Werther Santana/ Estadão
Pastore: 'O governo negou a pandemia. Tem um presidente que manda tirar a máscara. Estamos com uma segunda onda de contágio apavorante. A pandemia faz com que as pessoas se fechem em casa. Isso reduz o PIB.' Werther Santana/ Estadão

'Não adianta só auxílio emergencial. Se não vacinar, não saímos da crise', diz ex-presidente do BC

Affonso Celso Pastore critica 'blablablá de que somos liberais' e diz que descontrole da pandemia de covid-19 fará atividade econômica retroceder no começo deste ano

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2021 | 14h10

Após a queda de 4,1% no PIB no ano passado, o Brasil deve começar 2021 com nova retração, segundo o ex-presidente do Banco Central Affonso Celso Pastore. O economista avalia que, com o descontrole da pandemia da covid-19, a atividade deve voltar a recuar no primeiro trimestre deste ano. "O governo foi negligente com a vacinação, está expondo as pessoas a morrerem na linha do tiro. Isso tudo derruba o PIB. A perspectiva é de contração no primeiro trimestre." 

Para ele, o único modo de reverter essa tendência a partir do segundo trimestre é acelerando a imunização da população. "Não adianta vir só com auxílio emergencial e blablablá de que somos liberais. Se não vacinar, não saímos desse problema", acrescenta.

Pastore afirma que uma nova rodada do auxílio emergencial causará um dano pequeno nas contas públicas, ao contrário da "negligência do governo em relação à covid" e da "omissão plena da equipe econômica no que diz respeito a um programa de consolidação fiscal que introduza confiança no País".

O ex-presidente do BC alerta também para que as pessoas não fiquem otimistas com o aumento dos investimentos em máquinas e equipamentos (formação bruta do capital fixo), que avançou 20% no quarto trimestre de 2020 na comparação com o terceiro trimestre. "Muita gente vai julgar que isso foi bom, mas praticamente todo o aumento veio da importação de bens de capital, de uma massiva importação da Petrobrás de plataformas de petróleo." A seguir, confira os principais trechos da entrevista.

Como avalia o resultado do PIB?

Do lado da oferta, os resultados dos setores de serviços e da indústria saíram como esperado. A indústria teve uma queda menor e os serviços, mais afetados pelo afastamento social, uma queda maior. A surpresa veio do lado da demanda, composta por gastos do governo, consumo das famílias e formação bruta de capital fixo (investimentos em maquinários e peças, por exemplo). O consumo contraiu como a gente imaginava, mas teve um aumento grande da formação de capital fixo. É isso que quero comentar. Muita gente vai julgar que isso foi bom, mas praticamente todo o aumento veio da importação de bens de capital, de uma massiva importação da Petrobrás de plataformas de petróleo. Pode ter gente que ache que o Brasil está crescendo, porque aumento de formação bruta de capital fixo é aumento de PIB potencial, mas isso é só a Petrobrás. Não é a construção civil. Suponha o seguinte: a Petrobrás, no passado, comprou uma plataforma, mas quem fez isso foi uma subsidiária dela no exterior. Essa plataforma foi diretamente para a Petrobrás, isso não entrou no ativo fixo dela. A Petrobrás está alugando essa plataforma de sua subsidiária no exterior. Um belo dia, a direção da Petrobrás decide que essa subsidiária exporte essa plataforma para o Brasil. Neste momento, aparece um aumento na formação bruta do capital fixo. 

Houve um desaquecimento na economia no fim do ano passado e este ano começa difícil, com a pandemia acelerando. O que podemos esperar para 2021?

Eu calculei a renda per capita do País. Como a população cresce, a renda per capita hoje está 2,9% abaixo da do último trimestre de 2019, quando começou a recessão da covid. Com relação ao início da recessão de 2014, estamos 9,4% mais pobres. A menos quem ganhou no mercado financeiro, que está mais rico. O resto da população está mais pobre. A segunda coisa, estamos vivendo um ciclo econômico diferente de todos que o País viveu, porque temos a pandemia. O governo negou essa pandemia o tempo todo. Tem um presidente que manda tirar a máscara. Estamos com uma segunda onda de contágio que é uma coisa apavorante. E isso não chegou ao fim. A pandemia faz com que as pessoas que tenham juízo e que podem se fechem em casa. Isso reduz o PIB. Quem tem juízo, mas não pode se fechar porque tem de sair para trabalhar não é inconsciente, é alguém que tem de continuar ganhando algo para sobreviver. Essas pessoas estão sendo empurradas para a frente da batalha. O governo foi negligente com a vacinação, está expondo essas pessoas a morrerem na linha do tiro. Isso tudo derruba o PIB. A perspectiva é de contração do PIB no primeiro trimestre. Só não consigo adivinhar de quanto. Não sei sobre o segundo trimestre. Mas, lembrando que a população cresce 0,8% ao ano, se a queda do PIB no primeiro trimestre for só de 1%, vamos chegar ao segundo trimestre com uma renda 4,1% abaixo da de 2019. Essa é a perspectiva que temos.

O sr. vê alguma saída? Alguma medida governamental que possa socorrer a economia?

­O que os países que têm estadistas na presidência estão fazendo é acelerar a vacinação. O Joe Biden está comprando tudo que é vacina para os Estados Unidos. Os países da Europa estão fazendo a mesma coisa. Quando não se tinha vacinação, os países fizeram lockdown. Nós estamos hesitando em fazer lockdown, apesar das mortes na rua. A gente precisava acelerar a vacinação. Isso é o mais importante de tudo. Não adianta vir só com auxílio emergencial e blablablá de que somos liberais. Se não vacinar, não saímos desse problema.

Acha, então, que, se não temos vacina, um lockdown pode ajudar na recuperação da economia?

Quem tem de dizer (sobre lockdown) é cientista e médico. Não terminar a pandemia não ajuda a economia. O que recomendo é a vacinação. 

Como avalia a deterioração das contas públicas e o impacto na economia? O governo planeja novo auxílio emergencial. Qual deve ser o resultado disso tudo?

Você pode dar o auxílio que quiser, se não tiver vacinação, a economia não recupera. Precisa de vacinação e da ajuda emergencial por duas razões. A primeira é evitar que pessoas morram de fome. Não há governo no mundo em uma situação como essa que se negaria a dar uma ajuda emergencial. O que não pode fazer é dar para 66 milhões de brasileiros, quando tem 35 milhões que estão na linha de pobreza. Em segundo lugar, o dano que isso está causando sobre o ajuste fiscal é relativamente pequeno. O câmbio está a R$ 5,73 e o juro de longo prazo, quase acima de 8,5% por causa do prêmio de risco pela falta de confiança no governo, pela falta de confiança de que ele vai fazer as reformas necessárias para a consolidação fiscal. Hoje o mercado está de cabeça pra baixo. Ninguém do mercado sai criticando o Bolsonaro, porque eles têm responsabilidade com a empresa deles. Mas os preços, o câmbio e o juro, falam por eles e gritam muito alto. Isso não é por causa da ajuda emergencial. É por causa da negligência do governo em relação à covid. A segunda questão é a omissão plena da equipe econômica do governo no que diz respeito a um programa de consolidação fiscal que introduza confiança no País. Esse é o problema fiscal sério que temos.

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Brasil deixa ranking das 10 maiores economias, após queda de 4,1% do PIB

Os dados confirmam projeções feitas em outubro pelo FMI, em decorrência da crise causada pela pandemia de covid-19

Mariana Durão, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2021 | 12h06

RIO - Com a queda de 4,1% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2020, o Brasil deixou o ranking das 10 maiores economias do mundo. As contas do economista-chefe da agência de classificação de risco Austin Rating, Alex Agostini, mostram que o País passou para o 12.º lugar, com participação de 1,6% no PIB global.  

Em 2011, o País era a sétima maior economia do mundo, posição que ocupou até 2014. Quando veio a recessão de 2015 e 2016, o Brasil perdeu duas posições nesse ranking, passando para o oitavo lugar em 2017 e para o nono, nos dois últimos anos.

Os dados confirmam as projeções feitas em outubro pelo FMI para 2020: com a crise da covid-19 e seus impactos na economia mundial, o PIB do Brasil passaria de US$ 1,8 trilhão para US$ 1,4 trilhão até o fim do ano passado - o que levaria a economia brasileira a ser ultrapassada por Rússia, Coreia do Sul e Canadá, o que de fato ocorreu. Para 2021, a estimativa é que o País desça ao 14.º lugar. 

No ranking de crescimento econômico de 50 países em 2020, o Brasil  está em 21.º lugar. Ainda assim, o tombo da economia brasileira foi menor que o da média desses países (-4,8%), mas acima da verificada no mundo (-3,5%). Apenas três países terminaram o ano marcado pela pandemia da covid-19 no azul: Taiwan, China e Turquia

Com o resultado do PIB divulgado nesta quarta-feira, 3, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil ficou logo atrás de Bulgária, Romênia e Holanda (todos com -3,8%), Letônia (-3,6%) e Estados Unidos, que aparece na 16.ª posição, com uma queda de 3,5% no PIB anual. Entre os países da América do Sul listados, a Colômbia está no 38.º lugar, com um recuo de 6,8% no PIB, e o Peru ocupa a lanterna do ranking, com uma perda de 11,1%. 

Os três primeiros lugares do levantamento são ocupados por Taiwan (+3,1%), China (+2,0%) e Turquia (+1,6%), únicas economias que cresceram no ano passado. No quarto trimestre, entretanto, essas economias já demonstraram um crescimento mais contido. A China, por exemplo, cresceu 2,6% ante o terceiro trimestre, passando ao 15.º lugar na base trimestral. O gigante asiático foi o único país do mundo onde a crise começou antes - epicentro da pandemia, registrou o tombo no PIB no primeiro trimestre, enquanto o segundo já foi de recuperação. 

A economia brasileira foi impulsionada pelo auxílio emergencial e cresceu 3,2% nos três últimos meses do ano passado, ficando na 11.ª posição do ranking trimestral. Atingida por uma primeira e depois uma segunda onda fortes da covid-19, a zona do euro teve o pior desempenho em 2020 por região, com uma queda média das economias de 7,2%. 

Para 2021 a Austin projeta um crescimento de 3,3% do PIB brasileiro, mas não há motivos para comemorar. “Em 2021 o País vai crescer por efeito estatístico, mas e depois? Provavelmente vamos voltar para a gangorra econômica, porque falta um ambiente político coeso. Em termos estruturais, isto é, fiscal, reformas, atração de investimento, vamos avançar pouco. Tudo isso compromete o crescimento de longo prazo”, diz Agostini, responsável pelo levantamento desde 2008. A estimativa para o PIB global neste ano é de avanço de 5,5%, enquanto no Brics a média é de 7,6% - ou seja, o Brasil puxa o resultado para baixo.

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O problema não é o PIB. É a falta de rumo; leia análise

Queda de 4,1% na atividade econômica em 2020 vem na sequência de três anos de avanços em torno de 1% e fecha uma década de crescimento pífio

Alexandre Calais*, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2021 | 10h10

Para uma economia que, em algum momento no início da pandemia, chegou-se a prever uma queda em torno de 10%, recuar 4,1% é quase um alívio. Mas não nos enganemos: é um número muito ruim. Seria diferente, claro, se a economia brasileira viesse num ritmo pujante e tivesse apenas sido abatida pela pandemia. Nesse caso, seria um tropeço numa trajetória virtuosa. Mas estamos muito longe disso.

Nos últimos dez anos, o crescimento brasileiro foi pífio, incluindo as quedas de 3,55% em 2015 e de 3,31% em 2016. Depois disso, foram três anos de crescimento em torno de 1%, culminando agora com mais uma queda significativa. Uma década - mais uma - perdida.

Os números são fortes, mas não são a coisa mais importante. No cenário atual, o problema é o que vem pela frente. O passado é bem ruim. Mas, olhando para o futuro, o que nos espera? A falta de rumo assusta muito mais do que saber que a economia não sai do lugar (na verdade, anda para trás) há uma década.

A nova matriz econômica imaginada no governo Dilma Rousseff, em 2011, trocou o tripé macroeconômico do governo Fernando Henrique Cardoso (câmbio flutuante, meta fiscal e meta de inflação) por um aumento dos gastos públicos, juros baixos (na marra), crédito barato via bancos estatais e desvalorização forçada do real, entre outros pontos. Deu no que deu, já conhecemos essa história.

Essa política foi revertida com a queda de Dilma e a chegada de Michel Temer. E a aposta dos empresários e do mercado financeiro era que essa mudança seria aprofundada com o governo Jair Bolsonaro, que angariou a simpatia desse segmento ao levar para sua equipe o economista Paulo Guedes, o seu 'posto Ipiranga', com sua pregação liberal.

Dois anos depois, pouco sobrou do discurso liberal. Gente que foi para o governo acreditando nesse caminho já pulou fora do barco (Salim Mattar, Paulo Uebel, entre outros). Alguns foram saídos pelas antipatias irracionais de Bolsonaro (Joaquim Levy, do BNDES; e Roberto Castello Branco, da Petrobrás). 

O episódio Petrobrás, aliás, jogou por terra qualquer esperança que alguém ainda tivesse da orientação liberal do governo Bolsonaro na economia. Pressionado pela alta de preços, a saída do presidente foi pelo caminho do populismo, puro e simples. Troca-se o comandante da empresa por um que siga as ordens do capitão. Não por acaso, cinco conselheiros da Petrobrás, entre eles ex-presidentes de grandes empresas, pediram para deixar o conselho.

Sem agenda liberal, sem privatizações, sem reformas, não há farol à vista para a economia brasileira. O que Bolsonaro mira é a sua reeleição, e vai trabalhar apenas para isso. Serão medidas de curto prazo, quando o País precisa mesmo é de um plano de longo prazo e de alguém que o abrace, de verdade. Estamos à deriva.

*EDITOR DE ECONOMIA

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Secretário de Guedes chegou a apostar que PIB cresceria 2,5% valendo 'almoço na churrascaria'

Previsão de Adolfo Sachsida foi feita em 2019, antes da pandemia; o IBGE informou nesta quarta que a atividade econômica recuou 4,1%

Lorenna Rodrigues, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2021 | 11h35

BRASÍLIA - No dia 31 de dezembro de 2019, antes da pandemia do coronavírus, o secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Adolfo Sachsida, apostou, no Twitter, que a economia brasileira cresceria “igual ou acima de 2,5%” em 2020, valendo um “almoço na churrascaria”. 

Na época, casos da doença já haviam sido registrados na China, mas ainda não era sabido o estrago que a contaminação faria por todo o mundo. A última pesquisa feita pelo Banco Central em 2019 com analistas de mercado apontava uma estimativa de crescimento de 2,3% no PIB brasileiro do ano passado. Nesta quarta-feira, 3, o IBGE divulgou que o Produto Interno Bruto (PIB) recuou 4,1% no ano passado. 

Atropelada pela pandemia, a previsão do secretário acabou virando piada nas redes sociais e até um evento no Facebook foi criado em que 522 pessoas, entre elas economistas, demonstraram interesse em participar do “Almoção na churrascaria pago pelo Adolfo Sachsida”. “Quem foi que disse que não existe almoço grátis?”, brinca a descrição do evento, em referência à frase popularizada pelo economista americano Milton Friedman (1912-2006), que expressa a ideia de que é impossível conseguir algo sem dar nada em troca.   

Ao longo do ano, com o coronavírus chegando ao Brasil em uma onda crescente, mercado e equipe econômica foram ajustando suas projeções. Em maio do ano passado, Sachsida era mais pessimista do que os analistas, e esperava uma queda de 4,7% do PIB brasileiro, enquanto o Focus estimava retração de 4,11%. No início do ano passado, instituições internacionais projetavam quedas muito maiores - o Fundo Monetário Internacional (FMI) chegou a prever queda de 9,1% e, o Banco Mundial, de mais de 8%.

Em setembro, a previsão da secretaria foi mantida em queda de 4,7%, enquanto os analistas ouvidos pelo Focus esperavam queda de 5,52%. Em novembro, a equipe econômica continuou mais otimista, esperando um recuo de 4,5%, ante 4,66% do Focus.

Em entrevista coletiva naquele mês, Sachsida chegou a dizer que a possibilidade de uma segunda onda de coronavírus no Brasil era “baixa” porque, segundo ele, vários Estados estariam caminhando para a chamada “imunidade de rebanho”. A nova previsão também foi alvo de críticas, e o secretário acabou pedindo desculpas em janeiro deste ano por ter falado do tema fora da seara econômica. “ “Foi um erro meu ter falado sobre segunda onda, aproveito a oportunidade para me desculpar”, disse.

Na terça-feira, 2, o ministro da Economia, Paulo Guedes, disse que o PIB cairia abaixo de 4%, baseado nas últimas previsões da equipe, que apontavam uma queda de 3,95% na economia brasileira. O número acabou ficando próximo ao recuo de 4,1% divulgado pelo IBGE nesta quarta-feira.

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PIB tem 3ª maior queda da história e recua 4,1% em 2020

Retomada econômica perdeu fôlego no último trimestre do ano passado, quando a atividade econômica cresceu 3,2 em relação ao trimestre anterior, informou o IBGE; resultado do ano é o pior desde o confisco das poupanças pelo governo Collor, em 1990

Daniela Amorim e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2021 | 09h09
Atualizado 03 de março de 2021 | 12h06

RIO - A retomada econômica perdeu fôlego no último trimestre do ano passado, quando o Produto Interno Bruto (PIB, todo o valor gerado na economia) cresceu 3,2% em relação ao terceiro trimestre, informou nesta quarta-feira, 3, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Diante da redução do auxílio emergencial, extinto desde janeiro, e da piora da pandemia de covid-19, a desaceleração já era esperada. Com o dado do quarto trimestre, o PIB caiu, na média de 2020, 4,1% ante 2019, o terceiro pior resultado da história.

O tombo foi menor do que a retração de 4,35% registrada em 1990, ano do confisco das poupanças pelo governo Collor, que segue marcado com a maior retração econômica anual de que se tem registro, numa série histórica desde 1901, compilada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). O segundo pior desempenho desde o século 20 foi registrado em 1981, em meio à crise da dívida externa, quando o tombo foi de 4,25%. Também veio melhor do que as projeções do mercado financeiro, que apontavam para uma retração de 4,2%, segundo pesquisa do Projeções Broadcast.

Fortemente afetado pelas medidas de restrição de circulação para conter o avanço do coronavírus, o setor de serviços encolheu 4,5% no ano e a indústria registrou queda de 3,5%. Por outro lado, a agropecuária cresceu 2%.

Pesou no resultado anual de 2020 o segundo trimestre, auge das medidas de restrição ao contato social para tentar conter a covid-19, com tombo de 9,2% ante os três primeiros meses do ano. Entre abril e junho, a retração foi tão maior do que outras já verificadas na história porque houve uma paralisação quase completa das atividades, a partir de meados de março do ano passado

Em outras crises - causadas por inflação, desequilíbrios nas contas externas ou bolhas financeiras, entre outras causas -, as empresas entram em dificuldade, suspendem investimentos e demitem funcionários, ou a renda das famílias é corroída, e elas consomem menos. Assim, lojas vendem menos, mas seguem vendendo. Indústrias veem a demanda cair e reduzem a produção, mas seguem produzindo.

Em 2020, a crise foi diferente. A pandemia fechou lojas, que não podiam receber clientes, e fábricas, que não podiam aglomerar trabalhadores. Vendas e produção foram para perto de zero ao mesmo tempo, provocando uma enorme queda na comparação com o PIB de períodos anteriores.

Para Entender

Como o PIB é calculado

O Produto Interno Bruto (PIB) é utilizado para medir a atividade econômica do país. Economistas costumam dizer que o PIB é um bom indicador de crescimento, mas não de desenvolvimento. Confira.

A partir de meados do ano, as medidas de restrição ao contato social começaram a ser relaxadas País afora. Só isso já foi suficiente para dar início à retomada, lembrou a economista-chefe da Tendências Consultoria, Alessandra Ribeiro. É o que economistas chamam de “recuperação cíclica”. As medidas adotadas pelo governo para mitigar a crise, com destaque para o auxílio emergencial, deram um impulso adicional.

“Uma coisa é parar tudo e reabrir. Só com isso, já tem uma reação da economia. Depois, o auxílio (emergencial) foi muito importante, mas houve outros estímulos”, afirmou Alessandra, citando a baixa da taxa básica de juros (a Selic, que chegou aos atuais 2,0% ao ano, menor da história) e outras medidas do Banco Central (BC) sobre o crédito, o programa de preservação de empregos formais e o Pronampe, linha de financiamentos para pequenas empresas com garantia do Tesouro, operada pelo Banco do Brasil.

Portanto, a ação do governo e do Congresso Nacional evitou um resultado anual ainda pior. Para o estrategista-chefe do Banco Mizuho na América Latina, Luciano Rostagno, a história da retomada da atividade econômica no ano passado só pode ser contada tendo os estímulos fiscais, monetários e creditícios, “sem precedentes”, como protagonistas. No momento mais pessimista das pesquisas do Projeções Broadcast, quando o IBGE informou o PIB do primeiro trimestre, no fim de maio, as projeções apontavam para uma retração de 6,5% em 2020. Dali em diante, os analistas foram revisando para cima as projeções, à medida que foram sendo divulgados dados econômicos.

A pandemia também desorganizou a economia. Com as famílias passando mais tempo em casa, o comércio eletrônico permitiu que o consumo de bens fosse mantido, beneficiando a recuperação da indústria. Com isso, o PIB industrial avançou 1,9% no quarto trimestre ante o terceiro, fechando 2020 com queda de 3,5% sobre 2019.

Por outro lado, o isolamento social seguiu afetando a prestação de serviços como alimentação fora, lazer e viagens. Com isso, o PIB de serviços avançou 2,7% sobre o terceiro trimestre, mas isso não foi suficiente para evitar a queda de 4,5% em 2020 ante 2019.

A desorganização dificulta a retomada, porque o setor de serviços responde por 73% do PIB. Esse peso também se reflete no consumo, direcionado em sua maioria para os serviços. Mesmo com o impulso do auxílio emergencial, a alta de 3,4% no consumo das famílias no quarto trimestre sobre o terceiro não evitou a queda de 5,5% em 2020.

Como a redução do poder de fogo das medidas do governo já era conhecida - em setembro, o auxílio emergencial foi reduzido de R$ 600 para R$ 300 mensais, com o último pagamento feito em dezembro - e houve a piora da pandemia em dezembro, a perda de fôlego da retomada no fim do ano era esperada. A desaceleração da recuperação continuou neste início de ano, sem o auxílio e com os sistemas de saúde no limite, e vários economistas já esperam uma retração do PIB no primeiro trimestre

“2020 é o ano que não terminou. O ano de 2021 é um ‘repeteco’, e agravado. Estamos vendo uma rebarba forte da pandemia, sem os instrumentos (para mitigar a crise), como o auxílio (emergencial), e com o desemprego e a inflação mais elevados. É um 2020 piorado”, afirmou o economista Antônio Corrêa de Lacerda, professor da PUC-SP.

Segundo Alessandra Ribeiro, da Tendências, dados de dezembro, janeiro e fevereiro apontam que o fim do auxílio emergencial tem causado impacto negativo “mais importante” do que o inicialmente estimado. Por isso, e por causa da piora na pandemia, a consultoria projetava crescimento abaixo de 3,0%, antes de saírem os dados do quarto trimestre.

Ao mesmo tempo, lembrou a economista, as discussões em torno da reedição da transferência de renda trazem à tona as incertezas sobre os desequilíbrios fiscais. O governo federal já vinha com déficits nos últimos anos por causa da crise fiscal que se arrasta desde a recessão de 2014 a 2016, mas o quadro se agravou com a pandemia. Ano passado, o déficit primário nas contas do governo - que não considera as despesas financeiras com juros da dívida - foi de R$ 743,087 bilhões, ou 10% do PIB, o maior rombo da série histórica do Tesouro Nacional, iniciada em 1997

Agora, após dois meses sem pagar o auxílio emergencial, o governo ainda negocia com o Congresso uma reedição da medida, por meio de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que autoriza a inclusão da transferência de renda no Orçamento deste ano, mas cria novas medidas de ajuste das despesas no futuro. A PEC está prevista para ser votada nesta quarta-feira, 3. 

Na visão de Alessandra, o controle da pandemia e o ritmo da vacinação são mais importantes para definir o ritmo da recuperação econômica em 2021, mas a questão fiscal poderá tirar ainda mais fôlego da retomada.

O efeito aí é indireto. Com as incertezas sobre o equilíbrio das contas do governo, agentes do mercado financeiro passam a buscar taxas de juros mais elevadas ao investir nos títulos públicos. Isso contribui para a elevação das cotações do dólar. O câmbio mais elevado serve de combustível para a inflação e poderá levar o BC a elevar os juros básicos. A elevação geral dos juros encarece investimentos e pode reduzir o ritmo de crescimento.

Para o economista-chefe da XP Investimentos, Caio Megale, as incertezas fiscais preocupam mais. Isso porque Megale - que integrava a equipe do Ministério da Economia, ocupando três cargos diferentes, até julho de 2020 - aposta que a vacinação contra avançará e que, mesmo sem o auxílio emergencial, recursos poupados pelas famílias manterão o consumo.

“O que pode piorar o cenário de PIB em 2021 não é a pandemia, não é a redução dos estímulos, mas uma piora relevante da percepção de risco”, afirmou o economista da XP.

Para Megale, a percepção de risco piorou recentemente, com a crise na Petrobrás - o presidente Jair Bolsonaro criticou a política de preços dos combustíveis e indicou um novo presidente para a estatal - e as sinalizações de que o auxílio emergencial poderá ser reeditado com poucas contrapartidas de cortes de gastos.

“Nesse ambiente, o câmbio talvez não seja tão favorável quanto a nossa projeção de R$ 4,90 (para o fim do ano). Se o câmbio for R$ 5,50, a inflação vai ficar mais pressionada, o Banco Central vai ter que antecipar a alta de juros, o que pode comprometer o crescimento no fim deste ano e do ano que vem”, completou o economista da XP.

O professor Lacerda, da PUC-SP, vê a reedição do auxílio como inevitável. Diante da elevação dos déficits nas contas públicas em todos os países, por causa do cenário inédito da pandemia, o problema maior é o governo federal não ter um plano de longo prazo de equilíbrio. No curto prazo, sem a transferência de renda emergencial, o desempenho da economia será pior em 2021, derrubando a arrecadação de tributos e, portanto, ampliando o rombo fiscal da mesma forma, segundo o economista.

“Não vamos conseguir o equilíbrio fiscal negando os recursos (para o auxílio), porque a arrecadação vai cair ainda mais, vai haver atrasos no pagamento de tributos. Não há muita alternativa se não fazer (uma nova rodada do auxílio)”, afirmou Lacerda. COLABORARAM THAÍS BARCELLOS e GREGORY PRUDENCIANO

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