''Não há como evitar alta do real''

Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central entre 1997 e 1999 e um dos economistas que participaram da implantação do Plano Real, disse em entrevista ao portal Economia & Negócios, do Estado de S.Paulo, que não existe forma de o governo impedir a alta do real.

Silvio Crespo, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2010 | 00h00

Ele está lançando o livro Cartas a um jovem economista, pela editora Campus, no qual reflete sobre a profissão e conta histórias de sua carreira na academia, mercado e governo.

"Com esse livro, o que eu quis dizer foi o seguinte: "O mundo é dos nerds, é de quem estuda"", afirmou Franco. A seguir, trechos da entrevista.

No livro, o senhor diz que o emprego público pode ser o pior trabalho do mundo. Foi o momento mais difícil da sua carreira?

Foi. Agora, por parte ruim, eu não me refiro aos períodos de crise. O lado ruim tem a ver com a solidão da autoridade. Você combate minorias do mal que se dedicam a proteger os seus privilégios. Você tem inimigos em que você olha no olho, mas as pessoas que você beneficia não sabem que você existe. Ninguém o apoia.

O senhor diz que, se um alto funcionário público se torna muito popular, alguma coisa está errada. E no cenário atual, em que o presidente é popular mesmo mantendo uma política monetária criada no tempo em que o senhor estava no governo?

Tem um certo exagero aí. Essa solidão faz com que você tenha a sensação de que o mundo é composto exclusivamente de inimigos. A agenda em Brasília é só de gente reclamando. Você sai de lá com a sensação de que o real foi um pesadelo. Mas quando você aterrissa no Rio ou em São Paulo, você encontra a maioria para a qual você estava trabalhando. Essa é a parte extraordinariamente boa de trabalhar no setor público e ter aquelas grandes maiorias reconhecendo o que você fez.

Quando o BC estava usando um câmbio semifixo, a taxa de desemprego chegou a 19%, segundo o Dieese, o ritmo de crescimento da economia caiu e o País teve deflação. Olhando para trás, o senhor acha que usou explosivos fortes demais para combater a inflação?

Lógico que não. Isso é bobagem. Não creio que seja possível demonstrar que o Plano Real tenha tido impactos negativos pelo menos nos dois ou três primeiros anos. Quando houve a crise da Rússia, era preciso remover a âncora cambial. No governo não faltavam críticos (à política cambial). Porém, eu falava com eles: "O que você sugere? Você tem certeza de que a hiperinflação não ia voltar?" E o crítico saía da sala e deixava que eu tomasse a decisão.

A gente trouxe a inflação de 7.260% ao ano para 1,6% em 1998. Veio a crise de 1999, mudou-se a âncora cambial, mas a estabilização já estava conquistada. Então, zero arrependimento sobre o curso que tomamos.

O senhor conta que, naquele momento de crise cambial, o presidente Fernando Henrique disse ao ministro Pedro Malan que estava pensando em ser mais desenvolvimentista no segundo mandato. Como o senhor se posicionou em relação a isso?

No começo de 98, o presidente estava começando a campanha eleitoral sem perspectiva de haver a crise da Rússia, e o pensamento dele era: "No meu primeiro mandato fui tão comprometido com reformas e batalhas políticas difíceis, no segundo mandato quero governar mais leve". Não estava em dissintonia com o que a gente pensava. Escrevi um texto de 95 sobre o modo como o programa de estabilização se tornava um programa de desenvolvimento.

O livro lembra que o então ministro José Serra, que era um aliado, dizia que o Banco Central fazia "populismo cambial". O senhor guarda rancor de Serra?

Não, essa é a opinião que ele tem e vale para a política cambial de hoje. Não vejo ele usar essa linguagem, "populismo cambial", para o presidente Lula. Mas poderia. A taxa de câmbio não está diferente da do meu tempo. Porque no meu tempo era populismo e hoje não é?

Em geral, a moeda de países que se desenvolvem fica mais forte. Isso está acontecendo com o Brasil, e agora descobrimos petróleo no pré-sal. Devemos pensar em como conviver com essa realidade, e não achar que tem uma engrenagem em que se possa mexer para reverter esse problema Não tem.

O livro critica tanto os marxistas como os desenvolvimentistas, e expõe seu ponto de vista. O título poderia ser "Cartas a um jovem economista ortodoxo"?

Não. "Ortodoxo" ou "neoliberal" é uma linguagem do mundo marxista dirigida ao resto do mundo. Não reconheço como apropriada. Existe uma corrente amplamente dominante de pensamento econômico e uma pequena corrente de pensamento de teor marxista que, no entanto, tem um espaço de mídia desproporcional à sua importância no mundo acadêmico. Sem julgamento sobre o mérito epistemológico da reflexão marxista sobre a sociedade capitalista, mas, no mundo prático, onde vai militar o jovem economista, a perspectiva marxista não tem importância.

Existe conflito de interesse entre as três áreas em que o senhor atuou, a academia, o mercado e o governo?

Sim, a vida é feita de conflitos de interesse. A empresa e o mercado são um permanente alinhamento de conflitos de interesse. O acadêmico talvez seja o economista que está mais isento. Mas está sempre vulnerável a patrulhamento, ao permanente questionamento de se aquele saber especializado o faz qualificado a dar uma opinião. Para que ir para a faculdade, para que ler, se você não vai adivinhar o futuro? Esse é o tipo de armadilha que tira o incentivo da pessoa estudar e ler, como se o conhecimento especializado não servisse para coisa nenhuma. Essa é a patrulha mais danosa, que discrimina o estudante esforçado, o CDF, o nerd. O mundo é dos nerds, é das pessoas que estudam, e o economista vai ser tão melhor quanto mais ele ler e estudar. Sem estudar, ninguém vai ser nada, só patrulheiro.

Para ganhar dinheiro, o economista precisa trabalhar no mercado ou pode ter dedicação exclusiva à vida acadêmica?

Ele pode ter uma vida muito digna sendo acadêmico, sim. Se o trabalho é bom, ele vai ser bem remunerado.

Inclusive em uma universidade pública?

Sim. Institutos do mundo todo contratam trabalhos de pesquisa e pagam o preço devido. Você não vai ser nenhum milionário, mas vai ter uma vida intelectual intensa, e para muita gente isso é muito bom.

Qual foi o momento mais gratificante da sua carreira?

Acho que foi o dia em que a medida provisória da URV foi para a rua. O dia 1.º de março de 1994 foi o primeiro dia de quatro meses em que nós, da área econômica do governo, ficamos explicando o que é a URV. Foi ao mesmo tempo um desafio e também uma missão espetacular. Inigualável.

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