Não houve a restrição ao crédito que o governo fala

O governo continua com a obsessão de favorecer o consumo não levando em conta a advertência do Fundo Monetário Internacional, que considera que o Brasil precisa, antes, se preocupar em aumentar a poupança nacional para financiar um programa significativo de investimentos.

O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2012 | 03h07

Ao comentar as operações de crédito no mês de junho, o chefe do departamento econômico do Banco Central, Tulio Maciel, disse que o momento é de mudança, que a fase de restrição à oferta de crédito está encerrada e anunciou para o segundo semestre uma maior expansão das operações.

Embora discordando da necessidade dessa expansão, parece-nos importante analisar se no 1.º semestre houve realmente uma restrição ao crédito. A medida mais significativa é o montante do crédito em relação ao PIB. Segundo as primeiras estimativas, o volume de crédito atingiu em junho seu ponto mais alto: 50,6% do PIB, sendo a participação dos bancos públicos de 22,8%, a dos bancos privados nacionais de 19,2% e dos bancos estrangeiros de 8,6%. Enquanto os bancos nacionais não aumentaram a participação em relação ao PIB que tinham em dezembro, os bancos públicos ultrapassaram o resultado de dezembro (21,03% do PIB). Assim, o crescimento se concentrou mais nos bancos públicos.

O crescimento do crédito com recursos livres foi de 5,7% no semestre, enquanto o crédito direcionado (que depende essencialmente do governo) cresceu 12,2%. O crédito para as pessoas jurídicas cresceu 7,2% e para as famílias, 4,2%. No dois casos o crescimento foi bem acima da inflação, o que leva a concluir que não houve de fato uma restrição ao crédito.

Uma análise mais cuidadosa mostra que os financiamentos para a compra de veículos acusaram realmente uma queda em relação ao estoque de crédito de 0,5%, devido ao forte aumento da inadimplência no ramo, recuo que explica em parte a queda da produção de veículos. Mostra, ainda, que existe uma certa saturação no setor, a nova classe de compradores, que adquiriu seu carro no mercado secundário, com sacrifício, não pode comprar carros novos neste momento.

Os empréstimos no setor habitacional tiveram aumento no 1.º semestre de 13,6%. Tulio Maciel informou que o endividamento no crédito habitacional passou de 32,2%, em janeiro de 2009, para 43,3%, em abril de 2012. Sem as operações habitacionais esse endividamento cai para 31,2%. É preciso cuidado para não termos os problemas dos EUA em 2007.

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