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Não é hora de parar esse trem

Contrariamente ao que se pode ter ouvido de alguns profetas do Apocalipse, 2009 não é 1930 redux. O que devemos evitar é que 2010 ou 2011 vire outro 1936. Realisticamente, é pequeno o risco de a economia estar caminhando para uma repetição da Grande Depressão - quando o Produto Interno Bruto real dos Estados Unidos caiu 27% e o desemprego subiu para 25%. O que temos já é bastante ruim: a pior recessão desde a década de 30. Mas, a menos que nossos líderes se comportem de maneira incrivelmente estúpida, não repetiremos o trágico escorregão para o abismo de 1930 a 1933. Basicamente, por duas razões. A primeira é que a economia tem muitas salvaguardas que não existiam naquela época - como o seguro-desemprego, a Previdência Social e a garantia de depósitos bancários, para citar apenas três. Esses programas servem como redes de segurança que amortecem a queda. Embora não sejam suficientemente fortes para impedir recessões, devem bastar para evitar outra depressão.A razão mais importante é que o presidente Barack Obama, o secretário do Tesouro Timothy F. Geithner e o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) Ben S. Bernanke não são Herbert Hoover, Andrew Mellon e Eugene Meyer (Quem é esse? Meyer foi o presidente do Fed de setembro de 1930 a maio de 1933.) Em nítido contraste com o pessoal do laissez-faire que governou o poleiro em 1930 e 1931, os dirigentes econômicos de hoje não estão esperando a economia periclitante se endireitar. Deram vários passos extraordinários - e estão prontos para dar outros se for preciso. Essa é a boa notícia. Mas, mesmo que uma outra depressão seja quase impossível, ainda existe o perigo de que o próximo ano, ou o ano seguinte, possa se transformar em 1936. Vamos explicar.De seu fundo, em 1933, até 1936, o PIB avançou espetacularmente (ainda que de uma base muito baixa), com um crescimento médio de quase 11% ao ano. Mas aí, tanto o Fed como a administração de Franklin D. Roosevelt inverteram o curso.No verão de 1936, o Fed observou o grande volume de reservas excedentes acumulado no sistema bancário, concluiu que essa montanha de liquidez poderia alimentar a inflação futura e começou a esvaziá-la. Esse endurecimento da política monetária prosseguiu em 1937, numa economia fraca que estava mal preparada para ele.Por volta da mesma época, Roosevelt viu o que pareciam ser déficits orçamentários enormes, concluiu que era hora de colocar em ordem a casa fiscal e começou a aumentar impostos e reduzir despesas. Esse endurecimento transformou o orçamento federal de um déficit de 3,8% do PIB em 1936 num superávit de 0,2% do PIB em 1937 - uma virada de 4 pontos porcentuais em um único ano. (Hoje, uma virada desse porte significaria quase US$ 600 bilhões). Assim, tanto a política monetária quanto a fiscal fizeram uma reviravolta abrupta em 1936 e 1937, e as consequências foram tão previsíveis como trágicas. A economia americana, que vinha saindo rapidamente do porão de 1933 a 1936, foi rudemente empurrada de novo escada abaixo, e os EUA experimentaram a chamada recessão dentro da depressão. O PIB encolheu 3,4% de 1937 a 1938; o declínio total durante a recessão, que durou de meados de 1937 a meados de 1938, foi maior.A moral da história deveria ser clara: mudar prematuramente políticas fiscais e monetárias - de forte aceleração para uma freada violenta - pode ser perigoso para a economia. Mas aprendemos um bocado desde os anos 1930, não é? Talvez não. Os ecos de 1936 estão sendo ouvidos agora, antes de a recessão corrente atingir o fundo. Quem estiver atento, sabe que alguns críticos do Fed estão soando alarmes sobre o estoque de reservas excedentes que criou - mais de US$ 775 bilhões na última contagem. O que está incomodando os críticos é exatamente o que incitou o Fed à ação em 1936: a vasta acumulação de dinheiro acabará sendo inflacionária. No lado fiscal, muitos críticos de Obama se queixam ruidosamente dos enormes déficits orçamentários federais. Tentem ignorar, se puderem, a pura hipocrisia de muitos congressistas republicanos que, sem nunca terem dado um pio sobre os enormes déficits do presidente George W. Bush, de repente viraram modelos de probidade orçamentária. Mas sejam quais forem os motivos, as preocupações dos falcões do déficit de hoje lembram assustadoramente o Roosevelt de 1936 e 1937.Felizmente, Bernanke é um estudioso atento da Grande Depressão e não permitirá que o Fed repita os erros de 1936-37. Mas seus críticos, tanto dentro como fora do Fed, já estão marcando suas políticas como perigosamente inflacionárias.Da mesma maneira, espero e acredito em que Obama não se transformará do Roosevelt perdulário de 1933 no Roosevelt "falcão do déficit" de 1936 - ao menos até que a economia volte a um terreno sólido. Isso posto, um grupo crescente de falcões do orçamento já está mostrando as garras. Eles terão o seu dia - mas, por favor, ainda não.Para evitar uma repetição dos desastres de 1936-37, tanto o Fed como nossas autoridades eleitas precisam manter o curso. Mark Twain explicou certa vez que, embora a história não se repita, ela com frequência rima. Não queremos nenhuma rima neste momento.*Alan S. Blinder é professor de economia e administração pública na Universidade de Princeton e ex-vice-presidente do Fed. Tem sido consultor de vários políticos democratas.

Alan Blinder, THE NEW YORK TIMES*, O Estadao de S.Paulo

19 de maio de 2009 | 00h00

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