Não é qualquer acordo que vale a pena

Em meio ao agravamento da crise econômica na zona do euro e a um ambiente internacional pouco propício a movimentos de liberalização, o anúncio do relançamento das negociações para um Acordo de Associação entre o Mercosul e a União Europeia (UE) não deixa de ser surpreendente. Após seis anos de paralisia, as autoridades máximas dos dois blocos anunciaram, em 17 de maio, o objetivo de concluir, sem demora, um acordo ambicioso e equilibrado entre as duas regiões. O objetivo é louvável, mas será factível?

SANDRA POLÓNIA RIOS & PEDRO DA M. VEIGA, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2010 | 00h00

Embora a possibilidade de retomar as negociações comerciais entre as duas regiões viesse sendo discutida desde o 2.º semestre de 2009 e houvesse forte expectativa de que o anúncio seria concretizado na Reunião de Cúpula UE-Mercosul em Madri, a conjuntura internacional não autorizava otimismo. Essa percepção foi reforçada pela divulgação de uma carta, no início de maio, assinada por dez países-membros da UE, liderados pela França, opondo-se ao relançamento das negociações com o argumento de que "esse movimento enviaria um sinal muito negativo para a agricultura europeia, que já enfrenta grandes desafios".

Ainda antes do agravamento da crise econômica na Europa, havia um crescente pessimismo na comunidade internacional em relação ao ambiente para negociações de acordos comerciais. O último número, ainda não divulgado, do Barômetro de Relações Comerciais Internacionais (Intrarel) - uma pesquisa de opinião periódica e de alcance global, que compila respostas de negociadores, representantes governamentais, empresários, jornalistas, acadêmicos e consultores (os três números já divulgados estão disponíveis em www.cindesbrasil.org) - mostra uma deterioração no ambiente para negociações comerciais internacionais.

A pesquisa, conduzida nos meses de março e abril, revela que mais de 73% dos respondentes acreditam que a persistência de enormes desequilíbrios nas balanças comerciais e em conta corrente na economia mundial cria um ambiente desfavorável às negociações comerciais. Só 22% compartilham a visão de que a Rodada Doha será concluída até 2012 e o pessimismo é maior entre os participantes da Europa. Mas chama a atenção o fato de que 71% dos participantes esperam que a UE se torne crescentemente interessada em negociar acordos comerciais preferenciais com países emergentes de grande porte.

Apesar das resistências dos países europeus com maior sensibilidade política para a questão agrícola, as exportações europeias para os países do Mercosul vinham crescendo a 15% ao ano no período anterior à eclosão da crise de 2008. Os investimentos europeus na região somam 165 bilhões e superam os investimentos europeus na China, Índia e Rússia juntos. Essa argumentação foi utilizada pela própria Comissão Europeia quando anunciou, no início de maio, sua disposição de retomar os entendimentos com o Mercosul.

Num contexto de agravamento da situação econômica na Europa com crescente desvalorização do euro, a perspectiva de ganhar preferências comerciais nos mercados dos países do Mercosul, especialmente no brasileiro, é bastante atraente para a indústria europeia. Além disso, o bom retorno que os investimentos diretos europeus no Brasil vêm produzindo contribui, em muitos casos, para contrabalançar perdas no mercado europeu.

Isso ajuda a explicar o movimento feito pelo presidente da Comissão Europeia, apoiado em grande medida pelo primeiro-ministro da Espanha, para empurrar o relançamento das negociações entre as regiões, enfrentando a resistência do grupo dos dez países produtores agrícolas para impulsionar o acordo com o Mercosul.

E do lado de cá? O que explica a retomada? Uma explicação pode ser a maior disposição da presidência da Argentina, que parece estar em busca de melhorar sua imagem ante a comunidade econômica internacional, após uma série de medidas protecionistas - que não foram estancadas. Do lado brasileiro as motivações não são muito visíveis. Não há, no ambiente atual, atores privados que estejam empurrando o acordo com grande entusiasmo. O próprio governo tratou o anúncio da retomada das negociações com cautela.

Nesses seis anos em que as negociações estiveram paralisadas o mundo mudou muito. Um acordo comercial ambicioso, com uma agenda atualizada, que contribua para a liberalização do comércio e a criação de um ambiente com previsibilidade de regras para o desenvolvimento do negócio entre dois blocos da dimensão econômica e grau de complementaridade do Mercosul e da UE seria uma boa notícia, independentemente da conjuntura. Mas a conjuntura econômica pode impedir que se alcance um acordo ambicioso. E não é qualquer acordo que vale a pena.

SÃO DIRETORES DO CENTRO DE ESTUDOS DE INTEGRAÇÃO E DESENVOLVIMENTO (CINDES). SITE: WWW.CINDESBRASIL.ORG

O colunista Celso Ming está em férias.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.