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Não dá para o Copom sinalizar já uma redução no ritmo de alta de juros

Com a inflação por volta de 10%, o Copom precisa criar um colchão de segurança para atravessar tantas incertezas e antecipar a alta da Selic para entre 12% e 13%

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2022 | 04h00

Está praticamente escrito em pedra que o Copom irá elevar a taxa Selic em 1,50 ponto porcentual, para 10,75%, ao fim da sua reunião de política monetária hoje. Mas a questão para os investidores é se irá sinalizar outra alta dos juros na mesma magnitude em março ou se irá diminuir o ritmo do aperto.

Diante de cenários externo e doméstico incertos, o Copom poderá correr riscos desnecessários se avisar ao mercado agora que irá desacelerar o ritmo de alta de juros já na próxima reunião de março. Se as circunstâncias se tornarem mais desfavoráveis ao balanço de risco da inflação até lá, o Copom poderá ser forçado a voltar atrás na eventual promessa de reduzir o ritmo do aperto.

Na sua última reunião, em dezembro, o Copom disse que o ciclo de aperto monetário iria avançar para um território “significativamente contracionista”. Isso para fazer a inflação convergir para a meta no horizonte relevante, que inclui 2022 e, cada vez com maior peso, 2023.

Naquela reunião, o Copom projetou inflação de 4,7% em 2022 e de 3,2% em 2023, levando em conta o cenário básico, em que a taxa Selic subiria para 11,75% ao longo deste ano, mas encerraria o ano em 11,25%, e ainda um dólar partindo de R$ 5,65. Na mais recente pesquisa Focus, os analistas do mercado estimam uma inflação de 5,38% em 2022 (acima do teto da meta de 5,0%) e de 3,50% (o centro da meta é de 3,25%).

De um lado, as projeções do Copom no seu cenário básico já estão bem defasadas em comparação com o que prevê o mercado. De outro, o dólar se apreciou significativamente, encerrando a R$ 5,30 na segunda-feira, o que, em teoria, dá um alívio aos preços da economia.

Mas, desde a sua última reunião, o cenário só se tornou mais desfavorável. Primeiro, a inflação corrente voltou a surpreender para cima: o IPCA-15 de janeiro subiu 0,58%, enquanto o mercado esperava alta de 0,45%. Depois, a percepção fiscal piorou, com a ameaça, por exemplo, de desoneração dos impostos sobre combustíveis sem uma compensação, enquanto os preços do petróleo seguem pressionados. Por último, o Federal Reserve [Fed, o banco central americano] endureceu sua postura, sinalizando que vai subir os juros americanos mais vezes e mais rapidamente.

Sem falar que a eleição presidencial deve começar a gerar mais turbulência em breve. Com a inflação corrente por volta de 10%, o Copom precisa criar um colchão de segurança para atravessar tantas incertezas no curto prazo e antecipar a alta da Selic para entre 12% e (provavelmente mais perto de) 13%. Assim, não dá para sinalizar já uma redução no ritmo de alta de juros. 

*COLUNISTA DO BROADCAST

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