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Não é mais o mesmo

Finalmente o Banco Central admitiu explicitamente que a área fiscal trabalha contra o controle da inflação

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2016 | 21h00

Desta vez, o Banco Central deixou de lado certos pruridos de relacionamento com o governo e admitiu explicitamente que a área fiscal trabalha contra o controle da inflação.

Na Ata do Copom divulgada nesta quinta-feira, eliminou subitamente uma frase vazia e comprometedora: a de que “o balanço do setor público tende a se deslocar para a zona de neutralidade e não descarta a hipótese de migração para a zona de contenção”. Com isso queria dizer que a administração das contas públicas estava na iminência de se tornar tão sadia que passaria a não concorrer mais para produzir inflação. Esse lero-lero vinha sendo registrado nas Atas do Copom desde dezembro de 2014.

Estava lá para evitar atritos com a presidente Dilma e com o ministro da Fazenda, principalmente com Guido Mantega, que insistiam em que a administração das contas públicas foi irrepreensível. 

Tratava-se durante todo esse tempo de uma postura comprometedora para a credibilidade do Banco Central. Não só porque a política fiscal foi o desastre já conhecido, mas também porque sua diretoria tinha pleno conhecimento das pedaladas na medida em que, na condição de supervisor dos bancos, sabia dos créditos ilegais abertos pela Caixa e pelo BNDES em favor do Tesouro.

Na última ata, o Banco Central finalmente reconheceu que “o balanço do setor público encontra-se em zona expansionista” (parágrafo 25) e que isso azeda tudo, especialmente uma política monetária que deveria estar comprometida com a convergência da inflação para a meta. Tanto azeda que persistem incertezas sobre o comportamento da inflação que provém da área fiscal - como ficou dito no parágrafo 32. Ou seja, o Banco Central não está seguro de que as providências tomadas pelo governo Dilma destinadas a reequilibrar as contas públicas sejam suficientes para assegurar queda persistente e sustentável da inflação.

Logo após a reunião do Copom de 27 de abril, comentaristas apressadinhos haviam concluído, apenas a partir do fato de que a decisão de não mexer nos juros foi tomada por unanimidade dos membros do comitê, que a queda dos juros era iminente.

A nova postura do Banco Central é a de que, ao contrário, não existem condições técnicas para o início do processo de redução dos juros básicos (Selic). E isso está claro no parágrafo 32: “O cenário central não permite trabalhar com a hipótese de flexibilização das condições monetárias”.

No mais, a ata mostrou surpreendente otimismo. O Banco Central espera que o fortalecimento da confiança de “firmas e famílias” retome o crescimento econômico. Diz, ainda, que “o consumo tende a crescer em ritmo moderado e os investimentos tendem a ganhar impulso”.

É outro jeito de dizer que é preciso esperar pelas novas condições políticas (“eventos não econômicos”) que se seguirem ao provável afastamento da presidente Dilma. A partir daí deve ficar mais claro o que esperar e o que fazer.

CONFIRA:

Aí está a evolução das vendas de veículos novos nos últimos 12 meses.

Cada vez pior

O novo rebaixamento da qualidade dos títulos da dívida do Brasil, desta vez pela agência Fitch, não foi inesperado. É tal a desordem das contas públicas e, como o comunicado da Fitch menciona, são tão constantes as mudanças das metas fiscais e tão obscuros os critérios de mensuração, que não há como sentir firmeza nas estatísticas oficiais. Enquanto não houver clareza nessa matéria, o Brasil seguirá sendo rebaixado, para prejuízo de toda a sociedade.

 

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