiscal”, na qual se vê impossibilitado de aumentar os juros para segurar a inflação porque, se o fizer, a dívida dispara. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Há risco de hiperinflação no Brasil como disse o ministro Paulo Guedes?

No momento, acho que não. Seria difícil uma inflação de 3,5% ao ano saltar para hiperinflação. Três questões sobre inflação estão na mesa. Primeiro, ela tem subido. A deterioração nos últimos meses foi grande e concentrada em alimentos, que estão com inflação acumulada de 18%. Alimentos são muito presentes na cesta de consumo. Então a inflação é percebida. Uma segunda questão é se essa perda de controle continua. A inflação já está perto do centro da meta (4%). Há uma preocupação de a alta ser repassada para os preços no ano que vem, quando a meta cai para 3,75%. A notícia de uma vacina aumenta a preocupação. O preço do petróleo também está subindo. A terceira discussão, que é na qual a declaração do ministro está ancorada, é que, se a dívida continuar crescendo, podemos chegar a uma situação em que o Banco Central fica amarrado para aumentar os juros (e segurar a inflação). Isso é conhecido como dominância fiscal, quando a preocupação fiscal domina a política monetária. Nesse caso, chega um ponto em que elevar juros faz a situação fiscal explodir.

Qual a probabilidade de isso acontecer?

Depende de se adotar medidas ou não (para conter o endividamento). Se não se adotar nada, ao longo do tempo, acaba ocorrendo esse cenário. Não é algo rápido e não necessariamente culmina em hiperinflação, mas em inflação mais alta. 

O ministro Paulo Guedes se disse frustrado por não ter conseguido fazer nenhuma privatização até agora. Privatizar resolverá o problema?

Não. Ele quis dizer que, privatizando, gera receita, que pode ser usada para abater dívida, mas não reduz o crescimento da dívida. Privatização não vai gerar receita significativa na dinâmica da dívida. Privatização é algo que se faz uma vez. O déficit fiscal vem todo ano. Adia o problema, mas não resolve.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.