''''Não quero ser guiado por uma matriz externa''''

NIZAN GUANAES: Presidente do Grupo ABC[br]Empresário questiona modelo de globalização da publicidade e defende o fortalecimento dos grupos brasileiros

Marili Ribeiro, O Estadao de S.Paulo

30 de dezembro de 2007 | 00h00

INDEPENDÊNCIA: "Existem empresas no Brasil que não perguntam o que a França, os Estados Unidos ou a Inglaterra estão fazendo. Elas têm pensamento próprio. Não vejo a Vale, a Embraer, a Gerdau, a AmBev, a Petrobrás seguindo. Vejo essas companhias liderando. O Brasil é um continente e não pode ser subserviente a regras mundiais, ditadas por um centro do poder determinante de como o resto deve se comportar. É um modelo concentrador, em que o centro vende produtos de valor agregado e cabe aos outros vender commodities. Temos que ter uma mentalidade brasileira também na publicidade, sem imitar os grupos de fora. Acredito na ?publicidade etanol?. Não quero ser guiado por uma matriz externa. Quero ser a Vale da publicidade brasileira."DESNACIONALIZAÇÃO: "O modelo mundial de publicidade é o seguinte: fraciona, estabelece os birôs de mídia, acaba com a BV (Bônus por Volume , calculado com base na verba do anunciante aplicada no canal de comunicação. Esse modelo é responsável por boa parte da receita das agências no Brasil), estabelece hot shops, agências que cuidam só de criação. O que acontece nesse cenário? Simples: o sujeito pega uma conta em Minneapolis (EUA), negocia a conta globalmente por U$ 4 bilhões e dá bônus para o lado abaixo do Equador. Vai fazer as agências daqui trabalharem por 3% em cima de uma verba que aqui fica em torno de R$ 1 milhão.Nos meios de comunicação existem barreiras para esse tipo de dumping. Capital estrangeiro tem restrições para entrar. Caso contrário, fica impossível concorrer. É natural, dentro da dinâmica do capitalismo, que cada player defenda seus interesses. Devemos fazer em condições iguais e defender a nossa lógica."MODELO ARGENTINO: "O Brasil tem uma qualidade criativa importante. A tentação de seguir o modelo argentino de pequenas hot shops, com oito ou dez pessoas, que ganham um monte de prêmios em Cannes, mas não ganham dinheiro, é ineficiente por ser totalmente extrativista. Não tenho nada contra as hot shops. Mas os grupos que me influenciam não são conglomerados de comunicação global. Veja se na China é possível fazer negócio sem sócio chinês! O Brasil vive um momento de ouro. Temos acesso a crédito. Temos mercado de capitais. Os grupos de serviços de comunicação no País têm que aproveitar isso para se posicionar. Se um player como Omnicon tem uma receita de US$ 11 bilhões, não é possível ficar pensando coisas pequenas."MEDO DE CRÍTICA: "O grande problema do mercado brasileiro é que toda vez que você fala de seu posicionamento soa como crítica ao outro. Cada um que tenha seu livre arbítrio. Nós, como grupo, não queremos ser rabo. Queremos ser o cachorro. A luta aqui é contra custos. Queremos acabar com toda essa ?frescurada? de festas, que eu mesmo sou um dos responsáveis por ter incentivado. Temos boas agências, precisamos ter melhores empresas.Hoje, o executivo da publicidade tem que conversar com os clientes sobre distribuição, design e endomarketing. Não tem que torcer o nariz na hora de fazer peças para o ponto de venda, por achar que se trata de coisa menor. O importante é o anúncio."FUTURO DIGITAL: "Em 2008, vamos comprar agências digitais, as hot shops do segmento, que crescerão muito. Estamos de olho em algumas. Faz parte do planejamento e das oportunidades para o futuro. Agir dessa forma, com programação, é pura profissionalização."

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