''Não queremos bugigangas'', diz Néstor Kirchner

Considerado ''ministro informal'' do governo argentino, Kirchner faz ataque a importação de bens de consumo

Ariel Palacios, O Estadao de S.Paulo

18 de junho de 2009 | 00h00

O ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007) chamou ontem de "chucherías" (bugigangas) todo tipo de produto importado que não seja considerado bem de capital (máquinas ou equipamentos). Segundo Kirchner, que está em plena campanha para as decisivas eleições parlamentares do dia 28, o país precisa deixar de importar "tralhas" estrangeiras para somente consumir produtos nacionais, como forma de proteger a indústria dos efeitos da crise internacional. "Não queremos que nos encham de bugigangas importadas! Que aquilo que vier para cá sejam bens de capital!", disse Kirchner, durante comício em Ituzaingo, na Grande Buenos Aires, seu reduto eleitoral. Nas últimas semanas, o governo argentino adotou várias medidas para reduzir ao máximo as importações, e assim, atenuar a crescente saída de dólares.Kirchner é considerado o verdadeiro poder no governo de sua esposa, a presidente Cristina Kirchner. Empresários e sindicalistas também o encaram como o verdadeiro ministro da Economia. O ex-presidente não fez referências explícitas a nenhum país que exporta para a Argentina. Mas o Brasil, principal parceiro no Mercosul, é o segundo maior fornecedor estrangeiro de bens de consumo - que o ex-presidente chama de "tralhas" ou "bugigangas" - ao mercado argentino. Dos US$ 3,1 bilhões de produtos exportados pelo Brasil à Argentina nos primeiros quatro meses deste ano, os bens de consumo representaram US$ 368 milhões."Só queremos bens de capital!", esbravejou o ex-presidente, que fez uma enfática defesa das medidas protecionistas adotadas pelo governo da esposa. Entre as medidas adotadas desde meados do ano passado estão a aplicação de licenças não-automáticas, cotas para importações de produtos, a implementação de valores-critérios e medidas antidumping.O ex-presidente afirmou que os bens de capital (máquinas, principalmente) colaboram para aumentar a produção nacional. Segundo Kirchner - que é cabeça da lista governista de candidatos a deputado na província de Buenos Aires - , é preciso fazer tudo "para manter o superávit comercial".TORNIQUETEHá uma semana o secretário de Comércio Interior, Guillermo Moreno, lançou nova ofensiva protecionista, que obriga os empresários a exportar a mesma quantidade (em dólares) de produtos que trouxerem para o mercado interno. A medida - definida por analistas como um "torniquete cambial" - atinge as importações de produtos dos setores de calçados, brinquedos e eletrodomésticos, áreas "sensíveis" para o Brasil, já que o país é um dos grandes fornecedores do mercado argentino.No meio desse clima de crescente tensão da Argentina com o exterior - especialmente com o Brasil, que sofre a aplicação de restrições para a entrada de 608 produtos no mercado argentino -, o Ministro da Fazenda, Guido Mantega, desembarca hoje à noite em Buenos Aires. Mantega se reunirá amanhã com o ministro da Economia da Argentina, Carlos Fernández, para assinar o acordo Brasil-Argentina sobre trocas em moeda local.

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