Não há vencedores em guerras comerciais

Se há um século as guerras comerciais não tinham vitoriosos, menos ainda a chance de vitória num mundo economicamente integrado

Welber Barral*, O Estado de S.Paulo

16 Junho 2018 | 04h00

Se o presidente Donald Trump fizesse algumas leituras de História, observaria que nenhum país ganha numa guerra comercial. A maior delas, em 1930, foi iniciada justamente por tarifas unilaterais dos Estados Unidos, que levaram a retaliações e à crise econômica no mundo. A crise de 1930 trouxe consequências desastrosas: uma redução do crescimento econômico, com perda de valor de empresas e aumento da inflação global. Em seguida, radicalização política e o maior conflito militar na história da humanidade.

Se há um século as guerras comerciais não tinham vitoriosos, menos ainda a chance de vitória num mundo economicamente integrado. As cadeias de valor hoje existentes espalham mais rapidamente a crise. Especializações industriais impedem troca imediata de fornecedores. Padrões técnicos e certificações demoram a ser habilitados.

Ao final, o custo da guerra comercial é pago por todos, em razão do aumento da instabilidade em mercados altamente integrados. Há elevação dos prêmios dos seguros e dos custos logísticos. Produtores e consumidores pagam esse preço no aumento de custos.

Comparativamente a 1930, até as retaliações são mais sofisticadas. Tanto China quanto União Europeia miram empresas situadas em distritos eleitorais dos líderes republicanos, de forma a provocar maior custo político. Se tem efeito imediato, esse custo acaba reverberando em aumento da xenofobia e da radicalização, o que tampouco interessa a um mundo que precisa de maior cooperação.

As medidas do governo Trump tampouco terão o efeito esperado na seara comercial. Um dos objetivos anunciados seria reduzir o déficit americano, em relação à China. Essa visão simplória se esquece que o comércio atual inclui valor agregado nos produtos chineses que têm origem em vários países, inclusive serviços americanos.

Enfim, haverá vencidos econômicos, mas não há vencedores possíveis.

* SÓCIO DA BARRAL M JORGE CONSULTORES

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