Dida Sampaio/Estadão
Guedes disse que Campos Neto estava apenas tentando ajudar com votação de plano fiscal que está no Congresso. Dida Sampaio/Estadão

'Não existe eu no Ministério da Economia e Campos Neto não estar no BC', diz Guedes sobre atritos

Ministro comentou que tem 'imenso apreço' e 'enorme admiração' pelo presidente do BC; declaração vem após Campos Neto questionar plano para recuperar a credibilidade do País

Adriana Fernandes e Idiana Tomazelli, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2020 | 19h20
Atualizado 26 de novembro de 2020 | 21h49

BRASÍLIA - O ministro da Economia, Paulo Guedes, e o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, conversaram por telefone na manhã desta quinta-feira, 26, depois de Guedes questionar o plano de Campos Neto para recuperar credibilidade dos investidores quanto à sustentabilidade das contas públicas.

“Não existe eu no Ministério Economia e Campos Neto não estar no BC”, disse Guedes ao Estadão. Segundo Guedes, Campos Neto deixou claro que estava pedindo apoio ao programa de reformas fiscais ao dizer que é ponto-chave para o Brasil “conquistar credibilidade com um plano que dê uma clara percepção aos investidores de que o País está preocupado com a trajetória da dívida”.

"Ele (Roberto Campos Neto) deixou claro para mim o que eu já sabia: que estava tentando ajudar e pedindo apoio para aprovar o plano fiscal que está lá no Congresso", disse Guedes. O ministro disse que tem "imenso apreço pessoal" e "enorme admiração" pelo presidente do Banco Central. Guedes disse que tem “zero” descontentamento com Campos Neto e que ele está fazendo um “belíssimo” trabalho no comando do BC. Guedes fez questão de ressaltar que, desde a transição, os dois trabalharam juntos na definição do plano econômico do governo Bolsonaro

“Eu estava ecoando, na verdade, uma preocupação que tinha sido dita pelo ministro, que é uma preocupação de que não podemos achar uma saída que gere um gasto fiscal permanente, alto. É importante estar dentro do teto de gasto (regra que limita do avanço das despesas à inflação). É importante passar uma mensagem de disciplina fiscal”, disse Campos Neto, também nesta quinta-feira, em entrevista ao SBT.

Segundo Guedes, o depoimento de Campos Neto nas mensagens ao telefone foi de estão unidos em favor da aprovação das reformas, como as propostas do pacto federativo (que prevê uma nova divisão da arrecadação entre União, Estados e municípios) e emergencial, que estabelece os chamados "gatilhos", medidas de corte de despesas, focadas principalmente no funcionalismo. "Medidas importantes que estão no Congresso há meses. Elas  precisam ser aprovadas para que o Banco Central não seja obrigado a subir os juros", explicou o ministro.

As propostas de emenda à Constituição (PECs) do pacto federativo e emergencial foram entregues ao Congresso junto com um texto de extinção de fundos públicos, para gerar caixa, há um ano, em um plano chamado "Plano mais Brasil". A tramitação, no entanto, ficou travada no Senado desde então. Neste ano, em setembro, o governo enviou uma proposta de reforma administrativa, que pretende alterar as regras do RH do serviço público.  Um acordo para a reforma tributária, de simplificação no pagamento de impostos, está sendo construído, depois de reuniões com o relator deputado, Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), e o autor da PEC 45, o líder do MDB, deputado Baleia Rossi (SP)

Na quinta-feira à noite, quando falava sobre a aprovação da Lei de Falências, Guedes ficou irritado com uma pergunta sobre perda de credibilidade pelo mercado financeiro e as críticas de que não tem plano para a economia. Nesse momento, foi questionado sobre uma fala de Campos Neto horas antes na qual o presidente do BC dizia que o ponto-chave para o Brasil é conquistar credibilidade com um plano que dê uma clara percepção aos investidores de que o País está preocupado com a trajetória da dívida".

"O presidente Campos Neto sabe qual é o plano. Se ele tiver um plano melhor, peça a ele qual é o plano dele. Pergunte a ele qual é o plano dele que vai recuperar a credibilidade. Porque o plano nós sabemos qual é. O plano nós já temos”, rebateu Guedes.

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Presidente do BC diz que, sem disciplina fiscal, País pode caminhar para 'desorganização de preços'

Em relação à aceleração recente da inflação, Roberto Campos Neto voltou a dizer que, na avaliação do BC, o fenômeno é temporário

Idiana Tomazell, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2020 | 20h53

BRASÍLIA - O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, disse em entrevista ao SBT que o quadro das contas públicas “apresenta uma grande fragilidade” e que, se o Brasil não conseguir atingir a disciplina fiscal e a convergência da dívida pública a longo prazo, o País pode “caminhar para uma desorganização de preços”.

Campos Neto respondia uma pergunta sobre a declaração do ministro da Economia, Paulo Guedes, dada há 15 dias, de que haveria risco de volta da hiperinflação no Brasil, caso não conseguisse refinanciar a dívida pública devido à situação fiscal.

“Acho que algumas falas acabam sendo interpretadas fora do contexto...”, respondeu inicialmente o presidente do BC, segundo o SBT. Questionado sobre qual seria a interpretação além da literal, Campos Neto citou as fragilidades do País.

“Nós temos uma fragilidade fiscal. A gente pode interpretar que se, de fato, a gente não conseguir aplicar um sistema de disciplina fiscal e que a gente tenha uma convergência da dívida a longo prazo, obviamente, se isso não acontecer, nós podemos, sim, caminhar para uma desorganização de preços. Acho que isso foi mencionado”, afirmou.

O presidente do BC ponderou que a autoridade monetária “não opina sobre o que os outros ministros estão falando”, mas reforçou o alerta de que “é muito difícil manter inflação baixa e juros baixos com o fiscal descontrolado”.

Em relação à aceleração recente da inflação, ele voltou a dizer que, na avaliação do BC, o fenômeno é temporário. Segundo Campos Neto, os três efeitos que pressionam os preços – câmbio, mudança no padrão de consumo devido à pandemia e maiores transferências devido ao auxílio emergencial – tendem a diminuir. Ele disse inclusive que a inflação de alimentos vai voltar a cair e alguns itens ficarão mais baratos.

“Isso não significa que o BC não esteja vigilante, olhando a inflação. E o horizonte do BC não é um horizonte de inflação de um ou dois meses. A ferramenta que o BC tem para combater a inflação não funciona imediatamente. Então, não adianta olhar a inflação para curto prazo, tenho que olhar o que é o elemento estrutural de inflação mais de médio prazo”, afirmou.

Na entrevista ao SBT, Campos Neto voltou a citar o risco de “desorganização de preços” ao ser perguntado sobre uma discussão entre o Congresso Nacional e integrantes do Ministério da Economia para uma saída fora do teto de gastos para financiar o Renda Brasil, novo programa social que o governo pretende tirar do papel para substituir o Bolsa Família.

O presidente do BC disse não participar desses debates, mas alertou para os riscos de uma solução como essa. “Qualquer saída que for percebida como uma saída que não gere convergência fiscal vai ter uma reação adversa e podemos ir para o caminho de desorganização de preço, como câmbio desvalorizar, curva de juros subir ainda mais, o prêmio de risco do Brasil subir ainda mais”, afirmou.

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