Werther Santana/Estadão
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Laura Karpuska
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Não há tempo em São Paulo para pensar ou exigir um bom Plano Diretor

Os problemas da cidade são resultado de nossas escolhas como agentes privados e eleitores

Laura Karpuska*, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2022 | 04h00

O aniversário de São Paulo serviu como desculpa para que eu esquecesse o cenário federal e focasse em outro assunto nesta coluna: a nossa vizinhança. Comentei com uma amiga sobre o que escreveria. Amiga que é, logo me perguntou: “Você vai falar mal de São Paulo, né?”. Minha resposta foi: lógico. 

Minutos depois recebo dela dois textos escritos em 2014 por Gregório Duvivier para a Folha elogiando São Paulo – e falando mal do Rio. Ao elogiar São Paulo, Gregório recebeu uma “enxurrada de e-mails” enfurecidos. “Você fala assim porque não mora aqui”, diziam os paulistanos. Era óbvio que isto aconteceria. Queria ter podido avisá-lo na ocasião. O elogio a São Paulo deve ser sempre pontual e feito, claro, por paulistanos – e elogiaremos de forma amarga. Manterei a tradição aqui.

São Paulo ainda é uma cidade de oportunidades. Talvez por isso façamos vista grossa aos consecutivos erros que fazem nossa vida aqui muito difícil. Ou, talvez, grande parte dos paulistanos esteja muito ocupada sobrevivendo. Não há tempo para pensar ou exigir um bom Plano Diretor e projetos de mobilidade melhores. “Todos parecem correr! Não correm de, correm para, para São Paulo crescer” – Billy Blanco já nos alertava em 1974. 

Há mais uma opção, não excludente. Parte dos paulistanos, a que possui tempo, meios e acesso aos tomadores de decisão, foge de São Paulo sempre que pode. A fuga pode ser para Baleia, Nova York ou ainda Miami. São Paulo é uma inconveniência. 

Ocupação de espaços públicos é mínima. Com isso, projetos que visem a uma cidade com ruas mais ocupadas, bairros centrais mais densos e com convivência heterogênea ficam para trás. É o equilíbrio geral político. Se os eleitores não demandam, os políticos não ofertam. 

Prestigiar construções que não isolem um edifício da rua, tornando seu térreo útil, habitável e as ruas mais seguras, é raro. A demanda é por morar em um centro feudal moderno com decoração neogreco-romana. Assistir ao canal “São Paulo nas Alturas”, do Raul Juste Lores, deveria ser obrigatório – principalmente durante eleições municipais, para evitarmos perpetuar esses erros. 

Passamos por várias eleições sem exigir um Plano Diretor mais inclusivo e eficiente, normalizando a falta de políticas públicas focadas na população de rua e sem respeitar espaços coletivos e verdes. Cumpro aqui meu dever de paulistana ao falar mal de São Paulo. Mas, desta vez, explicitando que a cidade é resultado de nossas escolhas como agentes privados e como eleitores. Apesar de tudo isso, temos pizza de altíssima qualidade – para comer sem ketchup, claro. 

*PROFESSORA DO INSPER, PH.D. EM ECONOMIA PELA UNIVERSIDADE DE NOVA YORK EM STONY BROOK

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