Felipe Rau/Estadão - 18/12/2019
Felipe Rau/Estadão - 18/12/2019

'Não há espaço para agenda política no momento de pandemia', diz presidente da Natura &Co

Depois de participar do Fórum Econômico Mundial, Roberto Marques defende um movimento de coalizão e destaca a importância de o Brasil e a América Latina se debruçarem sobre a agenda ambiental

Entrevista com

Roberto Marques, presidente da Natura & Co

Aline Bronzati e Talita Nascimento, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2021 | 16h04

O CEO da Natura &Co, Roberto Marques, não acredita que as respostas ao ambiente de insatisfação e frustração em relação ao atraso da vacinação à população brasileira e à situação econômica do País estejam no impeachment do presidente Jair Bolsonaro. No lugar, ele defende um movimento de coalizão. Com os Estados Unidos, Europa e China debruçados em uma agenda ambiental, ele também cobra a importância de o Brasil e a América Latina seguirem o mesmo rumo.

"No momento em que a humanidade está enfrentando tanto a pandemia quanto a crise ambiental, não há muito espaço nem para agenda de competição, nem para agenda política. Tem de haver uma coalizão, todo mundo jogando para a mesma direção", diz o executivo, em entrevista exclusiva ao Estadão/Broadcast sobre sua participação no Fórum Econômico Mundial de Davos, que neste ano acontece no formato virtual por causa da pandemia.

Ainda que o déficit fiscal do País seja preocupante, ele é favorável à continuidade do auxílio emergencial enquanto a população não estiver imunizada a ponto de a retomada da economia se dar de forma natural. Quanto à mobilização do setor privado na compra de vacinas, o executivo diz que a companhia está aberta desde que sejam respeitadas as prioridades do Sistema Único de Saúde (SUS). "Nós não vamos querer comprar vacinas para priorizar a vacinação dos funcionários da Natura". A seguir, os principais trechos da entrevista.

No Fórum de Davos, o senhor citou a importância de uma atuação conjunta de companhias e governos em prol de uma economia verde. Qual a sua análise sobre a situação do Brasil?

A gente percebe uma mudança iniciada agora com a entrada dos Estados Unidos no Acordo de Paris e já com o governo americano colocando uma pauta bastante agressiva com relação a metas ambientais. É muito positivo. Na mesma maneira, a Europa já com uma agenda muito forte, bastante alinhada com metas ambientais. A própria China entrando e colocando uma meta de emissão zero de carbono até 2060. A gente vê com bons olhos os governos e eu acho que a América Latina, até mais do que só o Brasil, tem de se inserir dentro dessas agendas. É muito importante. Não há dúvida de que para que isso aconteça há de haver um trabalho e parceria entre a iniciativa privada e o governo em três áreas.

Quais ?

A primeira delas é adotar iniciativas de metas baseadas na ciência. A segunda é criar um modelo com métricas e indicadores comuns. Um dos desafios ainda é não existir claramente o que exatamente nós vamos medir e como medir. O que eu coloquei (no Fórum de Davos) é a importância desse trabalho de se criar um modelo com metas e indicadores fáceis para que a gente possa entender o progresso e todo mundo meio que falando a mesma língua. A terceira e talvez a mais importante: transparência. Precisamos de mecanismos claros de incentivos de alocação de recursos e responsabilidade. Eles têm de ser claros para atrair capital para que governos, iniciativa privada e mercados financeiros possam investir em empresas que estejam trabalhando na direção certa, que a gente possa aumentar e escalar as iniciativas para que aconteçam de maneira mais rápida e abrangente.

O senhor mencionou, durante o Fórum de Davos, a importância de as companhias adotarem métricas ambientais com o mesmo peso dos indicadores financeiros. Como seria isso?

A gente imagina e gostaria que a mesma disciplina das empresas que reportam seus resultados trimestrais, se deu prejuízo ou não, seja adotada com a agenda ambiental. As empresas têm de reportar o seu progresso, índice de carbono. Os próprios governos têm de fazer a mesma lição de casa. Se a gente conseguir trabalhar com metas baseadas na ciência, ferramentas claras, com metas e indicadores comuns, com transparência e mecanismos de incentivo e responsabilidade clara sobre isso, eu acho que a gente consegue evoluir e chegar nos objetivos que precisamos como sociedade, governo e iniciativa privada. Eu escutei muita gente falando disso durante o fórum.

O senhor também disse que um maior número de empresas atuando em prol da Amazônia ajudaria a proteger a área. Como a Natura capitaneia ou engaja esse movimento?

Nos últimos 20 anos de atuação na Amazônia, a Natura preservou 1,8 milhões de árvores. Nosso objetivo para os próximos dez anos é chegar a 3 milhões. É metade do tamanho da Holanda, mas ainda é pequeno. A gente precisa de mais empresas pensando da mesma maneira, que tragam a ciência, trabalhem e respeitem as comunidades locais para que elas consigam ter desenvolvimento econômico mantendo a floresta de pé. É muito importante que empresas de outros setores pensem na biodiversidade, na bioeconomia. Temos todos de fazer mais e mais rápido. Se pegarmos de novo o exemplo do que está acontecendo no governo americano, em cinco dias, eles já colocaram uma agenda de sustentabilidade que acho que nunca foi colocada de uma maneira tão protagonista e que mostra a importância do tema. Esse caráter de senso de urgência e chamamento para sociedade, empresas e governos trabalhando de maneira colaborativa é super importante.

O Brasil perdeu a confiança dos investidores estrangeiros no governo Bolsonaro justamente por deixar de lado essa agenda, de não demonstrar compromisso com políticas ambientais. O que o senhor sentiu no fórum de Davos?

Eu acho que é uma oportunidade bastante boa para o Brasil, de se inserir agora nesse processo. O vice-presidente Hamilton Mourão falou (no fórum de Davos) da importância da iniciativa privada, da bioeconomia. Acho que foi positivo. Não só o Brasil, mas a América Latina tem a oportunidade de se inserir mais agora nessa nova onda que está vindo, com os Estados Unidos, com a Europa, a própria China que durante muitos anos também tinha uma atitude um pouco resistente. A própria posição do vice-presidente Mourão vejo como positiva. Temos de fazer mais. O Brasil e a América Latina têm de se inserir mais nessa conversa e nesses compromissos.

Já dá para perceber alguma mudança de percepção do investidor internacional em relação ao Brasil?

Nós não sentimos pelo menos com relação aos nossos investidores, até pelo fato de a Natura ter uma atuação importante, nenhuma reação negativa. O que a gente tem escutado é, de novo, a importância da inserção, de ter agenda, e agora eu vejo de maneira positiva o que está acontecendo no mundo. Dá uma condição bastante importante ao Brasil e para a América Latina se inserirem nessa agenda. E nós vamos fazer o possível para ajudar nisso. Já estamos fazendo, temos tido conversa com o próprio vice-presidente Mourão e vamos continuar fazendo.

O Brasil entrou na segunda onda de covid-19 sem ter solucionado a primeira. Quais ações o setor privado espera do poder público para enfrentar esse novo capítulo da crise?

O governo brasileiro teve atuações importantes de ajuda durante o período crítico da crise. Acho que a crise vai continuar por um período maior do que todo mundo imaginava. Assim, há a importância de os governos continuarem a entender demandas e necessidades e agirem. O governo americano, por exemplo, já tem pensado em outro pacote de ajuda. A Europa também já tem discutido isso. Porque o mundo tem visto mutações do vírus e coisas que têm trazido desafio grande de restrições. Outro aspecto é o da vacinação. O Brasil tem histórico de sucesso na vacinação, um sistema público exemplar. O Brasil é, e tem de ser um exemplo em relação a isso, porque sempre foi. Temos uma oportunidade de realmente exercer essa vocação com um Sistema Único de Saúde de vacinação efetiva. O que a iniciativa privada puder ajudar o governo nesse sentido, é importante, mas tem um papel do governo relevante dentro disso. A boa notícia é que as vacinas funcionam.

O que preocupa mais o ambiente de negócios no momento, a queda da atividade econômica ou a situação fiscal do País?

Tem sempre que ter um olhar para os dois. É preciso olhar em relação ao desemprego, recessão e queda de atividade econômica, mas não há como não ver o ponto de vista do déficit fiscal. De alguma maneira, o mundo todo olha esses dois lados: como em um primeiro momento manter a economia ativa com todas as restrições, e isso tem que talvez ser a prioridade nesse momento, mas ao mesmo tempo pensar em déficit público e como contornar isso. É um trabalho difícil de equacionar no mundo todo, mas nesse primeiro momento, não há dúvida. Manter a atividade econômica enquanto a parte de imunização acontece é super relevante.

Está em discussão uma nova rodada do auxílio emergencial. Qual a sua opinião sobre a extensão do benefício, considerando a atual situação da dívida pública brasileira?

A primeira preocupação é manter a economia e o auxílio emergencial como uma coisa importante, principalmente até que a gente consiga chegar em um nível de imunização para retomada mais normal da vida e da economia. A preocupação com déficit e dívida é muito relevante. Não é uma equação fácil no mundo todo, nem no Brasil. O que a gente tem observado no mundo é a prioridade em manter algum tipo de renda e atividade da economia. A hipótese é que, se isso não acontece, o efeito depois acaba sendo mais longo e perverso para a própria economia e para as contas do governo.

Como o senhor avalia a possibilidade de compra de vacinas por parte do setor privado? A Natura está participando dessas discussões?

A nossa posição é muito simples. Temos que respeitar as prioridades que vêm do sistema de saúde para a vacinação. Ou seja, respeitar as pessoas que necessitam da vacina primeiro, seja por idade ou por condições de saúde. Não devemos fazer discriminação por renda. Isso é muito importante. (Sobre) a participação da iniciativa privada, nós estaríamos abertos, desde que isso fosse respeitado. Nós não vamos querer comprar vacinas para priorizar os funcionários da Natura. Queremos que a ciência e a medicina definam as prioridades com relação à vacinação, com a expectativa de que a longo prazo, ao longo de 2021, todos sejam vacinados. Mas não queremos inverter a ordem, queremos seguir a ordem definida pelo sistema de saúde.

Há um nível de insatisfação grande no Brasil com a atuação do governo na pandemia, a demora das vacinas enquanto o mundo avança na imunização. Qual a percepção do sr. sobre a possibilidade de um impeachment do presidente Jair Bolsonaro?

Esse nível de insatisfação e de frustração estão acontecendo em muitos lugares do mundo, o Brasil não é o único. O Reino Unido está passando por um momento extremamente difícil, a Alemanha colocando restrições mais fortes. Essa sensação de frustração ligada à questão das vacinas e seus sistemas de distribuição não é exceção do Brasil, o mundo está aprendendo a lidar com essa distribuição. Temos de ter esse olhar de bom senso em relação a todo o entorno, mas com agenda de como vamos resolver. No momento em que a humanidade está enfrentando tanto a pandemia quanto a crise ambiental, não há muito espaço nem para agenda de competição, nem para agenda política. Tem de haver uma coalizão, todo mundo jogando para a mesma direção. Porque os temas são muito sérios e muito importantes. Para esses temas que põem em risco a humanidade, nós não deveríamos ter lente de competição, por parte das empresas, nem de agenda política.

O impeachment, então, não é uma boa solução, não adiantaria?

Não quero entrar em agenda de política. O Brasil não é o único país a lidar com esse contexto de insatisfação. A maneira de abordar é buscar a solução de maneira coletiva e multilateral e não com agendas conflitantes competitivas ou políticas.

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