TIAGO QUEIROZ/ESTADAO
TIAGO QUEIROZ/ESTADAO

‘Não gosto de comprar, prefiro viajar’

Classe C acha que a vida está melhor do que há dez anos e define nova metas de consumo

Fernando Scheller e Mônica Scaramuzzo, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2019 | 04h00

Decifrar os desejos da classe C ficou mais difícil à medida que o deslumbramento com o consumo ficou para trás. A lista de compras da classe média – um grupo heterogêneo, cuja renda familiar pode variar de pouco mais de R$ 2 mil a quase R$ 7 mil, segundo o Instituto Locomotiva – está mais variada. No topo do sonhos de consumo de Elizabete Souza Costa, dona de casa de 36 anos que vive em Guarulhos, estão viagens e não produtos: “Não gosto muito de comprar, prefiro viajar.”

Viagens para destinos nacionais, aliás, aparecem no topo da lista de prioridades de intenção de consumo da classe C para 2019 – o item foi citado por 58% dos mais de 2 mil entrevistados. Esse objetivo é seguido por reforma da casa (45%), móveis (43%) e smartphones (30%). Segundo o instituto, são necessidades que ficaram represadas desde 2015 e que a classe média está ávida por satisfazer.

Elizabete, que calcula sua renda familiar em R$ 4 mil, está hoje em meio a uma obra, realizada em um terreno que comporta três casas de membros de sua família estendida. Para terminar a casa onde mora com o marido e dois filhos, Elizabete e o marido recrutaram o cunhado, que veio da Bahia para trabalhar como pedreiro. “A gente vai pagar um pouco para ele, mas não vai custar tanto quanto contratar alguém daqui”, explica.

Enquanto supervisiona a obra, ela procura um novo emprego. Elizabete deixou o trabalho de cozinheira em dezembro para viajar por dois meses à Bahia, onde foi resolver questões de família e acertar a venda de um terreno.

Parte do dinheiro que vai embolsar com o negócio vai ser usado na obra. Elizabete quer reservar uma parte para fazer uma reserva para que os filhos, hoje com 15 e 13 anos, possam cursar faculdade. “É importante incentivar o estudo”, diz.

Melhor do que antes

Embora ciente das dificuldades da economia, os brasileiros da classe C dizem que houve evolução das condições financeiras nos últimos dez anos. O levantamento do Instituto Locomotiva mostra que 77% das pessoas consideram que a situação melhorou; para 38%, melhorou muito.

O baiano Valdevino Alves, de 44 anos, chegou a São Paulo nos anos 1990 – uma “época bem mais difícil”, lembra. Pai de três filhos, ele decidiu montar o próprio negócio recentemente. Ex-repositor de loja, Valdevino começou a vender pen drives e filmes piratas em sua própria barraca no Largo 13, em Santo Amaro, zona sul de São Paulo.

Aposentado por invalidez, ele diz que a atividade no Largo 13 é temporária. Ele trabalha para bater duas metas: dar entrada na casa própria e abrir seu próprio salão de cabeleireiro.

Com ensino fundamental incompleto, Valdevino também pretende fazer supletivo. “Não tive oportunidade de concluir os estudos, mas pretendo correr atrás”, diz. E não tem planos de deixar a capital paulista: “Cheguei a voltar para Vitória da Conquista, mas é aqui em São Paulo que encontrei mais oportunidade.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.