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Não é cedo para se falar em bolha?

A despeito dos mercados estarem se mostrando resilientes, parte dos investidores se mostra preocupada e hesita em acelerar mais

Fábio Gallo, O Estado de S.Paulo

03 de maio de 2021 | 05h00

A maioria dos analistas concorda que não vivemos um momento de bolha financeira. Mas a exuberância dos mercados, que está atingindo novos recordes, e a rapidez da recuperação desde o ano passado têm chamado muito a atenção. As ações no Brasil desde o seu pior momento, em março de 2020, até agora subiram 90,4%, como mostram os dados do Ibovespa. Nos EUA, não foi diferente: o índice Standard & Poor's 500 subiu 90,9% e o índice Nasdaq subiu perto de 58%. Mais impressionante ainda é o preço do Bitcoin, que estava abaixo de US$ 8 mil no final de abril de 2020 e chegou a valer mais de US$ 64 mil um ano depois, o que representa aumento de mais de 630%.

A despeito dos mercados estarem se mostrando resilientes, parte dos investidores se mostra preocupada e hesita em acelerar mais. Afinal, um antigo dito de Wall Street, traduzido literalmente, diz que “ninguém toca um sino no topo”, significando que ninguém sabe que o mercado está no topo e prestes a cair. As bolhas se formam quando a irracionalidade dos investidores empurra os preços para cima, além de qualquer motivo. O valor dos ativos passa a não corresponder a seu valor intrínseco, que se baseia nas expectativas de ganhos futuros. Ocorre a busca de maiores ganhos impulsionados pela especulação, rapidez e adrenalina, em vez dos fundamentos de investimento.

A forte liquidez dos mercados e a recuperação econômica de alguns países têm permitido um ambiente mais propício para especulação. O entusiasmo com o ESG, o frenesi do Bitcoin, as bigtechs, os IPOs de empresas de tecnologia têm capturado a imaginação das pessoas e pode ser uma história convincente para permitir bolhas, como aconteceu em meados dos anos 2000, quando se dizia que “os preços dos imóveis nunca caem”.

Embora estes sinais possam ocorrer, ainda não temos uma história que tenha captado mentes e corações e que mostre que estamos no caminho de uma bolha. Outro sinal que se busca é se os preços sobem independentemente das informações de mercado. Mas o que se vê nos mercados é que os preços estão sendo recuperados e a precificação não se mostra irracional. Um outro fator que entra em cena é quando os “novos” trades dizem que os antigos investidores não entendem dos novos mercados.

Mas o fato é que eles chegaram há cinco minutos no mercado e Warren Buffett, por exemplo, está presente há décadas e nunca foi pego de calças curtas.

No nosso mercado, em particular, com as baixas taxas de juros começou a migração para ativos de risco. Embora tenha impactado positivamente o mercado, não há sinais de preços sobreavaliados. Um bom investidor deve obedecer aos preceitos básicos de realizar análises, diversificar e evitar movimentos de manada e cair nas armadilhas comportamentais. Não devemos nos deixar levar pelas emoções: muitas vezes, os preços altos podem levar a preços ainda mais altos. Essa festa continua até que um dia acaba.

* PROFESSOR DE FINANÇAS DA FGV-SP

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