Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Juros

E-Investidor: Esperado, novo corte da Selic deve acelerar troca da renda fixa por variável

'Não acho que se deve usar recurso do povo para ajudar montadora', diz presidente da Suzano

Schalka defende que governo seja 'seletivo' ao atender lobby de diferentes setores por ajuda financeira; executivo participou da série de entrevistas ao vivo 'Economia na Quarentena'

Entrevista com

Walter Schalka, presidente da Suzano

Fernando Scheller e Mônica Scaramuzzo, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2020 | 15h15

O presidente da Suzano, Walter Schalka, afirmou nesta quinta-feira, 16, na série de entrevistas ao vivo Economia na Quarentena, do Estadão, que o governo deve ser bastante seletivo ao conceder ajuda financeira a empresas em consequência da crise gerada pela pandemia do coronavírus. "Acho que vai ter um lobby geral para benefícios setoriais, mas o governo tem de ser muito seletivo nos benefícios para grandes empresas. É diferente da pequena, média e principalmente das microempresas. Essas sim precisam de apoio."

Um pacote de R$ 50 bilhões, destinado a segmentos como companhias aéreas, montadoras e empresas de energia elétrica, está sendo desenvolvido pelo governo, em parceria com os principais bancos do País. "Não vejo necessidade de ajudar todas as empresas de todos os setores. O setor de papel e celulose, eu posso assegurar que não precisa de apoio do governo neste momento. O setor aéreo, que é crítico e estratégico, deveria ser apoiado sim. Mas não acho que montadora, principalmente porque grande parte das montadoras são empresas multinacionais, deveria receber recurso barato, do povo brasileiro." 

Em relação às ferramentas para lidar com recessão que certamente virá com o coronavírus, Schalka disse que Executivo e Legislativo não devem perder o foco nos problemas estruturais para o País. Para ele, é um erro adiar as reformas estruturais, como a administrativa e a tributária. "Ouvi que essas reformas seriam jogadas para 2021. Elas deveriam ser feitas ainda este ano."

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

A Suzano faz parte de um grupo de empresas que lidera o movimento Não Demita. As empresas terão fôlego financeiro para atravessar esta crise?

A Suzano, desde o início, tomou uma atitude muito clara de não demitir, mas nós somos uma empresa muito privilegiada. Exportamos uma parte significativa de nossos volumes. Mas não posso fazer uma correlação com outras empresas que estão em momento mais delicado. Achamos que é importante não demitir, exortamos a todos a fazer o mesmo, mas entendemos aqueles que precisam fazer isso. 

O governo lançou um pacote de ajuda para bancar a folha de pagamento de empresas, além da medida provisória de redução de jornada e salários. Isso ajuda a conter as demissões?

O governo federal acertou com esta MP. Isso permite uma flexibilidade de alternativas para o empresariado e trabalhador para que possamos sustentar o emprego. À medida que as coisas se encaminharem, as empresas vão preferir ficar com os trabalhadores porque elas vão sair melhor pós-pandemia.

O governo está jogando mais dinheiro na economia e consequentemente vai ficar mais endividado. Como reequilibrar as contas públicas?

Acredito que a gente deve aproveitar esse momento. Nestas crises, surgem oportunidades. Queria convidar o Executivo e Legislativo para redesenharmos sistemas tão fundamentais do Brasil, como a reforma administrativa e tributária. Esse é um momento em que podemos fazer a transformação acontecer e sairmos melhor na frente. Grande parte das empresas tem uma ação de redução de gastos. É o momento de o governo fazer isso mesmo e dar um salto de produtividade. A participação do governo na economia é grande. Ouvi o secretário Mansueto (Almeida) dizendo que as reformas devem ficar para o ano que vem. Queria sugerir para anteciparmos como contrapartidas a apoio a Estados e municípios a fazerem as reformas tão necessárias ao Brasil.

Mas, com tantas ações emergenciais agora, há clima para essas reformas?

Acredito que essa é hora e oportunidade de alteração. O déficit brasileiro, que era da ordem de cento e poucos bilhões de reais, vai saltar para R$ 1 trilhão. Temos de dar apoio neste momento para todos os vulneráveis – pessoa física e empresas, o que vai levar o déficit lá para cima. Por outro lado, teremos uma queda de PIB. A relação dívida/PIB vai aumentar. O Brasil tem de se reconstruir neste momento. Além das reformas administrativa e tributária, há outra série de reconstruções para se fazer uma sociedade mais justa e equilibrada, reduzir a desigualdade. Todo mundo vai empobrecer. Este é o momento para fazer  as reformas.

Estamos vendo um descompasso entre Executivo e Legislativo. Além disso, um desalinhamento de discurso entre governos federal e parte dos governadores. Há um movimento uníssono do empresariado para essas reformas?

Meu discurso é de união e empatia neste momento. Temos de pensar juntos a forma de mitigarmos os efeitos dessa crise. Temos de explorar nossas convergências. Costumo dizer que nós temos 80% a 90% de convergências e 10% de divergências. Mas gastamos mais de 80% do tempo discutindo as divergências. É sadia essa diferença de ideias. Mas o que temos de fazer agora é explorar as convergências, atender à sociedade, perder o menor número de vidas. Entender nosso papel na geopolítica global. Como as empresas podem ser menos afetadas lá na frente. 

Temos de deixar mais claro onde a gente precisa do Estado e onde não precisa?

O Estado precisa ter um colchão para operar nesses momentos de crise. Infelizmente, vínhamos de uma economia debilitada, nível de desemprego elevado e muitas empresas numa situação muito difícil e a população não sendo atendido em serviços básicos, como saúde e educação. Muitos dizem que, quando passar a pandemia, vamos voltar ao normal. Na verdade, precisamos criar o novo normal. Temos de atender os vulneráveis, mas pensar no futuro. Temos de investir o nosso tempo para pensar como  a gente reconstrói a sociedade. Não só no Brasil, mas no mundo. Como vai ser a nova geopolítica? O Estado brasileiro, infelizmente, era improdutivo. Precisamos elevar a produtividade.

Haverá um grande retrocesso no comércio mundial?

Já estamos vendo isso e vai continuar acontecendo. Vamos ter um retrocesso na globalização. Quando a crise chega, os países fecham mais suas economias. Vai afetar as relações internacionais e a geopolítica, além de protecionismo.

A Suzano exporta muito para a China. Vimos recentemente ruídos de pessoas do governo e do filho do presidente com o governo chinês. Como o sr. vê isso?

Temos uma relação muito fraterna, e não só comercial. Quando os efeitos do coronavírus começaram na China, a Suzano enviou máscaras para a China. Neste momento, a China retribuiu isso. Acabaram  de chegar de lá 159 respiradores e 1 milhão de máscaras que a trouxemos para cá. Queremos manter essa relação. Não só para Suzano, mas para a China.

As exportações da Suzano foram afetadas pelo coronavírus?

Nós temos duas questões fundamentais. Uma parte importante é exportada para papéis "tissue". Vimos o consumo de papel higiênico no mundo inteiro, naquele movimento de pânico, todo mundo comprando. Por outro lado, vimos o movimento cair de papel para imprimir e escrever. Por enquanto, nossos volumes estão intactos de produção.

O sr. falou que a gente pode aprender na crise. Isso se aplica também a empresas?

Sem dúvida. Nós vamos ter uma mudança importante na forma de operar as empresas. A digitalização vai se acelerar de forma muito rápida na economia. Isso vai ser um efeito natural. A Suzano já trabalhava com home office, em média, com 800 a 900 funcionários. Agora, estamos com 100% dos nossos 4 mil funcionários de escritório em casa desde o dia 12 de março. Com exceção da China, que retomou o trabalho recentemente. Nós vamos mudar as relações entre as empresas, vamos ter um efeito grande do mercado de biotecnologia. É uma mudança importante, que favorece a Suzano, que planta e colhe árvores.

Qual sua visão sobre o pacote de ajuda de R$ 50 bilhões a grandes grupos, como companhias aéreas, montadoras e empresas de energia?

Eu acho que tem de ser muito limitado. Eu não vejo necessidade de ajudar todas as empresas de todos os setores. O setor de papel e celulose, eu posso assegurar que não precisa de apoio do governo neste momento. O setor aéreo, que é crítico e estratégico, deveria ser apoiado sim. Mas não acho que montadora, principalmente porque grande parte das montadoras são empresas multinacionais, eu não vejo necessidade de o setor receber recurso barato, do povo brasileiro. Eu acho que vai ter um lobby geral para benefícios setoriais, mas o governo tem de ser muito seletivo nos benefícios para grandes empresas. É diferente da pequena, média e principalmente das microempresas. Essas sim precisam de apoio, é para esse público que temos de olhar neste momento.

O FMI divulgou uma previsão de queda de mais de 5% no PIB brasileiro em 2020. Como o sr. vê essa piora das perspectivas?

Eu acho que essas previsões estão ainda muito otimistas. Os números serão ainda piores. Mas isso não é relevante, porque é um choque temporário que vai acontecer na economia global. O mais importante é o que vai acontecer depois. Grande parte dos países corretamente tem feito ajudas bilionárias para suas economias. Isso vai aumentar a dívida dos países. De outro lado, a política monetária não tem mais efeito, porque a taxa de juros já está muito baixa. Nós vamos ter de reconstruir esse desenho pós-pandemia. E nós não sabemos quanto tempo essa pandemia vai durar. Infelizmente, não estamos medindo adequadamente a taxa de imunização no Brasil. Todas as decisões que a gente toma hoje tem efeito daqui a 14 dias nos leitos de UTI. Então, se tivermos relaxamento do isolamento, isso vai se refletir lá na frente. Se as UTIs lotarem, vai gerar uma situação muito difícil para o sistema de saúde.

Em São Paulo, o governo vem alertando a população de que o isolamento deveria ser mais severo. Vai ser pior se relaxarmos o isolamento e tivermos de voltar para dentro de casa?

Estudos estatísticos mostram que, dentro de uma semana ou 15 dias, todas as UTIs vão estar lotadas na cidade de São Paulo. Isso gera uma situação muito delicada para os médicos, que são obrigados a escolher qual paciente vai ou não usar o respirador. A Suzano optou, há sete semanas, por trabalhar na questão dos respiradores. Importamos 159 novos respiradores, que chegaram ontem. Com Klabin, Positivo e Flextronics, estamos trabalhando com uma empresa nacional, a Magnamed, para aumentar a produção para 6,5 mil respiradores. Enquanto o sistema hospitalar não estiver preparado, nós vamos ter de ser mais restritivos no isolamento social. Vamos ter de balancear o tempo todo. Nesse momento, seria mais adequada uma taxa maior de isolamento. Em poucas semanas, podemos chegar ao limite do sistema, o que é perigoso. Nosso principal investimento foi nos respiradores, em um total de investimento de cerca de R$ 50 milhões.

Como o sr. vê a posição geral do empresariado brasileiro nessa crise?

É maravilhosa a solidariedade do setor privado no Brasil. O Rubens Menin (da MRV) e Elie Horn (da Cyrela) sempre foram a favor disso. Estamos vendo emergir o lado bom e positivo da solidariedade brasileira.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.