AFP
AFP

'Nos preparamos para o pior', diz Bolsonaro sobre vitória da esquerda na Argentina

Presidente Jair Bolsonaro diz que não "pensa em romper nada com a Argentina", mas espera que o novo governo continue com as práticas de abertura, liberdade econômica e respeito às cláusulas democráticas do Mercosul

Julia Lindner, enviada especial, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2019 | 14h30

RIAD - O presidente Jair Bolsonaro disse não pretender romper relações com a Argentina após a vitória de Alberto Fernandez, representante da esquerda, nas eleições no último domingo, mas espera que o lado de lá continue com as mesmas práticas de Mauricio Macri - abertura, liberdade econômica e respeito às cláusulas democráticas do Mercosul.  "Nos preparamos para o pior. O que foi anunciado até o momento no pacote econômico do presidente eleito, essa receita já sabemos. Como em parte já foi adotada no Brasil no passado, não tem como dar certo", afirmou em entrevista ao Estadão/Broadcast em Riad, onde cumpre a última etapa da viagem a países asiáticos. 

 

Um dos planos de Fernández para estancar a crise no país prevê o congelamento de preços por 180 dias e garantia de aumento salarial de emergência – a inflação acumulada no último ano está perto de 60%. 

Ao se referir à derrota do aliado na América do Sul, Bolsonaro identificou como "erro" o distanciamento de Macri do movimento conservador, além da dificuldade para aprovar reformas. O mesmo vale para o Chile. "Costumo dizer que quem fica no meio do caminho, mais cedo ou mais tarde, não tem como ir para frente nem vir para trás e aí vem a derrota", disse o presidente. 

Questionado se há algum incômodo em buscar negócios com a Arábia Saudita ou com a China, que possuem regimes autoritários, Bolsonaro negou. Mas defendeu o "direito" de criticar países como Cuba e Venezuela pela falta de liberdade. "Lá, na América do Sul, são nossos vizinhos e me dou a esse direito." ​ 

A seguir, os principais trechos da entrevista:

O sr. pediu ao ministro da Economia, Paulo Guedes, para não haver mal entendido com a reforma administrativista. O sr. tem preocupação que a falta de discussão provoque protestos como os do Chile?

Nós não queremos causar nenhum abalo junto aos trabalhadores do Brasil, com propostas que na prática não queremos implementar. Quando se fala em quebra de estabilidade (do servidor público), isso está sendo discutido para os futuros servidores. Para os atuais,  todos os direitos estão sendo preservados. Mesmo assim, tenho dito que essa reforma administrativa tem de ser discutida comigo e também com o Parlamento antes de ser enviada para lá, porque não queremos ter reação por parte dos  parlamentares. Ele (Guedes) tem um bom trânsito com o Davi Alcolumbre (presidente do Senado), com o Rodrigo Maia (presidente da Câmara). O empresário tem uma visão muito econômica dos seus negócios. No governo, a economia tem que ter essa visão, mas não pode esquecer da política. 

A ideia com o Guedes é afinar esse discurso?

Sim. É igual à questão da CPMF. Foi discutido no passado que a CPMF era um nome que estava contaminado no Brasil. De modo que devemos abandonar a CPMF, apesar de suas vantagens. Alguns ainda acham que tem espaço para retornar. E eu falei: "Olha, você pode até pensar em retornar, mas tem de dizer quais outros impostos você vai abolir". Porque não queremos aumentar, não aumentaremos a carga tributária no Brasil. Queremos simplificar os impostos, porque o número de dias que os empresários têm para acertar essa burocracia é muito grande, levando-se em conta outros países. Queremos, com as reformas, criar no Brasil um ambiente mais fácil para os negócios.

O senador Fernando Bezerra falou de a reforma tributária ficar para 2020 e Rodrigo Maia falou que ela tem de ser priorizada, junto com a administrativa... Há alguma previsão?

O ideal é aprovar isso tudo o mais rápido possível sem cometer injustiça, sem atropelar, facilitando a vida dos Estados, municípios, da União e dos empresários. Você pode ver, eu cheguei na Câmara em 1991 e nenhuma reforma desse tipo foi aprovada. Já foi feita a previdenciária, falta apenas marcar a data da promulgação. Há propostas lá na Câmara, administrativa e tributária, que estão em andamento. Quem entende de economia e quem dá o ritmo é o Guedes, continuo confiando 100% nele. Esse foi meu compromisso desde o começo. Quando há opiniões divergentes, tenho transmitido ao Paulo Guedes e à equipe para priorizarmos a menos difícil. Se aprovarmos nos próximos seis meses a tributária ou a administrativa,  é bem-vinda. E, depois, se em seis meses aprovar outra, acho que nosso governo realmente vai ser consagrado, aprovando essas três reformas num espaço de tempo curto, dois anos.

Sobre o programa da empregabilidade, o senhor chegou a anunciar que atingiria quem tem até 29 anos e quem tem mais de 55. Tem algum detalhe a mais que possa destacar?

Não. Prefiro ver primeiro a proposta para lá na frente não dizerem que estamos recuando de uma coisa ou outra. O Rogério Marinho (secretário especial de Trabalho e Previdência) é uma pessoa excepcional. Já falei que, se eu conhecesse esse potencial dele lá atrás, ele estaria no primeiro escalão do meu governo. Aqui tivemos uma reclamação no Catar de um empresário falando da nossa CLT. E ele está receoso em voltar a investir no Brasil se não tiver uma reforma na CLT, porque praticamente 90% dos empregados que ele já teve, quando são exonerados, entram na Justiça e complicam a situação deles, algo que não está acostumado aqui fora. Ninguém está defendendo que o trabalhador não tenha direitos, mas no Brasil parece que há exagero.

Isso poderia ser contemplado na proposta de empregabilidade?

Ele (Paulo Guedes) pensa em desonerar a folha de pagamento. Esse é o pensamento dele e é o que o Marinho está botando no papel.

O senhor está de acordo?

É melhor você ter um emprego com menos direitos do que sonhar com um emprego com uma infinidade de direitos. Não quero aqui a informalidade, mas como a CLT é tida hoje em dia, até pela sua idade, ela tem de ser reformada. Mas, infelizmente, boa parte dela está no artigo sétimo da Constituição.

O senhor acha que a economia brasileira vai reagir para evitar convulsões sociais como a que ocorre agora no Chile? Tem essa preocupação em vista?

O Brasil estará melhor se os nossos vizinhos também estiverem bem. Na minha última viagem ao Chile estava tudo em paz. No encontro com empresários (chilenos), eles falaram que o Brasil é muito importante, porque eles têm investido em torno de US$ 35 bilhões no País. O Brasil está firme. Agora, o Chile está em um momento de incerteza. Esperamos que volte à normalidade, não é apenas pelo investimento que eles têm aqui, até porque, com estabilidade, eles não mexeriam no que têm aplicado no Brasil, muito pelo contrário. No caso da Argentina, quem está voltando é a senhora Cristina Kirchner, muito ligada com Dilma, com Lula, com Morales, com o Lugo, o falecido Fidel Castro e Maduro. Essa é a nossa preocupação. Sabemos que a sua receita econômica não deu certo em lugar nenhum do mundo. Algumas foram tentadas aqui no passado e não deram certo, como a Argentina, que ouvimos que poderia ser um plano de Fernández o congelamento dos preços e aumento de salário na base do canetaço. Isso não vai dar certo. Seria muito fácil fazer economia dessa maneira, mas não existe esse milagre.

Dificulta a agenda liberal no Brasil?

Não pensamos em romper nada com a Argentina, mas esperamos que o lado de lá continue com as mesmas práticas do Macri, abertura, liberdade econômica, respeito às cláusulas democráticas do Mercosul. Mas nos preparamos para o pior, porque o que foi anunciado até o momento no pacote econômico do presidente eleito, essa receita já sabemos, como em parte foi adotada no Brasil no passado, não tem como dar certo.

E o Brasil pode ficar isolado, dependendo do resultado de outras eleições, como Uruguai?

Isso é estudado. O Paulo Guedes despacha todo dia comigo, é um ministro que faço questão de despachar quatro vezes por semana no mínimo. É exatamente a gente casar a economia com a política. O Uruguai foi para o segundo turno, tem a situação, que vem da política do Pepe Mujica, e uma oposição que é mais alinhada com nossos pensamentos liberais e econômicos. Esperamos, torcemos que aconteça a eleição de alguém mais ligado ao nosso time, aí teríamos o Uruguai afinado conosco. Não tivemos nenhum problema com o Uruguai no tocante à economia com o atual presidente, mas temos de nos preparar sempre para o pior, porque você não pode dizer que foi surpreendido com os fatos. A política não acontece de uma hora para outra. Na Argentina não foi de uma hora para outra. Sabemos aqui onde achamos que o Macri errou.

E o que seria?

Ele não fez as reformas de tinha que fazer no passado, ele fez uma meia reformas que tinham de ser feitas e se aproximou muito das bandeiras da esquerda contra o conservadorismo. E o Chile meio parecido, até na mesma linha. Costumo dizer que quem fica no meio do caminho, mais cedo ou mais tarde, não tem como ir para frente nem vir para trás, e vem a derrota.

Essa poderia ser a diferença do sr.?

A grande diferença minha é confiar. É igual a um casamento. Você não pode casar e pensar que o outro lado vai fazer algo errado. É o que fiz com todos os ministros, confiando 100% na linha deles. Agora, tenho poder de veto em algumas ações de ministros e sempre exigi que, no caso de qualquer nova medida, entrar em contato comigo. O fato de eu poder confiar nos ministros é que tem feito a diferença do meu governo para governos anteriores e alguns governos de outros países.

O fato de Guedes não ter vindo foi uma questão de agenda?

São basicamente 12 dias que íamos ficar fora, e 12 dias é algo muito forte para ele. Logicamente que me dá um conforto muito grande viajar com Guedes, assim como com o general Heleno, pela sua experiência. É o tipo de pessoa que, quando dá um problema, vai para um canto e tem um linguajar comum entre nós, nada rebuscado, de objetivamente passar uma orientação. Quando tem uma pergunta complicada para mim, eu jogo para cima deles. O Paulo Guedes na economia se supera. Então ele faz falta, mas está tratando da questão das reformas administrativa e tributária.

Além dos acordos bilaterais, qual é o saldo da viagem à Ásia?

No Japão, foi mais um evento de cortesia, mas tratamos de assuntos importantes. Na China, tivemos encontro reservado com o primeiro-ministro, foi excepcional estarmos ao lado do nosso maior parceiro comercial. Lá vamos ampliar e diversificar nosso comércio. Depois fomos para os Emirados Árabes, Catar e Arábia Saudita. No jantar de ontem (com o príncipe Saudita) tratamos de negócios. Hoje começamos uma maratona na Arábia Saudita. Esses países, em especial os três últimos, têm um capital enorme e querem investir no Brasil. Eles querem investir em infraestrutura, inteligência artificial, energia em todas as suas fases, portos, aeroportos, querem comprar os produtos da Embraer e a questão mineral interessa também. Tenho conversado, na China em especial, para agregarmos valor no que produzimos, para não ficarmos apenas como fornecedor de commodity.

Algo ficou sinalizado para fechar quando o presidente chinês for ao Brasil, em novembro?

A ministra Tereza Cristina esteve conversando com eles. Temos, cada vez mais, habilitado frigoríficos para fornecer mais carne para a China. Basicamente, é a ampliação dos negócios. Essa ida ao Brasil é o encontro dos Brics, e vamos nos preparar para tirar proveito dele, que está meio esquecido. Mas a presença de chefes de Estado tão importantes como a China, a Rússia, a Índia...

Poderia anunciar a ampliação de plantas de frigoríficos quando o Xi Jinping for ao Brasil, então?

Sim. Não precisa anunciar quando for lá, já anuncia antes e começa a abrir o negócio. Você pode formalizar apenas, fazer evento formalizando isso daí. O Brasil está realmente muito bem no mundo todo, não é apenas nesses cinco países que visitamos. Vários outros países querem contato conosco, em especial da Europa, que já está inserida no grande acordo do Mercosul que vai levar uns dois anos ainda (para ser ratificado).

Em relação à carne, o senhor também falou no Japão. Tem sinalização para abrir o mercado?

Eu convidei o primeiro-ministro do Japão para ir ao Brasil no final de novembro e ele aceitou. Isso deve ser confirmado brevemente. E queremos ofertar a ele um churrasco com a carne brasileira. Eu tenho falado que quando fui ao Japão, a penúltima vez, fui a uma churrascaria e confesso que não me adaptei, não gostei muito da carne de origem australiana. E ali fiz uma propaganda, quando provarem a nossa carne com certeza vão dar um espaço para nós.

O sr. está agora na Arábia Saudita, chegou a mencionar o encontro com o príncipe herdeiro. Aqui é um país que possui um regime opressivo. Causa algum incômodo buscar negócios junto a um país que tem esse perfil?

Nenhum. Estou em viagem, representando o meu país, buscando ampliar os nossos horizontes comerciais. Todo país que quiser conversar conosco estamos dispostos a isso. Respeitamos as políticas dos países e não pretendemos entrar em uma linha de discutir ou opinar o que acontece lá dentro, até porque acabamos de ter uma experiência bastante preocupante no Brasil, quando de forma não republicana ou não objetiva o presidente da França atacou o Brasil e colocou em xeque a nossa soberania. Tivemos apoio de vários países, mas o mais importante foram dois, Estados Unidos, que o Trump operou diretamente em impedir sanções econômicas, e também o embaixador da China, que foi bastante claro na questão da soberania.

O sr. vê diferenças em regimes como China e Arábia Saudita em relação a governos que o sr. crítica com frequência, como Cuba e Venezuela, que possuem a liberdade democrática cerceada?

Esses países (como China e Arábia Saudita) têm o capital como fator muito importante, diferente da Venezuela e de Cuba, onde, além de não existir mais capital, existe um socialismo da sua forma mais pura. Até tenho dito, acompanhando o Trump, que o socialismo deu muito certo na Venezuela, todos são pobres e sem liberdade. Assim como o comunismo deu muito certo em Cuba. Não vou entrar nessas questões de política desses países aqui. Lá, na América do Sul, são nossos vizinhos e me dou a esse direito. Afinal, a Venezuela mudou e para pior com a chegada do Chávez e depois do Maduro ao poder. E Cuba... desde 1959 isso vem acontecendo e não podemos concordar com países onde a liberdade não tem valor para eles.

Dá para dizer que essa viagem foi uma vitória de Tereza Cristina e do agronegócio? Porque, quando deputado, o sr. foi até a China com outra postura e em relação ao Oriente Médio havia a questão da embaixada. Ela teve esse papel junto com o setor para o sr. decidir vir?

A Tereza Cristina foi uma ministra que nos surpreendeu positivamente. Ela não para. Ela tem precedido as minhas viagens, indo aos países e acertando acordos. Quando eu chego, está praticamente tudo resolvido.

Tem alguma resistência da área internacional do governo ou da ala ideológica do governo a essas visitas?

Está superado. Da minha parte, sempre reconheci o potencial econômico que a China tem a nos oferecer. A gente cuida da nossa política lá e a China cuida da política dela aqui. Mas, no tocante ao capital, ao comércio, estamos perfeitamente afinados.

Há outros países que o sr. vai visitar e tentar aproximação?

Este ano ainda vamos para os EUA, na Flórida, onde um senador norte-americano quer reunir empresários americanos e eu levaria empresários também visando a trocas comerciais. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.