''Não adianta manter um crescimento artificial''

Entrevista - Claudio Haddad: diretor-presidente do Ibmec São Paulo e ex-diretor do BC; ferrenho defensor do liberalismo, economista critica política anticíclica do governo e diz que País terá de desacelerar

Leandro Modé, O Estadao de S.Paulo

31 de janeiro de 2009 | 00h00

Claudio Haddad é um dos economistas brasileiros mais identificados com o chamado liberalismo - e se orgulha disso. Há anos, dispara ácidas críticas contra o excesso de governo no País. Seria de esperar que, no meio da mais grave crise econômica global desde os anos 30, que tem levado muitos observadores a decretar o fim do capitalismo, ele estivesse na defensiva. Não está. O ex-diretor do Banco Central (BC), ex-sócio do Banco Garantia e diretor-presidente do Ibmec São Paulo mantém a fé inabalável no liberalismo econômico. E critica um certo superativismo do governo brasileiro na reação à crise. "O Brasil vai ter de desacelerar", diz. "Querer evitar que essa acomodação aconteça, às custas de subsídio e política fiscal expansionista, é contraproducente e cria problemas para o futuro." Como o governo deve reagir à deterioração da economia?O governo tem de fazer com que o ajuste à nova realidade seja feito da maneira mais fácil e tranquila possível. O que não deve fazer é tentar evitar essa nova realidade. Seria artificial. No início, o que se viu foram declarações meio ufanistas, de que a crise não chegaria ao Brasil. Agora, já tem gente até prevendo crescimento negativo, o que parece exagerado. De qualquer forma, a situação econômica se deteriorou muito - no mundo inteiro, não só no Brasil. Não adianta dizer que vamos neutralizar a crise ou vamos manter o crescimento a taxas elevadas, como se nada tivesse acontecido. Medidas para evitar crises de liquidez de curto prazo devem ser adotadas. É o que o Banco Central tem feito, por exemplo, com as reservas financiando o comércio exterior. O que pensa de uma política contracíclica e, em especial, da medida que prevê o aporte de US$ 100 bilhões na economia via BNDES?Aí já tenho sérias dúvidas. Em primeiro lugar, porque há limites na política fiscal. Certamente a política contracíclica não deveria ser feita como está sendo parcialmente feita, ou seja, com despesas de consumo do governo. Notícias como a contratação de 50 mil funcionários e aumento de salários são contraproducentes. Só atrapalham, pois colocam mais pressão na política fiscal e na dívida do governo no médio e longo prazos. O governo já gasta 40% do PIB, sendo apenas 2% em investimento. O governo deveria, portanto, contrair as despesas de consumo para dar mais espaço ao investimento. O investimento é, em princípio, uma boa despesa, desde que os projetos contemplados tenham retorno positivo. Há, ainda, o risco de essa política expandir a demanda agregada e, consequentemente, as importações. Do lado do balanço de pagamentos, já enfrentamos problemas. As exportações vão continuar caindo porque os preços de commodities e a demanda externa recuaram.Essas medidas deixam o sr. preocupado com a situação fiscal?Preocupa a forma como está sendo feito: aumento das despesas de consumo e empréstimos pelo BNDES. A pretexto de um empoçamento do crédito, os bancos oficiais estão se expandindo. Os R$ 100 bilhões do BNDES serão subsidiados, pois a taxa que os remunerará é menor que a do mercado. Mas o setor privado está limitando o crédito, portanto, não está disposto a ocupar esse espaço.Por que o crédito está sendo limitado? Se é um problema de taxas, é um problema de mercado. O fato é que há muita incerteza no ar sobre o lado real da economia, não só no Brasil, mas no mundo inteiro. O sistema bancário foi para o espaço, está sendo sustentado pelos governos, mas ao menos está estável. Do lado real, ninguém sabe o que ocorrerá. É agora que as empresas estão começando a ver o impacto da crise sobre seus consumidores, clientes, fornecedores. Vai levar alguns meses para que a situação se aclare. É natural uma certa retração. Querer impedir artificialmente essa contração pode ser contraproducente. Ou seja, a demanda das empresas vai se ajustar a essa nova realidade e, portanto, a situação se estabilizaria de qualquer maneira, sem a interferência do governo?Exatamente isso. O resumo disso tudo é que o Brasil vai desacelerar e o governo deve ver isso como consequência da conjuntura complicada. É isso. O governo tem de evitar situações extremas. Se há falta de dólar porque todo mundo fugiu do Brasil, que se usem as reservas para aplainar essas grandes variações. Isso é perfeitamente legítimo. Outra coisa é querer evitar uma situação que vai acontecer e terá de acontecer. Do contrário, vai trazer mais problemas para o futuro. O Brasil vai ter de desacelerar e é provável, dadas as características de nossa economia, que a gente até desacelere menos do que os outros. Mas alguma desaceleração significativa vai ocorrer. Não adianta manter o PIB em 4%, até mesmo em 3%, de forma artificial. É exagero falar em crescimento negativo para o Brasil?Quando a crise começou, dizia-se que havia um carry-over (carregamento) da expansão do ano passado. Por isso, o crescimento seria de 3,5%, por mais que caísse a economia. Depois, já se falou em 2,5%. Agora já se fala em 1%, 1,5% e tem gente falando em negativo, o que talvez seja exagero. O fato é que ninguém sabe. Pode ser 1%, 1,5%, 2%, pode ser qualquer coisa. E a ideia de ?fim do mercado??É ridículo. Estão pegando uma crise no sistema financeiro e associando ao fim do capitalismo. Acham que os governos têm de ter uma participação maior na economia. Se esse negócio funcionasse, o Brasil dos anos 80 teria sido uma maravilha, a União Soviética idem e assim por diante. É papo-furado das viúvas do socialismo e do intervencionismo. Falta mais regulação ao mercado?O governo brasileiro gasta 40% do PIB, o câmbio ainda é controlado. Enfim, há uma intervenção gigantesca do governo na economia. No mundo, não é uma questão de mais ou menos regulação. É questão de boa regulação. A regulação anterior era malfeita. Não tenho nada contra a regulação do sistema financeiro. Muito ao contrário: ela tem de existir, uma vez que o sistema tem proteção do governo. A contrapartida é: se o contribuinte vai, como agora, pagar pela crise, claro que o governo tem de ter controle. Mas uma coisa é regulação, outra é intervenção e operação. O sistema privado provou ser muito mais eficiente que o governo, apesar de todas as falhas. O sistema privado bem regulado é o ideal. O sr. já consegue ver luz no fim do túnel?Ainda vai ter muita coisa para acontecer do lado real. Vamos ver muita volatilidade este ano, quedas do PIB em vários países, choques. A crise pode ser extensa, mas não acho que será uma coisa tão profunda como a Grande Depressão dos anos 30. Vai durar dois, três anos? Não sei. Mas não vejo 10 anos, como nos anos 30, quando a situação só foi salva por um grande evento, como a 2ª Guerra Mundial. Quem é:Claudio HaddadÉ diretor-presidente do Ibmec São Paulo, instituição de ensino fundada em 1987. Foi diretor do Banco Central (BC) e sócio do Banco Garantia. É graduado em engenharia e mestre e doutor em economia pela Universidade de Chicago.

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