'Não é fácil entender o Brasil', diz dono da chilena Cencosud

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'Não é fácil entender o Brasil', diz dono da chilena Cencosud

Paulmann, dono da companhia que já é a quarta maior varejista do País, ainda não conseguiu tornar a operação brasileira rentável

DAYANNE SOUSA , O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2014 | 02h05

ATIBAIA (SP)  - Pouco conhecido no mercado brasileiro, o empresário chileno Horst Paulmann é dono da quarta maior rede varejista do País, o Cencosud - que tem sob seu guarda-chuva redes de supermercados como o GBarbosa, no Nordeste, o Bretas, em Minas e o Prezunic, no Rio. Ele raramente dá entrevistas, mas, ontem, durante a convenção da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), em São Paulo, falou sobre a operação brasileira, que vem apresentando os piores resultados do grupo, que fatura cerca de R$ 19 bilhões por ano. "Faremos um esforço para entender o Brasil", disse o fundador da empresa chilena.

A preocupação de Paulmann para compreender o funcionamento do mercado brasileiro, onde atua desde 2007, explica-se pelos resultados da operação local no último semestre. Enquanto o grupo registrou um lucro operacional de US$ 284 milhões nos primeiros seis meses do ano, os negócios do Cencosud no Brasil perderam US$ 20 milhões. No último trimestre, as vendas nas mesmas lojas, conceito que considera unidades abertas há mais de um ano, caíram 3,7% de abril a junho em moeda local.

Para justificar o crescimento menor que o das concorrentes, o empresário disse que ainda está há pouco tempo no País. "O Pão de Açúcar e o Carrefour estão no Brasil há muito mais tempo e nós, somente há seis anos", declarou. "Temos redes de pessoas excelentes e o que precisamos é entender o Brasil e trabalhar melhor. Não é fácil entender o Brasil", afirmou. "Faço 80 anos em março do ano que vem e quero morar os próximos 30 anos no Brasil", disse Paulmann a uma plateia de empresários do varejo em Atibaia, em São Paulo. "Quero conhecer sua cultura e vamos fazer um grande esforço para entender o Brasil."

Embora não descarte novas aquisições - estratégia que usou para crescer no mercado brasileiro -, o empresário disse que o foco da empresa neste momento é a reestruturação. Segundo ele, há uma necessidade de "descentralizar" os processos. "Cada marca para nós é um país distinto", comentou. Paulmann lembrou a trajetória de aquisições do grupo no Brasil nos últimos anos e considerou que um dos erros da companhia foi a substituição de marcas. Ao comprar a rede Super Família, de Fortaleza, e substituir a marca pela da rede G.Barbosa, as vendas caíram 25%.

O empresário disse ainda que o grupo precisa aumentar a participação de brasileiros na administração da operação local. "Na Bretas e na G.Barbosa, duas de nossas marcas no Brasil, nomeamos diretores brasileiros, mas agora falta um para a Prezunic", afirmou. "Devemos passar nosso negócio no Brasil aos brasileiros como fizemos na Argentina, onde nossa equipe, há muitos anos, é formada por argentinos", acrescentou.

Longo prazo. O fundador do grupo varejista ainda falou da necessidade de estratégias de longo prazo, que não levem em conta necessariamente as oscilações da economia. "A economia é como um pêndulo que sobe e desce e na América Latina devemos conviver com isso", afirmou.

Ao falar sobre crises na Argentina, brincou que "aprendeu a rezar" depois que passou a investir no país, mas disse que os momentos ruins geraram oportunidades para comprar redes concorrentes que decidiram deixar a região. Num conselho final para os varejistas de médio porte presentes no evento, declarou "não vendam suas empresas, não tenham medo dos estrangeiros, porque a qualidade do serviço os donos da casa sabem oferecer melhor."

Questionado, ele não quis dizer, se a companhia tem um plano para inauguração de novas lojas no Brasil neste ano. O Cencosud informou em sua divulgação de resultados que, durante o primeiro semestre de 2014, inaugurou apenas uma unidade nova no Brasil, de quase 1,4 mil metros quadrados de área. Confrontado com a tendência apontada por consultores e analistas de migração dos consumidores para novos formatos de loja, como os mercados de vizinhança, Paulmann afirmou que o grupo "tem muita confiança em hipermercados grandes". Sobre a possibilidade de trazer para o Brasil as operações do grupo de lojas de departamento e de materiais de construção, ele disse apenas que "tudo é possível".

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