''Não dá para o BC ter mais de um objetivo ao mesmo tempo''

Alexandre Schwartsman, EX-DIRETOR DO BANCO CENTRAL

Leandro Modé, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2011 | 00h00

Crítico feroz da atuação do Banco Central (BC) nos últimos meses, o ex-diretor da instituição Alexandre Schwartsman avalia que o comunicado de ontem do Comitê de Política Monetária (Copom) indica que o ciclo de elevações do juro básico (Selic) se encerrou. Algo que, se confirmado, será um erro, na opinião dele. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao Estado.

O comunicado divulgado após a reunião indica que o Copom pode estender por mais tempo o ciclo de aperto dos juros?

O comunicado está muito mal escrito. Mas o que me parece é que eles estão com vontade de parar (de elevar o juro).

Se for isso mesmo, como o sr. avalia a decisão?

Se for isso, eles vão perder a meta em 2012 também. Talvez não seja tão espetacular quanto a perda da meta em 2011, pois neste ano a inflação pode até mesmo furar o teto da banda (6,5%, uma vez que o centro da meta é de 4,5% com margem de tolerância de dois pontos para cima ou para baixo).

O sr. acha possível?

Sim, é possível.

E provável?

Talvez não seja o mais provável, mas já não é algo tão remoto. As expectativas do BC para a inflação de março e abril, expressas no Relatório de Inflação trimestral, já furaram. Os números vieram acima da projeção. Ou seja, há uma probabilidade não trivial de chegarmos a dezembro com a inflação anual acima do teto da meta.

O sr. tem sido crítico do BC. A que atribui o que considera errado na avaliação do BC: erro técnico ou influência política?

É difícil dizer, até porque eu mesmo posso estar errado. O que eu vejo é uma avaliação distinta. Se há alguma pressão política, não sei. O fato é que eles têm uma avaliação mais otimista da inflação. Já há algum tempo considero errada a avaliação de que estamos vivendo um choque de oferta. Além disso, os números da economia têm mostrado um mercado de trabalho apertado. O desemprego sazonalmente ajustado está no nível mais baixo da série. Isso se tem traduzido em pressões inflacionárias. A situação hoje é aquela em que tudo tem de dar certo, todas as peças têm de cair no lugar para que se passe em uma janelinha muito estreita para entregar a inflação em 2012.

É risco demais?

É risco demais. Se uma dessas pecinhas não cair no lugar, a inflação não vai convergir para a meta.

Muitos dizem que se o BC elevasse fortemente a Selic, o real se valorizaria ainda mais.

Valorizaria o real e teria efeito sobre a economia. E daí? Qual é o objetivo do Banco Central? Estabilidade de preços, de câmbio ou ambos? Não dá para ter mais de um objetivo ao mesmo tempo. Se querem estabilizar o câmbio e a inflação, provavelmente não vão conseguir estabilizar nenhum.

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