‘Não há indícios de problema na carne brasileira’

Juiz da Operação Carne Fraca diz que foco das investigações é a corrupção de agentes do Ministério da Agricultura

Entrevista com

Marcos Josegrei da Silva

Julia Affonso / SÃO PAULO, Ricardo Brandt, Enviado Especial/Curitiba, O Estado de S. Paulo

02 de abril de 2017 | 05h00

No dia 17 de março, o juiz federal Marcos Josegrei da Silva, de 45 anos, acordou mais cedo. Gaúcho de Porto Alegre, chegou às 9 horas ao trabalho, no aprazível bairro do Ahu, em Curitiba, na sede da Justiça Federal. Era sexta-feira e a Operação Carne Fraca estava nas ruas. Desde as 6 horas, um exército de 1.100 policiais cumpria 186 mandados de busca e apreensão e 38 de prisão, em sete Estados do Brasil.

A ordem era de Josegrei – um carnívoro devoto – e determinava que fossem presos fiscais do Ministério da Agricultura, empresários e executivos do setor de carnes e processados. Todos suspeitos de manterem um esquema de corrupção e fraudes em fiscalizações dos alimentos produzidos no Paraná, Goiás e Minas Gerais.

Menos conhecido que seu vizinho de andar, o juiz federal Sérgio Moro, da 13.ª Vara Federal, Josegrei ainda não vislumbrava naquela manhã os reflexos negativos que a operação provocaria.

Não é a primeira operação de repercussão nacional deflagrada por Josegrei. Titular da 14.ª Vara Federal de Curitiba desde 2012, foi ele quem mandou prender um grupo de supostos terroristas, em 2016, alvos da Operação Hashtag, e também supostos desviadores de R$ 7 milhões de recursos de bolsas de estudo, na Universidade Federal do Paraná, e este ano, a Operação Research. A seguir, os principais trechos da entrevista ao Estado para falar da Operação Carne Fraca.

Diante das críticas e dos reflexos negativos causados pela Operação Carne Fraca, o sr. faria algo diferente, ou apontaria algo reparável?

Para os indícios que foram coletados nesses dois anos de investigação, eu entendo que as medidas decretadas eram as adequadas para permitir o avanço das investigações. Não tenho nenhum reparo a fazer.

A Polícia Federal errou ao apresentar a operação?

Não posso afirmar que houve erro da Polícia Federal, mesmo porque não acompanhei a íntegra da entrevista coletiva. Percebi que a repercussão, em um primeiro momento, teve como ponto central a questão da qualidade dos alimentos de origem animal e as possíveis implicações da falta de observância dos padrões sanitários pelos frigoríficos. O fato é que o tema da corrupção está cada vez mais presente no debate nacional. Quando tem a possibilidade de repercutir diretamente no alimento e, por consequência, na saúde das pessoas, o apelo é maior ainda. Deduzo que a intenção da PF era a de informar ao público sobre aquele trabalho policial. Mas o tema era evidentemente sensível e acabou provocando toda essa repercussão intensa.

Houve demora da Polícia Federal para deflagrar a Operação Carne Fraca?

A operação policial foi o tempo todo acompanhada pelo Ministério Público Federal e pelo juízo. Era necessário coletar indícios suficientes para justificar a concessão pela Justiça de medidas mais contundentes, como aquelas cumpridas no último dia 17. Isso leva tempo. Não há, até agora, indícios de que, no período de investigação, a saúde dos consumidores tenha sido posta em risco em virtude do tempo decorrido do seu início desde a deflagração.

Os elementos contidos no inquérito indicam que os investigados corrompiam agentes públicos para burlar normas estritamente burocráticas ou também questões sanitárias?

Os indícios de irregularidades, quando da decisão pelas medidas cautelares cumpridas no dia 17 de março, vão da extorsão, em si mesma, passando pela corrupção, concussão e lavagem de dinheiro. Em troca, se ofereciam facilidades, consistentes na não observância de regras aplicáveis às condutas esperadas da fiscalização. Mas, também, algumas vezes se ofereciam os serviços que já deveriam ser realizados normalmente pela fiscalização e não ocorriam como deveriam. A gama de “facilidades” é grande. Como a investigação ainda está em andamento, entendo conveniente aguardar um pouco mais para se ter um panorama mais preciso de tudo que esses apontados atos de desvio administrativo e criminal podem ter gerado.

Com base nos elementos levantados pela Polícia Federal, analisados pelo sr., é possível dizer que há um problema generalizado com a carne brasileira?

Toda investigação é focada em um objetivo específico. E, neste caso, o objetivo não era o de investigar toda a cadeia produtiva da carne no País, mas um grupo de pessoas que não estava cumprindo com suas obrigações legais e, com isso, estaria cometendo crimes como corrupção, peculato, extorsão e lavagem de dinheiro. Pelo que tive contato com a investigação, que está em andamento e é conduzida pela Polícia Federal, até agora não há indícios concretos de que haja um problema generalizado com a carne brasileira. Nosso maior problema parece, no fundo, ser a corrupção e outros crimes que a eles estão associados.

Os indícios apontam que o esquema de corrupção descoberto no Paraná pode ter se repetido em outros Estados?

Os elementos que tenho dão conta de que os fatos estariam ocorrendo no Paraná e, em menor escala, em Goiás e Minas Gerais, mesmo porque nesses dois Estados a investigação durou menos tempo do que no Paraná.

O sr. foi pressionado de alguma forma, alguém ligou depois da operação?

Não, nunca. Tem 17 anos que estou aqui, nunca ninguém do Executivo, do Legislativo ou da cúpula do Judiciário me ligou.

O sr. deixou de comer carne?

Não.

O sr. comeu carne esta semana?

Comi, comi.

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