Não dá para adiar

O Fundo Monetário Internacional se recusa a postergar os pagamentos que a Grécia tem de fazer no mês que vem

O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2015 | 02h02

Ninguém desconhece que a busca da Grécia por recursos para pagar seus credores é cada vez mais desesperada. Ainda assim, causou surpresa a notícia que veio de Washington na quinta-feira passada. Fontes do Fundo Monetário Internacional (FMI) confirmam que as autoridades gregas consultaram o órgão sobre a possibilidade de postergar os pagamentos no valor de 2,5 e 2,7 bilhões que o país deve fazer à instituição em maio e junho, respectivamente.

Os gregos ouviram um redondo não. Mas o pedido mostra que o próprio governo da Grécia já não está seguro de que conseguirá chegar a um acordo sobre um programa de reformas com seus credores a tempo. Sem esse acordo, o país não terá acesso ao socorro financeiro de que precisa para evitar um default. Yanis Varoufakis, o temperamental ministro das Finanças grego, participou da reunião de primavera do FMI, realizada entre 17 e 19 abril, mas não conseguiu desfazer a impressão de que a Grécia parece cada vez mais perto do desastre.

O pedido de adiamento dos pagamentos ao FMI é típico do comportamento imprevisível do novo governo grego, liderado pelo partido de esquerda Syriza. O fato é que as constantes mudanças nas exigências e o desrespeito à confidencialidade por parte dos gregos minaram sua credibilidade no Eurogrupo, um órgão informal que reúne todos os ministros das Finanças da zona do euro. Alguns deles já desistiram de tentar entender os objetivos dos gregos e preferem agora apenas estabelecer condições para a formalização de um acordo. Na quarta-feira da semana passada, o linha-dura Wolfgang Schäuble, ministro das Finanças da Alemanha, exigiu que o governo grego pare de iludir sua população e implemente logo reformas profundas, e concluiu dizendo que a solução do impasse "cabe inteiramente à Grécia". O presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, fez afirmações de teor semelhante em entrevista coletiva concedida no mesmo dia. Indagado se o BCE continuaria a fornecer a assistência de liquidez emergencial que vem garantindo a solvência dos bancos gregos, Draghi disse que isso "estava inteiramente nas mãos do governo grego", que precisa concluir suas negociações com a União Europeia (UE).

Só depois de Grécia e Eurogrupo chegarem a um acordo sobre uma lista de reformas, os europeus liberarão a ajuda de 7,2 bilhões de que o país precisa para pagar suas dívidas. Os gregos tinham esperança de que o acordo estaria concluído antes da próxima reunião do Eurogrupo, a ser realizada em 24 de abril, na cidade de Riga, mas autoridades de outros países dizem que isso não é mais viável. A Grécia avançou pouco no detalhamento das privatizações e das reformas do sistema de previdência e do mercado de trabalho do país exigidas pela UE. O fato de que os gregos tenham sucessivamente prestado informações inexatas sobre a situação financeira do governo - primeiro dizendo que o dinheiro talvez acabasse em fevereiro, depois em março, depois em abril - só fez aumentar o clima de desconfiança, segundo fontes com acesso às negociações.

Em Washington, Varoufakis não encontrou receptividade a eventuais adiamentos nos pagamentos que a Grécia tem de fazer ao FMI ( 200 milhões em 1.º de maio e outros 750 milhões no dia 12 do mesmo mês). É verdade que conseguiu um encontro com Barack Obama, mas foi uma conversa de poucos minutos. O prêmio de risco pago pelos títulos gregos subiu fortemente na quinta-feira; o prêmio dos títulos com vencimento de três anos chegou a quase 27%, o nível mais elevado desde 2012. A alta se deveu, sobretudo, ao fato de a agência de classificação de risco Standard & Poor's ter rebaixado a nota dos títulos de longo prazo do país de B- para CCC+. Em parte, a S&P baseou sua decisão na estimativa de que o PIB grego encolheu 1% nos últimos seis meses - uma possibilidade dramática para uma economia que só em 2014, depois de seis anos, conseguiu sair de uma recessão profunda.

Enquanto isso, em Atenas a pressão política sobre o Syriza é cada vez maior. Durante entrevista que concedeu na quarta-feira passada, Alekos Flambouraris, ministro da coordenação de operações governamentais e mais íntimo auxiliar político do primeiro-ministro grego Alexis Tsipras, insinuou que o governo pode convocar um referendo sobre a permanência ou não da Grécia na zona do euro. Como o resultado muito provavelmente seria a vitória do "sim", isso ofereceria a Tsipras um pretexto para isolar membros da extrema esquerda de seu próprio partido que se opõem às reformas. Mas o tempo é curto. Fontes do governo dizem que se a ajuda financeira não for liberada, o país ficará sem dinheiro no fim de abril, tendo de escolher entre pagar salários ou pagar o FMI. E desta vez, dizem eles, é para valer.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ANNA CAPOVILLA, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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