'Não havia como crescer sem austeridade'

Braço direito de Merkel, ministro de Finanças alemão defende posição de Berlim no combate à crise

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2013 | 02h22

Braço direito de Merkel, ministro de Finanças alemão defende posição de Berlim no combate à crise

A realidade provou que a Alemanha estava certa em sua estratégia e a Europa dá sinais de crescimento graças às políticas de austeridade. Quem garante isso é o ministro de Finanças da Alemanha, Wolfgang Schaeuble, que, depois de cinco anos de crise, deixa claro que não havia como promover um crescimento no Velho Continente sem que os países colocassem a casa em ordem. "O endividamento do Estado envenena o crescimento."

Em entrevista exclusiva ao Estado, às vésperas das eleições na Alemanha que ocorrem hoje e que podem definir o futuro da Europa, o braço direito da chanceler Angela Merkel insiste em defender a posição do governo de Berlim. Mas hoje, depois de ver mais de uma dezenas de governos cair por conta da crise, é a vez de Merkel testar nas urnas se de fato sua estratégia de resgate da Europa funcionou diante do próprio eleitorado.

Odiado na Grécia, Espanha e Portugal, Schaeuble se transformou em peça central no debate sobre a crise europeia. Citado como o "dono da chave do cofre", ele passou os últimos anos em um dos cargos mais explosivos e de maior responsabilidade na economia mundial. Desde os primeiros momentos da crise, foi taxativo: não emprestaria dinheiro sem uma contrapartida dos governos falidos. Se Schaeuble hoje comemora, seus inimigos o acusam de ter levado sociedades inteiras ao colapso.

Ele não dá sinais de arrependimento. "Uma política fiscal prudente é precondição para um crescimento sustentável, e não o oposto." Schaeuble é um dos pesos-pesados da política alemã e, para seus aliados, definiu o rumo da nova Europa que terá de renascer após a pior crise em 70 anos.

Mas a política não é novidade para Schaeuble. O ministro é o mais antigo membro do Parlamento ainda em serviço, tendo sido eleito pela primeira vez ainda nos anos 70. Foi chefe de gabinete do chanceler Helmut Kohl e responsável por negociar a reunificação da Alemanha. Nem mesmo uma tentativa de assassinato o afastou da política, ainda que tenha de ter continuado em uma cadeira de rodas. Hoje, sua visão dentro do governo de Merkel conta tanto quanto a da chanceler.

Em 2013, marca-se a Temporada da Alemanha no Brasil, com a meta de fortalecer os laços econômicos, mas também como enfrentar de uma forma comum os desafios do futuro em áreas como ciência, tecnologia e inovação, educação e sustentabilidade.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Recentemente, o FMI publicou uma estimativa de que o crescimento econômico da Alemanha poderia ser mais baixo do que se esperava.

A forte recuperação na zona do euro, que não me surpreendeu, mas sim a muitos economistas, mostrou que previsões e realidade são duas coisas diferentes. Apesar do ambiente econômico internacional difícil, a economia da Alemanha continua a se desenvolver muito bem. Nosso PIB cresceu 0,7% no segundo trimestre de 2013. Todos os indicadores econômicos mostram que a economia da Alemanha deve provavelmente continuar sua recuperação no resto do ano. Indicadores que apontam para o futuro são muito encorajadores e a Alemanha está, estruturalmente, numa forma muito boa. Há um ponto mais amplo nesses dados: economias maduras, como a alemã e a de outros países da União Europeia, têm como objetivo que suas políticas econômicas gerem um crescimento duradouro e sustentável. Mas eles não podem esperar taxas de crescimento de economias emergentes.

O Banco Central Europeu tem dado uma atenção especial às pequenas empresas na Europa. A esperança é de que políticas para fortalecer esse setor reduzam o desemprego entre os jovens?

Pequenas e médias empresas são a coluna vertebral de nossa economia e nosso principal motor de crescimento. Existem razões históricas para fortalecer pequenas e médias empresas na Alemanha, e nem todas podem ser repetidas fora do país. Mas está claro que elas podem ter um papel importante em outros países também como vetores de crescimento e criadoras de empregos, principalmente entre os jovens. Apoiar a pequenas e médias empresas é um caminho importante para incentivar o crescimento e a criação de empregos. Entre os fatores mais importantes está o treinamento e educação, investimento em pesquisa e desenvolvimento, um sistema financeiro estável, uma administração eficiente, um regime de direito e uma infraestrutura que funcione. Muitos países na zona do euro implementaram reformas estruturais corajosas nos últimos anos, o que deve incentivar a criação de empresas. A restruturação e fortalecimento do setor bancário que está ocorrendo na região, incluindo nosso projeto de união bancária, deve melhorar o ambiente de empréstimos para pequenos negócios e permitir que tenham acesso a um financiamento, seja onde estiverem na Europa.

Um número cada vez maior de economistas, jornalistas e instituições internacionais, como o FMI, está questionando a ideia de que uma austeridade rigorosa é a única forma efetiva para voltar ao crescimento econômico.

Austeridade estrita nunca foi a política da Europa ou da Alemanha. Essa é uma percepção errônea das reformas que estão ocorrendo. A crise de confiança na zona do euro vem principalmente de duas fontes: perda de competitividade em muitos países-membros e dívidas do Estado que não eram mais sustentáveis. A Europa lidou com ambas. Os déficits foram reduzidos, as reformas estruturais foram iniciadas e a confiança foi reconquistada. Uma política fiscal prudente é uma pré-condição para um crescimento sustentável, e não o oposto. Finanças públicas sólidas criam confiança nos investidores e consumidores. Isso os permite fazer planos de longo prazo. Elas são os caminhos para evitar ou reduzir endividamento excessivo, que envenena o crescimento. De outro lado, crescimento induzido por déficits públicos são apenas fogo de palha.

Se você retira o déficit, esse tipo de crescimento para e o que resta é apenas a dívida. Atualmente, em todos os informes recentes sobre a situação da economia alemã, o FMI deixou claro que estamos cumprindo nossas obrigações em termos da ajuda à economia mundial na correção de seus desequilíbrios. A OCDE e a Comissão Europeia tem sido também positivas em seus informes. Nossas políticas são bem equilibradas. Finalmente, o que testemunhamos hoje na zona do euro é uma recuperação impressionante, graças aos esforços para controlas gastos e reformas de estruturas econômicas. Nos EUA, onde os gastos públicos caíram de forma dramática este ano, voltou a crescer. O mesmo ocorre com o Reino Unido, onde o governo colocou ênfase em finanças públicas sólidas. A realidade mostrou que nossa estratégia funcionou.

Hoje, a Alemanha é o quarto maior parceiro comercial do Brasil, o que tem levado economistas a discutir a possibilidade de modificar os tratados de impostos entre os dois países.

Não existe um acordo de dupla taxação entre Brasil e Alemanha. Os especialistas de ambos os países se reuniram em julho para discutir uma cooperação em termos fiscais e explorar a possibilidade de começar negociações sobre tal acordo. Como resultado de discussões intensas, eles chegaram à conclusão de que não deveríamos começar com essa negociação por enquanto, mas deveríamos, no lugar, focar em redigir um acordo de troca de informações fiscais.

Qual sua avaliação sobre a política monetária do Brasil. Os dois países seguiram o mesmo caminho?

Os BCs dos dois países são instituições independentes. De acordo com seus mandatos respectivos, a política monetária deve ser conduzida para levar à estabilidade de preços domésticos, enquanto continua apoiando uma recuperação. Os dois BCs são conscientes de suas responsabilidades e certamente não me cabe comentar.

Dilma Rousseff acusa a Europa de inundar os mercados com dinheiro barato e criar uma guerra cambial.

Não me cabe comentar o que a presidente Dilma tenha ou não dito. Do meu lado, o que eu diria é que não vejo sinais de uma guerra de moedas no momento. Pelo contrário, as políticas monetárias tem apoiado a recuperação da economia global nos últimos anos, incluindo com medidas não convencionais. Claro que os efeitos dessas medidas, inclusive em outros países, deve ser cuidadosamente monitorados. Os presidentes de BCs e ministros de Finanças do G-20 prometeram em sua última reunião em Moscou a manter uma vigilância sobre os riscos e sobre os efeitos colaterais de períodos extensos de políticas monetárias mais frouxas. Mudanças futuras de políticas monetárias continuarão a ser cuidadosamente calibrados e claramente comunicadas. O G-20 também deixou claro que volatilidade em excesso nos fluxos financeiros e movimentos desordenados nas taxas de câmbio podem ter implicações adversas para a estabilidade financeira e econômica. Políticas macro-econômicas sólidas podem ajudar a lidar com essa potencial volatilidade.

É o membro mais antigo do Parlamento ainda em serviço, tendo sido eleito pela primeira vez ainda nos anos 70. Foi chefe de gabinete do chanceler Helmut Kohl e responsável por negociar a reunificação da Alemanha. Nem mesmo uma tentativa de assassinato o afastou da política, ainda que tenha de ter continuado em uma cadeira de rodas.

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