'Não é hora de reduzir os estímulos econômicos', diz Rogoff

Economista vê sinais de recuperação dos EUA, mas acha cedo para 'soltar foguetes' e mudar a política

Entrevista com

Denise Chrispim Marin, Correspondente - O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2013 | 02h08

WASHINGTON - A recuperação da economia dos Estados Unidos tem sido "robusta e sustentável". Mas ainda não chegou a hora de soltar foguetes nem de eliminar o principal instrumento adotado pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano) para fazer a roda da economia girar. Kenneth Rogoff, professor da Universidade de Harvard e ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), chama a atenção, em entrevista ao Estado, para o fato de a deflação ser hoje um problema maior do que a inflação no país, ainda desafiado pelo desemprego elevado.

"Estou totalmente intrigado com o fato de o Fed estar contemplando a retirada dos estímulos neste momento", afirmou Rogoff, conhecido como "pai das políticas de austeridade". "A evidência de que o 'quatitative easing' (QE) está causando bolhas sistêmicas nas economias desenvolvidas é mínima."

Sobre a escolha do presidente Barack Obama para o substituto de Ben Bernanke, que deixa a presidência do Fed em janeiro, Rogoff foi firme ao avaliar as opções. Obama está entre Lawrence Summers, seu ex-conselheiro econômico, e Janet Yellen, vice-presidente do Fed. "Os dois candidatos são pombas brilhantes", disse.

A ave está no jargão econômico americano para descrever os profissionais que creem no efeito mínimo da inflação a ser causada pela política de preservação de baixa taxa de juros básica, para impulsionar a economia.

"Por causa da crise financeira, estamos vivendo uma rara situação: o Fed precisa convencer o público de sua seriedade em elevar a taxa de inflação, e não em mantê-la baixa", constatou Rogoff. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Os mais recentes indicadores de imóveis, de energia, de consumo e de investimentos privados são suficientes para confirmar a recuperação da economia?

Há muitos sinais positivos de que a recuperação nos EUA é robusta e sustentável. De fato, a economia continua a seguir a trajetória inicial de recuperação da crise. O mercado imobiliário começou a se recuperar depois de seis anos, o produto per capita alcançou o nível pré-crise, os mercados de ações cresceram acima dos níveis pré-crise etc. Mas claro que há riscos emanando da Europa e da China e da paralisia continuada em Washington.

A taxa de desemprego está caindo. Mas esse indicador oculta a queda na População Economicamente Ativa (PEA), a desocupação elevada entre negros e jovens e a criação de empregos de meio período. Esse quadro não contradiz o otimismo sobre a economia?

Não há dúvida de que o desemprego continua a ser, de longe, o problema número 1 para os políticos, especialmente porque o desemprego de longo prazo responde por quase a metade do total. Parte da crise do desemprego é estrutural. A ascensão da Ásia continua a exercer pressão sobre os trabalhadores de economias desenvolvidas. O nível de desemprego muito pouco antes da crise (levemente acima de 4%) estava certamente engrossado pelo boom da oferta de crédito. Alguns dos postos de trabalho nas áreas financeira e imobiliário eram criaturas da bolha, e não estão voltando agora.

O sr. mencionou os riscos emanados das economias da Europa e da China para a recuperação americana. Como os EUA podem se preparar para um cenário econômico pior, especialmente na China?

Ninguém está preparado. Junto com a Europa, a China traz o maior risco para a economia global. O fraco crescimento no Brasil, na Índia e em outros mercados emergentes sugere que, talvez, a desaceleração na China tenha sido mais acentuada do que os números oficiais sugeriram. Mas há sinais de que o crescimento chinês está agora se estabilizando.

Levando em conta os indicadores que apontam recuperação da economia, o Fed está confortável para eliminar o QE3 antes de meados de 2014?

Estou totalmente intrigado com o fato de o Fed estar contemplando a retirada do QE neste momento em que a deflação ainda é um problema maior do que a inflação, que o alto desemprego indica a existência de frouxidão significativa na economia e que as expectativas de inflação de longo prazo permanecem razoavelmente estáveis. Evidentemente, o Fed começou a ser influenciado pelo argumento de que o QE pode criar distorções nos mercados financeiros e riscos de longo prazo que superariam os seus benefícios. Isso pode estar certo, mas a evidência de que o QE está causando bolhas sistêmicas nas economias desenvolvidas é mínima.

O presidente Barack Obama vai anunciar o sucessor de Ben Bernanke no Fed até novembro. Qual sua opinião sobre os dois principais candidatos: Lawrence Summers e Janet Yellen?

Acho ambos brilhantes. Ambos seriam excelentes presidentes do Fed. Em tempos normais, as pessoas podem criticar ambos por terem a reputação de "pombas". Mas, por causa da crise financeira, estamos vivendo uma rara situação: o Fed precisa convencer o público de sua seriedade em aumentar a taxa de inflação, e não em mantê-la baixa.

A chamada "revolução dos combustíveis de xisto" será um fator-chave para o renascimento da indústria nos EUA?

A revolução de xisto traz, sem dúvida, uma importante contribuição para a economia dos EUA. De forma imediata, permite preços muito baixos do gás natural, e a longo prazo, poderá promover um renascimento potencial na fabricação. É difícil estimar, mas eu não ficaria surpreso se a revolução de xisto vier a representar um crescimento 0,3% a 0,5% maior na economia dos EUA e podendo crescer mais.

A ausência de um acordo razoável no Congresso sobre as despesas do governo em longo prazo comprometem uma melhor perspectiva para a economia dos EUA?

A paralisia em Washington é um grande obstáculo ao investimento. A incerteza contínua torna difícil o planejamento de longo prazo. Eu não vejo como isso pode ser totalmente resolvido até que um dos dois partidos consiga controlar a Câmara dos Deputados e a presidência dos Estados Unidos. Se os democratas tivessem reconquistado a Câmara ou se os republicanos tivessem vencido a eleição presidencial em 2012, estaríamos observando uma recuperação mais robusta.

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