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‘Não sabemos para onde essa guerra comercial vai’

Consultor de inúmeras organizações multilaterais, Petri afirmou que conflito levará à perda de produtividade e eficiência da economia global

Entrevista com

Peter Petri

Cláudia Trevisan, correspondente, O Estado de S.Paulo

16 Junho 2018 | 22h03

WASHINGTON - O presidente Donald Trump desencadeou uma guerra comercial entre as duas maiores economias do mundo movido por razões políticas domésticas, avaliou Peter Petri, especialista em comércio internacional e professor da Universidade Brandeis. “A base de Trump quer que ele demonstre a independência e o nacionalismo que essas medidas traduzem.” Consultor de inúmeras organizações multilaterais, Petri afirmou que o conflito levará à perda de produtividade e eficiência da economia global. 

O mundo está em uma guerra comercial? 

Sim, estamos nos estágios iniciais da guerra comercial de Trump. Esse tipo de conflito normalmente acontece em câmera lenta e começa com os dois lados se testando mutuamente. Acredito que outros países querem evitar que isso aconteça. Eles estão dispostos a negociar e a fazer concessões, mas Trump está fazendo isso por razões políticas domésticas. Não sabemos para onde isso vai. 

O que o sr. chama de “motivações políticas”?

Os EUA têm uma eleição muito importante em poucos meses (para as duas Casas do Congresso, em novembro), e ele está focado nisso. A base de Trump quer que ele demonstre o tipo de independência e nacionalismo que essas medidas traduzem. Trump está fazendo o que disse para a sua base que iria fazer e ele espera que sua base seja forte o bastante para dar a ele mais uma vitória eleitoral. A economia americana está bastante forte e os efeitos das medidas que ele está adotando para desmantelar o sistema internacional de comércio serão negativos, mas aparecerão de imediato nos EUA. Ele pode dizer que tomou uma posição forte perante outros países e os custos disso só virão depois que seus objetivos políticos imediatos forem alcançados.

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Como será essa guerra?

Não acredito que ela se traduzirá em tarifas muito altas ao redor de todo o mundo. Em parte porque países além dos EUA não querem impor tarifas elevadas sobre os demais. O que acontecerá é que as instituições básicas da OMC (Organização Mundial do Comércio), que verifica se países podem elevar tarifas, vão entrar em decadência. Elas não vão mais se aplicar aos EUA e à grande parte do comércio global. Nesse contexto, o comércio não será uma atividade de alto nível baseada em regras, mas uma atividade limitada, que depende de negociações bilaterais entre governos, nas quais empresas tentam convencer autoridades a dar a elas vantagens especiais. Isso significa que o nível de comércio será muito mais baixo que o atual. Foram necessários 70 anos para construção da OMC, mas não serão necessários muitos meses para destruí-la.

Quais seriam as características de um sistema comercial sem a OMC?

Ele é imprevisível, transacional, com um acordo por vez. Como ele introduz um elevado grau de incerteza, as companhias não farão grandes investimentos em negócios que dependem do comércio internacional ou de fornecedores em outros países. Elas vão buscar fornecedores locais, vão reduzir seus mercados aos mercados domésticos. 

Trump pode ganhar a guerra comercial?

Os EUA têm 20% da economia global. Se começa uma guerra com os outros 80% e se esses 80% formam uma espécie de frente unificada, Trump não pode ganhar. O mundo como um todo não vai se beneficiar de uma guerra comercial. O mundo perderá eficiência e produtividade e haverá desaceleração do crescimento. No longo prazo, ninguém ganha.

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