''Não estuda, nem trabalha'' é estigma da nova geração

MADRI

Fernando Nakagawa, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2011 | 00h00

"Varrer ruas é difícil. São oito horas todos os dias, inclusive muitos fins de semana, seja num dia de verão debaixo do sol de 30 graus ou numa manhã de chuva ou neve. Mas é um trabalho tão digno quanto qualquer outro." A dona desse cotidiano é Laura Garcia, madrilenha, 21 anos, estudante de enfermagem que trabalha há cinco anos e diz já ter perdido a conta dos lugares por onde passou, sempre com contratos temporários.

Apesar dos empregos precários, Laura é um ponto fora da curva entre os jovens, segmento que amarga o pior índice de desemprego da sociedade espanhola. Atualmente, 63,8% das pessoas entre 16 e 19 anos não têm emprego. Antes da crise, a taxa não chegava a 30%.

Tanto desemprego gerou até uma nova expressão: os "ni ni". Corruptela de "ni estudia, ni trabaja" - ou seja, aqueles que não estudam e não trabalham. Na última quinta-feira, milhares de "ni ni" saíram às ruas das principais cidades do país - como Madri, Barcelona, Valência, Sevilla e Salamanca - para protestar contra a situação e a política econômica do governo socialista de José Luis Zapatero.

Barrendera. Quando a crise espanhola começou, Laura traçou uma meta: por necessidade, não poderia ficar em casa sem emprego. Para atingir esse objetivo, aceitou trabalhos bem distantes daqueles sonhados pela moça que se considera parte da classe média baixa espanhola. O mais difícil, nas palavras dela, foi o de varredora de ruas - barrendera, em espanhol.

"Não podíamos parar para descansar porque os moradores denunciavam à prefeitura e também existem muitos inspetores que circulam pela cidade para ver se todos estão trabalhando", conta. Laura era parte de uma equipe de 22 pessoas responsável por manter limpas as ruas do nobre bairro de Salamanca, ao norte do Parque do Retiro. Lá, varria diariamente vias repletas de grifes internacionais, como as calles (ruas) Goya e Serrano.

Ficou quase um ano no emprego. Portanto, pegou o calor escaldante e o frio rígido de Madri. Mas o pior, lembra com um riso contido, eram as fezes dos cachorros deixadas por donos mal-educados. Pelo trabalho, recebia exatos 600 mensais (quase R$ 1.400). "Entre os trabalhos precários, foi o mais duro. Mas não me arrependo porque foi importante na época."

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