GABRIELA BILÓ/ESTADÃO
GABRIELA BILÓ/ESTADÃO

‘Não é preciso se dar bem para fazer o bem’

Autoridade em finanças sociais, Cohen defende modelo de investimento que procura aliar lucro a melhorias sociais

Entrevista com

Ronald Cohen, presidente do Grupo de Gestão Global de Investimento de Impacto Social

Natália Cacioli, O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2015 | 20h00

Diante de uma crise econômica que paralisa o País e alimenta o medo de perder os avanços sociais conquistados na história recente, um empresário egípcio, naturalizado inglês, veio ao Brasil para trazer uma mensagem de otimismo ao alto empresariado brasileiro, e colocá-lo como um importante agente na condução de melhorias sociais.

Ronald Cohen, considerado a maior autoridade no mundo sobre investimento social, é presidente do Grupo de Gestão Global de Investimento de Impacto Social, um grupo formado no âmbito do G-20 para incentivar investimentos que tenham como objetivo melhorar a vida das pessoas. Em setembro, o Brasil foi aceito como integrante desse grupo.

Cohen criou ferramentas financeiras para conectar o mercado a empreendedores que querem fazer mais do que bons negócios. Uma delas é o título de impacto social, um contrato no qual investidores se comprometem a levantar dinheiro para financiar uma melhoria na sociedade. Se as metas são atingidas, o governo paga o investimento inicial com juros. Esse modelo é usado no Reino Unido desde 2010.

No Brasil, uma força-tarefa formada por empresários de peso é responsável por disseminar recomendações para criar um ambiente favorável a essa iniciativa. Fazem parte do grupo André Degenszajn, Antônio Ermírio de Moraes Neto, Ary Oswaldo Mattos Filho, Fábio Barbosa, Guilherme Affonso Ferreira, Luiz Lara, Maria Alice Setúbal, Pedro Parente e Vera Cordeiro. A seguir, os principais trechos da entrevista.

O que são investimentos de impacto? Como a ideia foi recebida pelos empresários?

O investimento de impacto é uma mensagem positiva sobre como pessoas, empresas e famílias podem contribuir para melhorar a vida de alguém de um modo diferente da filantropia. Eu acho que é isso que está animando todo mundo. E o que é particularmente interessante no Brasil é que há pessoas de diferentes setores dizendo que a situação social não pode ficar como está. Eu diria que há um grande senso de urgência entre o empresariado brasileiro.

O que motiva um empresário a fazer um investimento de impacto?

Quando você adiciona um objetivo de impacto no seu negócio, você é motivado por sentimentos diferentes. Parte de uma motivação pessoal e altruísta, mas que pode levar a ótimos lucros. Isso irá atrair os melhores talentos para a sua empresa, mais consumidores para os seus produtos e serviços e possivelmente mais acionistas. São muitos benefícios. Há um pensamento de que primeiro você precisa se dar bem para então fazer o bem, porque você precisa de dinheiro. Mas você pode fazer as duas coisas ao mesmo tempo. É uma revolução.

Como o sr. explica para um empresário o funcionamento das finanças sociais?

O conceito é novo, então é preciso levar algum tempo falando sobre ele. É uma nova abordagem, baseada em entrega de resultados. Um exemplo: em vez de pagar por cinco horas a mais para aulas extras em uma escola, o investidor coloca dinheiro para garantir a graduação de mais cinco alunos. Se o resultado é atingido, há retorno financeiro. Isso pode levar a uma mudança de mentalidade na forma como você orienta seus negócios, e esse novo negócio pode se tornar mais lucrativo do que o tradicional.

Por que o Brasil é um bom lugar para incentivar investimentos de impacto?

A grande quantidade de problemas sociais, o potencial de crescimento do País, as dificuldades que o governo tem, uma comunidade empresarial poderosa e criativa: tudo isso forma boas precondições para que o investimento de impacto cresça por aqui.

Como encorajar investidores a fazer parte disso em um momento de crise econômica?

Eles são incentivados ao ver que o governo não está na posição de fazer qualquer coisa na situação atual. Deixe-me dar um exemplo: para um título de impacto social, você precisa de alguém que diga: “eu irei pagá-lo pelos resultados que você apresentar”. No Reino Unido, esse papel é exercido principalmente pelo governo. Quando eu converso com empresários aqui no Brasil, eles me dizem: “Olha, o governo não estará na posição de fazer algo como isso”. Então eu pergunto: “E se vocês fizerem as fundações corporativas pagarem pelos resultados?”. E então eles veem como uma solução interessante, porque querem ver o País andar para frente apesar da paralisia que a atual crise política impôs.

Então o momento de crise é favorável para incentivar esse tipo de investimento?

A crise dá ímpeto para fazer coisas acontecerem.

Qual é o papel da filantropia nessa iniciativa?

A filantropia tem um papel muito importante. Com os instrumentos de finanças sociais, é possível fazer mais do que apenas doar dinheiro. O filantropo pode dar o dinheiro e ter um compromisso com fundos que pagam por resultado. Além disso, para atrair outros investidores, os filantropos podem dizer: “nós assumimos os primeiros 10% de perda, se houver perda”. Com isso, incentiva outros agentes.

E quanto ao governo?

Na década de 1940, os governos criaram os Estados de bem-estar social, e atualmente esses países não conseguem lidar adequadamente com questões sociais. Mais pessoas estão vivendo mais, e isso faz os governos em toda parte se perguntarem qual é o seu papel. Eles precisam ficar mais eficientes, e um começo é pagar por bons resultados.

O que o sr. diz para os críticos que dizem que isso é papel exclusivo dos governos?

Eu digo que o governo não consegue lidar com todos os problemas. O governo não está abrindo mão da responsabilidade ao usar títulos de impacto social; está apenas arrumando uma forma melhor de entregar serviços públicos de qualidade. Veja o governo britânico, por exemplo: 25% do orçamento de serviços sociais é direcionado para organizações sem fins lucrativos. Então porque não colocar esse dinheiro em organizações que entregam resultados? Portanto, quando me falam que essa iniciativa toma o lugar dos governos, eu digo que eles estão errados.

Como a burocracia pode atrapalhar o desenvolvimento das finanças sociais no Brasil?

A burocracia pode fazer coisas inacreditáveis. Você precisa encontrar governantes que estejam preparados para dizer o que Jack Straw, ministro das Finanças do Reino Unido, disse na primeira vez que eu o encontrei para falar sobre os títulos de impacto social: “Eu sei que nós nunca devemos fazer algo pela primeira vez, mas nós vamos”. E assim os títulos foram implementados no Reino Unido pela primeira vez em 2010. A atitude primeira de um burocrata é nunca fazer uma coisa pela primeira vez porque ele pode fracassar. Você deveria colocar isso no título da sua reportagem: é preciso fazer coisas pela primeira vez, caso contrário, como vamos avançar?

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