Não é o momento para protecionismo

Qual será a estratégia que o governo Obama e a maioria democrata no Congresso adotarão no campo da política econômica internacional? É muito cedo para saber com certeza, mas os sinais que temos preocupam.Pouco antes de sua confirmação como secretário do Tesouro, Timothy F. Geithner, reacendeu o debate com os chineses referente à questão dólar-yuan. Segundo ele, o presidente Obama acredita que a China está manipulando sua moeda. "Países como a China não podem continuar com passe livre para comprometer os princípios do comércio leal." Assim como muitos economistas, fico preocupado toda vez que ouço o termo "comércio leal". Em geral, ele é o slogan do protecionismo. Poucos dias depois de Geithner apontar o dedo acusador para a China, o primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, fez o mesmo contra o secretário americano. Falando no Fórum Econômico Mundial em Davos, Wen responsabilizou os Estados Unidos pela crise econômica mundial. Falou particularmente da "falta de supervisão financeira". Provavelmente, Wen sabia que um dos mais importantes membros do sistema de supervisão americano foi o próprio Geithner, que até pouco tempo atrás era presidente do Federal Reserve (Fed) de Nova York e principal autoridade reguladora federal no caso do Citigroup.Mas, deixando de lado a questão do timing, será que Geithner está certo quando fala do problema cambial? Até que ponto os americanos são prejudicados pela política cambial chinesa? O yuan mais barato torna os produtos chineses menos caros nos EUA e os produtos americanos mais caros na China. Entretanto, a questão tem outro aspecto. O prejuízo para os produtores americanos é acompanhado por um ganho para milhões de consumidores americanos, que preferem pagar menos pelos produtos. A situação é a mesma quando o preço do petróleo importado cai. Geithner e outros críticos da China talvez queiram ponderar quanto os chineses mantêm o yuan desvalorizado. Essencialmente, os chineses oferecem yuan e exigem dólares nos mercados de câmbio. Os dólares que a China acumula são então investidos em títulos do Tesouro americano. Portanto, quando Geithner se queixa do yuan desvalorizado, na realidade ele quer dizer aos chineses: parem de nos emprestar dinheiro. Não surpreende que, depois que Geithner fez essas observações a respeito da moeda chinesa, os preços dos títulos do Tesouro tenham caído e o rendimento, subido. Se a China o levasse a sério, as taxas de juros de longo prazo subiriam ainda mais. Se os EUA adotarem uma estratégia de déficits orçamentários inusitadamente grandes, a principal autoridade financeira do país terá de parar e pensar cuidadosamente antes de reacender o debate a respeito de um dos seus maiores credores. O mais estranho na atitude de Geithner é que as queixas parecerem ultrapassadas. Depois de um longo período de câmbio fixo, a China permitiu que sua moeda começasse a oscilar, em julho de 2005. Desde então, teve valorização de 21%. Olivier Blanchard, principal economista do Fundo Monetário Internacional (FMI), estava muito certo ao afirmar: "Provavelmente não é este o momento para tratar da taxa de câmbio da China, considerando que não é este o elemento central da crise." Voltar as atenções para a questão cambial chinesa numa recessão mundial é contraproducente. Os senadores Charles E. Schumer, democrata por Nova York, e Lindsey Graham, republicano pela Carolina do Sul, vêm propondo que se enfrente a desvalorização do yuan impondo tarifas às importações chinesas. Os comentários do secretário põem mais lenha na fogueira protecionista. Na realidade, as influências protecionistas aparentemente se infiltraram no plano de estímulo em sua passagem pelo Congresso. O plano aprovado pela Câmara incluiu uma cláusula que proíbe a utilização de ferro e aço importado em projetos de infraestrutura. O Senado adotou uma restrição mais flexível (depois de rejeitar uma emenda de John McCain que eliminava a cláusula do "Buy American"). Talvez esta seja uma boa ocasião para lembrar o legado do senador Reed Smoot de Utah e do deputado Willis Hawley, de Oregon, ambos republicanos. A Lei Aduaneira de 1930, que tem o nome de ambos, não foi a causa da Grande Depressão, mas contribuiu para o recuo no comércio mundial e foi um passo errado. *Gregory Mankiw é articulista

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.