'Não estamos preparados para crescer 6%, 7%'

Entrevista com Armínio Fraga, sócio da Gávea Investimentos

João Caminoto, O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2010 | 00h00

Para o ex-presidente do Banco Central e sócio-fundador da gestora Gávea Investimentos, Armínio Fraga, a atual onda de otimismo com a economia brasileira é justificável. Mas, segundo ele, a deterioração da situação fiscal e as deficiências na infraestrutura podem se transformar em entraves sérios para o desenvolvimento do País. Leia a seguir os principais trechos da entrevista, cuja íntegra pode ser conferida no site Economia & Negócios (http://economia.estadao.com.br):

O atual otimismo com o Brasil é justificável?

Sim. Mas muito otimismo é perigoso. Não estamos preparados para crescer num ritmo de 6%, 7% que seria desejável. Se você olhar os últimos 4 anos, nossa média de crescimento deve ter sido em torno de 4%. Esse ano ele está projetado em 7%, 7,5%. Se você olha o ano passado ? que foi ligeiramente negativo ? e se nossa tendência tivesse sido 5% ao ano talvez fosse possível crescer 10% em 2010 até bater no limite de pressão inflacionária. Mas nós estamos crescendo 7% e 7% e pouco e esse limite foi atingido. Isso é irritante, as pessoas se frustram, mas é a realidade. Vemos um pouco de falta de coordenação na política macro com o governo expandindo gasto e crédito mesmo já passado o ponto baixo do ciclo. A política anticíclica é desejável, mas depois que ela conclui o seu papel tem que voltar ao normal sob pena de criar exatamente esse tipo de pressão sobre a inflação e, portanto, sobre a taxa de juros. Para que pudéssemos ficar muito positivos seria necessário ver o fim dos gargalos de infraestrutura e a alta das taxas de investimento.

Quais riscos para o Brasil?

Eles são diferentes do que foram no passado. Eles nascem de uma gradual deterioração fiscal, uma frustração que lá na frente pode gerar uma vulnerabilidade.

A crise europeia vai se prolongar?

Vemos hoje quase em todas as economias maduras uma situação fiscal muito preocupante. São trajetórias crescentes da relação dívida/PIB claramente insustentáveis e que serão agravadas em 10, 15 anos por um quadro demográfico também complicado. São populações que estão envelhecendo. Esse pano de fundo assusta muito pela incapacidade desses países e de suas lideranças se organizarem para enfrentar essas questões. Os problemas estão sendo empurrados para debaixo do tapete, como se cada um tivesse se preocupando apenas com o seu mandato e quem vier depois que se vire.

E a crise vai se agravar?

É possível. Num primeiro momento quando veio o pânico e eles tomaram essa decisão de criar o fundo de 750 bilhões. O que se fez foi reconhecer a situação, colocar o paciente na UTI. O primeiro remédio que eles deram foi monetário creditício. Mas ele ainda não é um remédio que ataca diretamente a doença. Será um tratamento penoso e politicamente muito difícil, que envolve um aperto fiscal e mudanças estruturais.

O euro está ameaçado?

Não vejo porque essa crise deva representar o fim do euro salvo no caso de um gigantesco equivoco coletivo de política econômica.

Os candidatos à Presidência devem detalhar seus programas econômicos?

É a minha expectativa. Mas não vai haver surpresa. Vai haver uma declaração de manutenção do arcabouço.

O senhor pretende voltar a ocupar um cargo num futuro governo?

No momento, tenho muito comprometido com minha empresa, com meus clientes e sócios. Ninguém me procurou, nem penso nesse tema. No longo prazo, eu voltaria. Mas não é uma decisão que se pode tomar com antecedência.

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