Não inventaram melhor

A simples perspectiva de novo ciclo de alta dos juros dispara uma enormidade de críticas contra o Banco Central, como se se tratasse de uma instituição movida por impulsos sadomasoquistas cujo objetivo fosse unicamente boicotar o crescimento econômico e o emprego.

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2011 | 00h00

Alguém tem de controlar o volume de moeda na economia. O encarregado dessa função é agora Alexandre Tombini, que acaba de assumir a presidência do Banco Central.

Os juros são um dos dois preços do dinheiro (o outro é o câmbio), uma das mercadorias mais importantes de uma economia. Ninguém gosta de enfrentar forte encarecimento do dinheiro. O fato é que não encontraram ainda um mecanismo mais eficaz de controlar os preços numa economia moderna.

Não dá para voltar ao controle exercido no passado sobre os agregados monetários (aquilo que os economistas chamam de M1, M2, M3, etc.) porque a área financeira ganhou enorme densidade na economia e a necessidades de meios de pagamento varia todos os dias.

Os voluntaristas, por exemplo, acham que bastaria cravar um nível dos juros, obviamente bem mais baixo, para obter o efeito que hoje se tem com os juros do olho da cara. Mas isso aí é como pretender assegurar uma temperatura sempre aprazível segurando o nível do termômetro nos 20 graus centígrados. Não lhes passa pela cabeça que o tamanho dos juros é apenas medida do volume de dinheiro na economia.

Os ativistas defendem mais ação do governo. Querem a volta do controle dos preços, dos salários, das aposentadorias e das outras rendas, apesar das experiências fracassadas no passado. Não lhes ocorre que nos regimes abertos não dá para controlar nem a oferta nem a procura de bens e serviços.

Outros querem que, em vez dos juros, o governo acione outros mecanismos paralelos, como as retenções compulsórias dos bancos, controles do crédito, as chamadas medidas prudenciais, como aumento de capital e restrições a atuações no câmbio por parte dos bancos. Mas essas são providências que se tomam apenas uma vez (once for all) ou, então, quando tomadas, têm alcance limitado. Não produzem efeito em todos os canais da economia.

O Brasil é um campeão dos juros altos por muitas razões. A principal é a de que o sistema de metas funciona com engrenagens tomadas por ferrugem, areia e outros detritos que lhe tiram eficácia.

Cerca de um terço dos preços continua indexado à inflação, ou seja, leva reajustes automáticos, como os aluguéis, as tarifas e os financiamentos. É um segmento que não é influenciado pelos juros. Nele, os preços sobem (quase nunca caem) de acordo com o critério preestabelecido em contrato, independentemente do nível de moeda (e de juros da economia).

O BNDES e os regimes especiais de financiamento concedem juros favorecidos e impedem que o impacto sobre o crédito trabalhe a favor da contenção dos preços. São fatores que exigem juros básicos (Selic) mais altos para que possam produzir um mínimo de eficácia como controladores da inflação.

Não falta o que reformar no sistema de metas de inflação adotado pelo Brasil. Em todo o caso, se alguém encontrar sistema melhor para controlar a inflação no Brasil, que se apresente.

CONFIRA

Evolução dos juros básicos ao ano

Você tem acima a trajetória dos juros básicos (Selic) que deverá levar outra estocada amanhã.

Jogo duro

O Ecofin, o organismo que reúne os ministros de Finanças da área do euro, discute desde ontem em Bruxelas o tamanho do Fundo institucional de socorro a eventuais quebras soberanas dentro do bloco. É baixa a probabilidade de consenso. Alemanha e França, os dois países líderes, não se entendem - observou ontem o New York Times. O único ponto de consenso é o de que é preciso mais tempo para costurar um acordo.

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