Não assustem a inflação!

A semana termina antecipadamente nesta quinta-feira com muita onda sobre a inflação. Subiu, vai subir mais. Passou da meta! Só que tudo isso já era previsível. O IBGE informou na quarta-feira que, neste mês, houve forte aumento no IPCA no grupo de alimentos e transporte, 0,66%. Também não é novidade, estava nas estimativas dos analistas do mercado financeiro ouvidos regularmente pelo Banco Central.

Alberto Tamer, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2011 | 00h00

Ou seja, vamos ter de conviver, no fim de semana prolongado, com esse fantasma que já não deveria assustar tanto, por três motivos. Primeiro, já se previa que iria crescer agora e só recuaria no terceiro trimestre, depois da entrada das safras, que começa agora; 2 - O Banco Central deixou bem claro que permanece atento e está agindo com os instrumentos que tem. Só não se pode ficar esperando que essas medidas tenham efeito imediato; 3 - O governo reafirmou que o câmbio preocupa sim, mas a meta é evitar que a inflação saia do controle.

Está agindo, promete mais. Falta ao governo, nesse caso, dar mais informações sobre suas ações para evitar que se crie um clima altamente negativo de expectativa inflacionária. Ele alimenta - não ajuda - a inflação futura. Todo mundo está reajustando tudo não com o índice de hoje, mas com o de amanhã, criando uma expectativa que acaba se realizando. É uma forma indireta e nociva de indexação que já contamina cerca de 30% dos ajustes de salários, escolas, aluguéis entre outros.

É o petróleo. A novidade velha agora é o preço do petróleo. O tipo Brent aumentou mais de US$ 2,7 ontem, chegou a US$ 124. O leve, que a Petrobrás importa, e usa nas suas refinarias, US$ 111. Vai aumentar o preço da gasolina, a inflação, exclamam os mais assustados.

Uma tragédia a mais na "tragédia" da inflação? Calma, senhores. Não é bem assim. No preço da gasolina o que pesa mesmo é o álcool, nada menos que 22%. O que pesa mesmo, de verdade, são os impostos federais, estaduais, taxas. Sabem quanto? 39% !!! A composição do preço do litro de gasolina é uma verdadeira "árvore Natal" em que estão dependurados presentes para todos. Nós pagamos e ficamos de fora. Querem ver? ICMS, Cide, PIS, Pasep, Cofins. Um maná vindo dos céus (não ouso rimar...) a se alimentar do seu carro.

A Petrobrás, essa que refina gasolina com petróleo mais caro que importa, fica com 28%. Parem e tirem suas conclusões se realmente é inevitável aumentar o preço na bomba num momento em que se luta contra a inflação.

Não será, portanto, por causa da explosão do petróleo, lá fora, que os preços dos combustíveis terão de aumentar inevitavelmente aqui. Há uma boa margem de manobra. É só utilizá-la.

E os alimentos? Nesse caso, a pressão externa é maior, mas há a atenuante do câmbio e a entrada da safra nesse período do ano. O Brasil vai ter mais uma produção agrícola recorde. Sei que os produtores preferem exportar a vender no mercado interno. Cabe ao governo entrar no mercado, formando estoques reguladores, como sempre fez no passado. Se essa política for bem realizada, poderá jogar os estoques no mercado interno, atenuando, pelo menos, a alta dos preços das commodities agrícolas no mercado internacional. Sabe-se que nem sempre isso funciona muito bem e pode funcionar aqui, pois já existe uma estrutura testada.

Então não tem inflação?! Sei que o leitor, meio irritado deve estar perguntando isso. Então é tudo notícia de jornal? Há sim muitas formas de pressão sobre os preços, mas "a inflação não está fora de controle". O governo e o BC estão agindo. A notícia ruim não é que há inflação, mas que o seu combate passa por medidas de contenção da demanda e vai provocar crescimento menor este ano.

É ruim e não é ao mesmo tempo. Ao contrário da Europa e dos Estados Unidos, estávamos crescendo a mais de 7% e agora vamos crescer "apenas"4,5%...

Agora é mostrar aos consumidores que este é um sacrifício necessário para que a inflação não corroa ainda mais sua renda e reduza o padrão de vida que ele tanto lutou para conquistar. É preciso aprender a comprar de forma consciente.

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