'Não dá mais para todo mundo ganhar'

Para Haddad, PIB mundial mais fraco vai obrigar governo a rever benefícios concedidos a grupos específicos

Entrevista com

Claudio Haddad, presidente do Insper

Luiz Guilherme Gerbelli, O Estado de S.Paulo

26 Dezembro 2014 | 03h40

A economia brasileira precisa acelerar o crescimento para alcançar um lugar de destaque no cenário internacional. Na avaliação do presidente do Insper, Claudio Haddad, o Brasil só vai chegar lá quando resolver dois grandes problemas, o conjuntural e estrutural, forem resolvidos. "A parte estrutural da economia brasileira é a mais importante. Quando se analisa a economia do Brasil, embora muitos avanços tenham sido feitos na parte social, ela cresceu a uma média de apenas 2,5% ao ano desde 1990", diz. Diante do cenário econômico de menor crescimento mundial, Haddad também acredita que "alguém vai ter que perder, alguém vai ter que ganhar" no Brasil. "Entre 2004 e 2005 até 2010 com a subida dos preços commodities. Então, foi uma situação em que se pode distribuir para todo mundo, sem que ninguém perdesse", afirma. A seguir os principais trechos da entrevista concedida ao Estado.

Qual é a expectativa do sr. com a nova equipe econômica?

A equipe me pareceu a melhor possível, dadas as opções. Tem gente muito boa. O Joaquim Levy (futuro ministro da Fazenda) é de excelente qualidade. A equipe tem profissionais bons, tecnicamente preparados, então acho que efetivamente pode melhorar.

Quais são os principais problemas da economia brasileira?

Temos dois problemas básicos na economia. Um conjuntural e outro estrutural. O conjuntural está aí porque, nos últimos anos, na parte macroeconômica, o chamado tripé foi bastante fragilizado. O fiscal é um grande problema. A dívida bruta está aumentando e toda essa contabilidade criativa torna difícil saber exatamente o que se passa com as contas. Outra perna foi o câmbio flutuante, que passou a ser administrado pelo Banco Central. E a terceira perna foi o regime de metas de inflação, que foi desmoralizado. Tudo bem que ficou dentro da banda, mas a meta não é a banda. A meta é o centro.

Como a parte fiscal é o principal problemas, como acertá-la?

A parte fiscal é a mais complicada de acertar porque os gastos aumentaram muito. Há muita rigidez no Brasil. Somente uma parcela pequena do Orçamento pode ser ajustada, então inevitavelmente o ajustamento vai ter de ocorrer com sacrifício. Não dá mais para todo mundo ganhar, alguns vão ter de perder.

Por que não dá para todos ganharem no Brasil?

Nós tivemos uma situação muito peculiar entre 2004 e 2005 até 2010 com a subida dos preços commodities. Então, foi uma situação em que se pôde distribuir para todo mundo, sem que ninguém perdesse. Isso não acontece mais. A conjuntura internacional não é favorável. Então, agora existe uma situação em que não dá para fazer o omelete sem quebrar o ovo, alguém vai ter de perder, alguém vai ter de ganhar.

Como assim?

Será preciso reverter gastos que foram dados no passado e provavelmente aumentar alguns impostos. É melhor fazer um ajustamento mais sobre o lado dos gastos do que pelo lado dos impostos, uma vez que a carga tributária é muito alta no País. Mas eu acho que vai ser praticamente impossível fazer isso, então alguns impostos devem subir.

E quais grupos podem perder?

Em princípio, os grupos que receberam benefícios nos últimos quatro anos poderão deixar de receber. Uma coisa que não se faz no Brasil é uma análise da eficácia de cada política pública. Não existe uma análise para saber o que funcionou ou não funcionou.

E como o governo pode cuidar dos problemas estruturais?

A parte estrutural da economia brasileira é a mais importante. Quando se analisa a economia do Brasil, embora muitos avanços tenham sido feitos na parte social, ela cresceu a uma média de apenas 2,5% ao ano desde 1990. Essa taxa num país em que a população avançou, nesse período, a 1,2% ou 1,3% significa um crescimento da renda per capita de 1,2% ao ano. Isso é muito pouco. A renda per capita brasileira é de US$ 12 mil, mais ou menos. Nos países da Europa é, em geral, acima de US$ 30 mil, e nos Estados Unidos acima de US$ 50 mil.

Quais as consequências dessa situação, de um país com baixa renda per capita?

O Brasil precisaria tentar alcançar esses países para ser uma economia relevante no cenário internacional. Continuando assim, o Brasil demoraria 60 anos para dobrar a renda per capita. Nesse período, os outros países também estão crescendo e, portanto, esse diferencial não vai se estreitar. A economia brasileira precisaria acelerar o crescimento econômico para, eventualmente, alcançar um lugar no panorama mundial, que sempre os brasileiros almejaram. O Brasil hoje é pouco dinâmico.

Como aumentar esse dinamismo da economia?

A chave é investimento e produtividade. No Brasil se investe pouco, se poupa pouco e a produtividade é baixa. Eu acho que o modelo que nós seguimos, a partir da Constituição de 1988, se por um lado trouxe avanços sociais importantes e significativos, por outro, engessou a economia, fez com que o governo crescesse muito, então a carga tributária passou a ser alta, o que sufoca o setor privado. O ambiente de negócios no Brasil também é complicado: leis trabalhistas rígidas, isso tudo está expresso no (ranking) Doing Business (Fazendo Negócios), do Banco Mundial. Normalmente as autoridades governamentais dizem que esse indicador não serve, é mal feito. Cada indicador tem seus problemas. Mas todos contam a mesma história: o Brasil é caro e pouco competitivo no mercado mundial. O ambiente de negócios deixa a desejar, o nível de corrupção é alto. Tem de melhorar muito.

Como resolver esses problemas?

Eles deveriam ser tratados com as chamadas reformas. Há muita coisa para gente fazer nesse sentido. Fora um outro aspecto importantíssimo, que é educação. Não é possível ter produtividade alta num país cujo nível educacional é, em geral, muito baixo. O Brasil tem feito um esforço em educação, tem melhorado, mas muito devagar. Apenas 5% dos jovens entre 17 e 24 anos têm ensino considerado adequado. Isso é triste. Na Coreia, que estava atrás do Brasil no início dos anos 60, mais de 90% dos alunos têm ensino médio completo e com nível de desempenho muito melhor.

Quanto tempo é necessário para que o País avance na área educacional?

Fala-se que é que preciso de uma geração. Se a melhora tivesse sido feita uma geração atrás, nós já estaríamos lá. Tem de começar um dia porque se não a gente nunca chega lá. Dá para melhorar e fazer a coisa mais rápido.

Falta gasto público ou vontade política para melhorar a educação do País?

Não é gasto público. Sempre se pode dizer que o gasto per capital (educação) é pouco, mas é porque somos um País de baixa renda per capita. São várias coisas (que podem ser feitas) e esse diagnóstico está aí. Agora, é fundamental gestão e responsabilização para que as coisas aconteçam. Não é uma coisa do sétimo mundo, não precisa de uma tecnologia sofisticada. O que vai resolver a educação no Brasil é o método tradicional. E a partir daí pode-se pensar em outras coisas: currículo mais estendido, uma troca de melhores práticas entre as escolas. O problema não é diagnóstico, é a implementação.

Durante a campanha eleitoral deste anos, falou-se muito em repensar o modelo de ensino, sobretudo no ensino médio…

O ensino médio é um grande gargalo no Brasil. É um ensino acadêmico complicado, com muitas matérias. O ideal seria o aluno entender por qual motivo está estudando aquilo e batalhar nos conceitos importantes que ele vai ter que ter, em vez, de fazer uma coisa acadêmica. E colocar coisas práticas e, se o aluno não vai fazer faculdade, ele poderia para outro tipo de atividade profissional.

O estudante poderia ir para um curso técnico, por exemplo?

Um curso técnico, alguma coisa assim. Na Europa e na Ásia, o ensino superior é dividido em dois grupos - grupo A e o grupo B. O A é o nosso bacharelado, e o B são das pessoas que vão fazer coisas mais técnicas. Nesses locais, a divisão é mais ou menos 50% a 50%. No Brasil, os cursos tecnólogos são 10%, 15% do total. Todo mundo quer fazer bacharelado e muita vezes faz um curso que muitas vezes também não vai adiantar muito.

Só resolver o problema conjuntural e não estrutural não vai tirar o Brasil do lugar...

Não vai. Não é que seja fácil resolver o conjuntural. O primeiro você sabe a receita. O outro (estrutural) você tem de lidar com muito mais problemas políticos, resistências, mexer na lei trabalhista, por exemplo, que eu acho absolutamente essencial. Vão ter que caminhar com algumas coisas. Por exemplo, porque não se faz o OS (Organização Social) para a educação. Foi feita uma OS para a saúde com efeitos muito bons. Hospitais administrados pelo setor privado são muitas vezes melhores do que os administrados pelo setor público. Por que não permitir que o setor privado administre escolas públicas no ensino fundamental? É preciso tentar, fazer um experimento. Eu acho que o Brasil precisa flexibilizar algumas coisas e ir experimentando.

Se tudo for feito como se espera e parte dos problemas forem resolvidos, é possível imaginar que a economia volte a crescer mais nos próximos anos?

Na medida em que você da flexibilidade para o ambiente de negócios, por exemplo, cria-se uma série de expectativas. As expectativas são muito importantes nesse processo. Está todo mundo com uma visão muito negativa.

Há um exagero no pessimismo?

O Brasil tem muitas características positivas. Eu não vejo a coisa de maneira tão pessimista. Mas a visão é muito negativa. Portanto, é preciso reverter essa visão e tem de atacar os dois lados, tanto do ponto de vista conjuntural - ou seja, fazer o ajuste - quanto do estrutural para gerar uma base para um crescimento maior sustentável. O Brasil tem de partir para investimento de infraestrutura e, para isso, tem de flexibilizar regras. Precisa rever as regulamentações excessivas, No Brasil, é super amarrado, com uma lei trabalhista dos anos 30. Não tem cabimento isso. O País cresceu e tem empregados perfeitamente competentes de escolher o que é melhor para eles, e empregadores também. Porque não ter mais flexibilidade nos contratos?

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