'Não existe processo de venda da Tim Brasil'

Executivo admite que situação pode mudar caso Telefônica compre mais ações com direito a voto na controladora da Telecom Itália, dona da operadora brasileira

Fernando Scheller e Rodrigo Petry, O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2013 | 02h07

Desde que a Telefônica fechou, no fim de setembro, um acordo de 324 milhões de euros para aumentar sua fatia na Telco, a controladora da Telecom Itália, o mercado se pergunta o que vai acontecer com a TIM. O negócio inclui a possibilidade de o grupo espanhol ter mais ações com direito a voto na Telco a partir de janeiro. Se isso ocorrer, a dona da Vivo passaria a dar as cartas também na TIM. O governo já sinalizou que, do ponto de vista da concorrência, isso deve obrigar a venda da operadora.

Neste cenário, o presidente da TIM, Rodrigo Abreu, tenta manter a normalidade no dia a dia das operações. Há duas semanas, ele usou uma convenção de vendas para mostrar aos funcionários que a TIM é alvo de boatos de venda desde 2007. Foi a forma que ele encontrou para dizer que, na situação atual, nada muda. "O acionista controlador explicita de maneira absolutamente clara que não existe nenhum processo de venda da TIM Brasil, nem formal nem informal", disse o executivo em entrevista exclusiva ao Estado.

Leia os principais trechos:

Como as mudanças na Telecom Itália influenciam a TIM Brasil?

RODRIGO ABREU - Na semana retrasada, na nossa convenção de vendas, falei das mudanças no acionista principal e do impacto delas na TIM. Coloquei uma série de manchetes na tela, como "TIM Brasil pode ser vendida". Mostrei os recortes e só depois revelei as datas. Eram de 2007. A empresa passou por uma situação muito parecida na época em que a Telefônica entrou no capital do grupo de controle da Telecom Itália, a Telco. Para evitar conflitos de interesse, foi firmado um acordo com o Cade. Esse acordo impõe uma série de premissas de governança. Apesar de participar do capital da Telco, os conselheiros nomeados pela Telefônica não participam da tomada de decisões relativas à TIM Brasil.

Se a Telefônica aumentar sua participação com direito a voto na Telco, o acordo ainda vale?

RODRIGO ABREU - A Telefônica pode passar a ter uma participação maior com direito a voto (na controladora da Telecom Itália). Mas hoje ainda não existe nenhum tipo de impacto imediato para o acordo já existente.

O alto endividamento da Telecom Itália é um fator que pode levar à venda da TIM?

RODRIGO ABREU - A Telecom Itália, apesar da dívida, não tem problema de liquidez. Tem uma geração de fluxo de caixa invejável e opções para melhorar sua performance operacional. E existem várias discussões sobre o reequilíbrio da estrutura de capital e da redução da dívida da Telecom Itália, incluindo aumentos de capital. Uma parte muito pequena (do investimento) da Telefônica na Telco é aumento de capital. O acionista controlador explicita de maneira absolutamente clara que não existe nenhum processo de venda da TIM Brasil, nem formal nem informal. Aliás, na quinta-feira, por conta de movimentação superior à média (na Bolsa), soltamos um fato relevante. E a própria Telecom Itália fez um comunicado dizendo que não existe processo de venda da TIM Brasil.

O acordo abre a porta para a Telefônica aumentar seu direito a voto.

RODRIGO ABREU - O aumento de capital atual é sem direito a voto. Agora, nada muda. Os termos do termo de compromisso com as autoridades brasileiras continuam válidos. Qualquer (outro) aumento de participação passa pela aprovação das autoridades italianas, brasileiras e argentinas.

O ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, já declarou que a melhor solução para o caso seria a venda da TIM.

RODRIGO ABREU - Sim, mas em caso de fusão. Mas hoje a participação líquida da Telefônica na Telecom Itália está em torno de 12%. Não é uma fusão entre as duas empresas. Existem várias possibilidades para uma solução regulatória.

A Telecom Itália pretende buscar uma solução para não ter de ficar sem a TIM?

RODRIGO ABREU - O interesse da Telecom Itália na TIM é grande. A empresa é um ativo importante dentro da estratégia do grupo, até pela capacidade de geração de resultado.

Por que fontes da Telecom Itália, sob anonimato, diriam que a venda da TIM seria uma forma de reduzir a dívida?

RODRIGO ABREU - A posição oficial da Telecom Itália é: a TIM é uma empresa absolutamente chave para o grupo. Mas isso significa que a empresa nunca poderá ser vendida a qualquer custo? Obviamente, se alguém quiser pagar o dobro do que o seu carro vale, provavelmente você vai pensar. É difícil comentar sobre o boato e a fonte não revelada. Mas não é tão difícil de entender a origem deste tipo de notícia. Alguns analistas de bancos soltaram relatórios sobre o impacto da venda da TIM, com várias simulações. Mas transformar isso em uma posição formal da empresa é totalmente diferente. Tanto que a empresa reforçou que não existe um processo nem formal nem informal de venda.

A oposição à venda da TIM teria levado à saída do presidente da Telecom Itália (Franco Bernabè).

RODRIGO ABREU - Esse processo reflete algo bem mais complexo. Envolve discussões sobre aumento de capital e a participação do governo italiano. A TIM é importante na equação, mas não foi esse o motivo. A posição da Telecom Itália sobre a TIM Brasil é que não está à venda. Qualquer tipo de obrigação regulatória que possa existir lá na frente, é uma discussão que começa com a Telefônica, e não com a Telecom Itália.

Para as autoridades brasileiras, em quanto a participação da Telefônica na Telecom Itália teria de aumentar para caracterizar a tomada de controle?

RODRIGO ABREU - Do ponto de vista estritamente regulatório (brasileiro), a Telefônica está no controle da Telecom Itália - e, portanto, indiretamente da TIM Brasil - com a nomeação de um único conselheiro. Essa situação existe, mas é neutralizada com as medidas existentes. A Telefônica nomeia dois conselheiros na Telecom Itália, mas eles não participam das decisões sobre o negócio no Brasil.

O acordo pode ser cancelado?

RODRIGO ABREU - O próprio presidente da Anatel (João Rezende) já declarou que o acordo que existe hoje (entre Telefônica e Telco) não muda nada. A opção que a Telefônica tem de aumentar a participação no capital votante da Telco estará condicionada a algum tipo de aprovação regulatória.

Como essa incerteza societária afeta a vida da TIM?

RODRIGO ABREU - A incerteza está mais ligada à estrutura de capital, sem interferência operacional. Tanto é que, de 2007 para cá, a TIM foi a empresa que mais ganhou participação de mercado. A companhia continua com seu plano de investimentos de R$ 3,6 bilhões por ano. E não faz isso com recursos enviados pelo controlador, porque a TIM é uma empresa geradora de caixa.

O endividamento é baixo?

RODRIGO ABREU - É baixíssimo e nos dá flexibilidade de operação. Isso nos permitiu fazer duas aquisições, a da Intelig e a da AES Atimus, que mudaram a dimensão da empresa (da TIM) do ponto de vista de infraestrutura. O conforto financeiro também evita que tomemos decisões unicamente para gerar caixa. A venda de torres, por exemplo, não é interessante para o acionista no longo prazo. Ela gera caixa num primeiro momento, mas vai gerar custos futuros.

Como o senhor avalia a operação de fusão entre Oi e Portugal Telecom?

RODRIGO ABREU - A Portugal Telecom é uma parceira estratégica que deve ajudar na melhoria da eficiência na operação da Oi. Óbvio que daí para frente há um desafio de execução grande. É uma operação que precisa ser provada na execução. E o melhor juiz dessa operação vai ser o mercado, ao subscrever as ações.

O que muda no mercado de Telecom com essa fusão?

RODRIGO ABREU - Do ponto de vista de mercado, os ativos seguem os mesmos. Embora exista uma sinergia operacional, as empresas estão em países diferentes. A Oi precisa proteger seu mercado fixo e aproveitar as oportunidades de crescimento no móvel, aumentando seus investimentos. Do outro lado, para fazer com que a empresa reequilibre sua estrutura de capital, é preciso aumentar a geração de caixa. A Oi precisa encontrar esse equilíbrio.

Então essa operação não traz preocupações no curto prazo para a TIM?

RODRIGO ABREU - Para nós, a dinâmica competitiva do mercado não muda.

Uma pesquisa da UIT apontou que o Brasil tem a ligação mais cara do mundo. Por que isso ocorre?

RODRIGO ABREU - Acho que ocorreu um enorme desserviço em relação ao que acontece no setor de telecomunicações no Brasil. Os preços que a UIT usou para comparar os serviços entre os países não existem, são os valores cheios enviados aos órgãos reguladores. É a mesma coisa que comparar os preços que os hotéis cobram pelas suítes usando as tarifas de balcão. O custo médio de ligação do pré-pago é de R$ 0,05 por minuto (segundo a UIT, seria de US$ 0,74).

Como o senhor avalia a suspensão das vendas da TIM no ano passado?

RODRIGO ABREU - Acho que o próprio regulador (Anatel) viu que foi uma medida drástica. Entendeu que o melhor caminho é o monitoramento continuo, com diálogo. A suspensão não resolve nada.

O serviço de telefonia está migrando da voz para os dados. Como a TIM está se preparando para isso?

RODRIGO ABREU - Nosso maior projeto de investimento este ano é levar as redes de fibra até 85% das antenas das principais cidades, o que será realizado basicamente por causa da expansão da banda larga móvel.

Esse crescimento pode ser comprometido pela infraestrutura deficiente?

RODRIGO ABREU - O maior impeditivo do crescimento dos dados não é a infraestrutura, mas a falta de aparelhos. Há pouco mais de um ano, menos de 30% da nossa base tinha capacidade para uso de dados. Hoje, está em 55%.

O senhor tem conversado com o presidente interino da Telecom Itália? Ele acompanha a situação da TIM Brasil?

RODRIGO ABREU - O CEO atual da Telecom Itália, Marco Patuano, já liderou a operação doméstica da Telecom Itália e também foi diretor financeiro da TIM Brasil. A nossa interação é frequente.

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