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Monica De Bolle
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Não estamos mais nos anos 80

As décadas passam e os hábitos podem até permanecer os mesmos. Mas, as crises mudam

Monica De Bolle, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2020 | 04h00

O título desse artigo parafraseia famoso artigo de um dos economistas latino-americanos mais brilhantes de sua geração, Carlos Díaz-Alejandro. Em 1984, Díaz-Alejandro publicou paper para o Brookings Papers on Economic Activity (BPEA) intitulado “Latin American Debt: I don’t think we are in Kansas anymore”. O artigo tratava da crise da dívida latino-americana dos anos 80, porque sua manifestação fora tão severa, com olhar reflexivo e em desalinho com o senso comum. Em essência, Díaz-Alejandro argumentava que a visão consensual de que a severidade da crise resultara dos erros de política econômica dos diversos países da região não fornecia um quadro suficientemente abrangente para entender a complexidade dos problemas enfrentados. Portanto, no lugar da versão em preto e branco – o Kansas no filme O Mágico de Oz que o autor referenciava – havíamos entrado em mundo technicolor, onde uma explicação tão somente de “senso comum” não mais dava conta do recado.

Teria grande curiosidade em ouvir o que diria Díaz-Alejandro sobre o momento atual da América Latina. Mais curiosidade ainda teria em escutar Dionisio Dias Carneiro, que hoje completaria 75 anos. Coube às coincidências fortuitas dessa vida que eu escrevesse nesse espaço tanto no aniversário de dez anos do seu falecimento, quanto no próprio dia de seu aniversário. Dionisio era o ocupante original dessa coluna – foi com grande honra que passei a escrever em seu lugar há quase exatos 10 anos. Mas, divago. 

Vejo com estranheza argumentos que remontam à década de 80 para explicar os perigos que corre o Brasil. Não que o Brasil não corra perigos. A epidemia descontrolada, as mortes crescentes, a tragédia das vidas, a falta de rumo de um governo que acaba de nos proporcionar mais um vexame na abertura da Assembleia Geral da ONU. Na economia, o Brasil corre grandes perigos. Contudo, entre eles não consta o risco de que o País não possa mais pagar o que deve como aconteceu no início dos anos 80. Muita gente pergunta, quando ouve a menção feita por alguns economistas, o que significa um país “quebrar”. O uso dessa palavra para se referir a uma nação de fato confunde. Mas, um país “quebra” – ainda que o termo seja bastante impreciso – quando já não tem mais condições de honrar suas dívidas.

A dívida brasileira está muito alta e subirá mais, ante a queda do PIB e as necessidades impostas pela pandemia. O déficit público também caminha para patamares historicamente elevados. Se fôssemos capazes de pôr o País em uma máquina do tempo rumo a 1982, já estaríamos “quebrados”, mesmo feitas todas as ressalvas de Díaz-Alejandro. Mas, não estamos nos anos 80. Naquela época, os juros norte-americanos alcançaram dois dígitos em razão da inflação que afligia o centro da economia mundial. Permaneceram elevados por muitos anos, em parte prejudicando as negociações para reestruturar as dívidas dos países da América Latina junto aos bancos estrangeiros. O ambiente externo marcadamente hostil, além da má gestão macroeconômica, foram responsáveis por uma década perdida de crescimento e por um processo hiperinflacionário que entrou para a história como dos mais longevos.

O quadro que enfrentamos hoje é outro. Hoje, o presidente do Fed, Jerome Powell, pede socorro ao Tesouro para ajudá-lo na tarefa de recuperar a economia americana da tragédia pandêmica. Hoje, os principais bancos centrais do mundo – especialmente o dos EUA – já sinalizaram que os juros excepcionalmente baixos vieram para ficar. Não há horizonte de altas de juros globais, como não há horizonte de pressões inflacionárias mundo afora. O mundo pandêmico e pós-pandêmico é ambiente de lenta convalescença, quiçá com sequelas. Sequelas como dívidas e déficits elevados por um longo período. Nesse contexto, o Brasil, hoje com sua dívida majoritariamente denominada em sua própria moeda – outra importante distinção em relação aos anos 80 – não corre qualquer risco de “quebra” iminente. Ao contrário, o País tem um bom período pela frente para tratar do que necessita a economia e para ajustar a dívida de modo gradual.

É claro que o risco – e o grande perigo – é que o Brasil não faça nada disso. O grande risco é que desperdicemos esse tempo valioso gastando com o que não devíamos e deixando de gastar com o que temos a obrigação de gastar: gastar para garantir a vida e a sobrevivência das pessoas. Caso falhemos, no olho da tormenta que se abate sobre nós, não sobre Kansas, estará a perene armadilha do crescimento baixo com todas as suas consequências. As décadas passam e os hábitos podem até permanecer os mesmos. Mas, as crises mudam. 

*ECONOMISTA, PESQUISADORA DO PETERSON INSTITUTE FOR INTERNATIONAL ECONOMICS E PROFESSORA DA SAIS/JOHNS HOPKINS UNIVERSITY 

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