Não esquecer o que de fato importa

Tão importante quanto apurar a extensão das práticas corruptas que se tornaram sistêmicas no Brasil do século 21 é a apuração da responsabilidade política para explicar a atual crise, sem precedentes na história, pelo menos desde a primeira década republicana.

Marcelo de Paiva Abreu*, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2016 | 07h28

Embora nesta história não haja um só culpado, existem responsáveis principais. E é preciso uma visão bem distorcida da realidade para não colocar o foco na atuação de Luiz Inácio Lula da Silva. Dirigente máximo do Partido dos Trabalhadores (PT), foi vitorioso depois de quatro tentativas em eleições presidenciais. Juntou a pertinácia a outros atributos que permitiram a sua eleição: retirante nordestino, líder sindical renovador, fundador do partido que tinha compromisso com a justiça social.

Em 2002, e durante seu primeiro mandato, Lula seguiu à risca a Carta ao Povo Brasileiro e suscitou esperanças de que tivesse abandonado os estapafúrdios compromissos do PT, como os plebiscitos das dívidas, que tornariam o País simplesmente ingovernável. Ledo engano. No segundo mandato, voltou a aflorar a opção por uma política macroeconômica, primeiro, imprudente e, depois, irresponsável, baseada na expansão de gastos e na generalização de subsídios.

Paralelamente, escândalos como o mensalão avariaram seriamente qualquer pretensão que tivesse o PT de se apresentar como o partido que repudiava as práticas fisiológicas burguesas. O modelo de justiça social do PT mostrou-se dependente de práticas corruptas sistêmicas. Descobriu-se que Robin Hood cobrava comissões escorchantes.

Lula tratou de sobreviver à tempestade, mas optou por não fazer qualquer esforço sério de autocrítica quanto à forma de atuação do partido. Surfando no boom das commodities e no pré-sal, tratou de administrar sua alta popularidade no Brasil e no exterior.

A perda dos quadros mais importantes do PT, Dirceu e Palocci, nos embates de 2005-2006, e a impossibilidade de fazer aprovar um terceiro mandato levaram Lula ao dedazo de Dilma como candidata presidencial. Embora a presidente eleita em 2010 tenha confirmado a sua reputação de “poste”, em vista de sua obtusidade política, foi em relação à sua infundada reputação de “gerentona” que Dilma frustrou todas as falsas expectativas. Revelou-se verdadeira anti-Midas: transformava tudo o que tocava em lixo. Decisões lamentáveis afetaram a Petrobrás, o setor elétrico, os bancos públicos. Culminaram no estelionato eleitoral de 2014, com a falsificação de indicadores econômicos e financeiros, e na débâcle atual.

Dilma também se destacou pela inacreditável falta de faro na detecção de falcatruas. A generalização do petrolão fez o mensalão parecer uma história da Carochinha. Lula, que havia sobrevivido ao mensalão, está sendo agora investigado. E não é claro se quer ser ministro de Dilma para salvá-la ou para salvar-se.

A situação econômica e política atual é terrível, mas nada impede que piore mais. A probabilidade de piora será menor se Lula, por seu retrospecto, for derrotado politicamente.

O cenário de sobrevivência de Dilma ao processo de impeachment e Lula tentando refundar o PT é bem improvável. O governo está para lá de capenga e dificilmente sobreviverá até 2018. Mas Lula não pode ser descartado como candidato em 2018. Seria a sobrevivência da desgraça.

Mas, no cenário que possa sobreviver às acusações de corrupção, Lula está fadado a enfrentar dificuldades quanto à sua ambiguidade. Para refundar qualquer coisa, teria de valorizar o seu lado Jekyll: líder sindical renovador, retirante bem-sucedido, entre outros atributos. Mas o lado de Lula que parece estar prevalecendo está mais para Hyde. Mestre do escárnio, contador de lorotas sobre Atibaia e Guarujá, que se vangloria de ter a alma mais honesta do Brasil. Em momento algum tratou de criticar o mar de lama que submerge o País.

Continuamos, tristes, à espera de Godot.

*DOUTOR EM ECONOMIA PELA UNIVERSIDADE DE CAMBRIDGE, É PROFESSOR TITULAR NO DEPARTAMENTO DE ECONOMIA DA PUC-RIO

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