Não se deve esperar solução instantânea para câmbio, diz Fraga

O presidente do Banco Central, Arminio Fraga, disse que a taxa de câmbio hoje no Brasil está extremamente depreciada, mas que não se deve esperar do Banco Central uma solução instantânea dos problemas. Essa foi a resposta a uma pergunta sobre se o BC pretenderia tomar alguma medida para conter a alta do dólar no Brasil. "A trajetória de subida tem a ver com incertezas, que hoje ocorrem dentro de um contexto global pouco favorável. A solução tem que vir de compromisso permanente com políticas macroeconômicas e financeiras saudáveis. Há um futuro que vai muito além das próximas semanas ou meses. Qualquer outra alternativa mais exótica a esse tipo de problema, certamente trará mais problemas", afirmou Fraga, após participar da palestra Financiamento para o crescimento: tornando a realidade, promovida pelo Banco Mundial. Indagado sobre a intervenção do BC no mercado de câmbio, Fraga disse que o BC tem feito intervenções regulares e fornecendo linhas de comércio. "As ferramentas do BC são conhecidas e são aquelas que estamos usando todos os dias. Não se deve esperar uma solução instantânea para os problemas porque isso vai além do que o BC pode fazer. Isso depende da confiança no futuro", afirmou. ExtrapolarFraga disse que as pessoas "não devem olhar para os movimentos da taxa de câmbio e extrapolar para a idéia de que a dinâmica da dívida está se movendo na direção errada". Ele respondia a jornalistas estrangeiros e brasileiros que indagavam sobre a trajetória da dívida brasileira. Segundo Fraga, pelo contrário, "quando se mede taxas de câmbio em termos reais, elas mostram uma tendência a reverter para médias históricas". "E se você tomar este ponto de vista, nós agora estamos vendo uma megadepreciação que será revertida em algum ponto no futuro. Nesse sentido, é algo que, de fato, poderá trabalhar a nosso favor, supondo que o Brasil vá perseguir políticas macroeconômicas saudáveis." Fraga disse que, em relação ao câmbio brasileiro, o Brasil está no nível mais fraco em décadas, por uma margem grande. "Esperar que a taxa de câmbio permaneça nesse nível indefinidamente no futuro é algo que não é razoável." Governo do PTAo ser indagado sobre as declarações feitas ontem pelo ministro da Fazenda Pedro Malan, de que não descartaria a presença de Fraga em um eventual governo do Partido dos Trabalhadores, o presidente do BC respondeu: "Prefiro não comentar. São decisões que cada candidato tem que tomar com sua equipe. E são decisões que têm que ser respeitadas". Indagado também se estaria mantendo conversas com representantes do PT, Fraga respondeu: "Não tenho conversas regulares com nenhum candidato. As conversas que já tivemos indicam compromissos com políticas responsáveis. E isso é que é importante para o País. Quem vai estar lá, a meu ver, é um assunto de importância secundária. O Brasil é um país grande que tem instituições, que tem muito mais que um grupo de pessoas conduzindo as coisas. E temos que acreditar nisso. Eu acredito nisso", afirmou. DívidaFraga não quis comentar as declarações feitas hoje pelo vice-presidente do Citigroup, Stanley Fischer, de que um estudo elaborado pelo diretor de Política Econômica do BC, Ilan Goldfajn, sobre a sustentabilidade da dívida brasileira estaria defasado porque as condições do mercado brasileiro se deterioraram desde a divulgação do estudo. "Não ouvi as declarações de Stanley Fischer, por isso não posso comentá-las. Mas o estudo do BC é válido, sem nenhuma dúvida, e está atualizado", disse Fraga. Ele disse que não é razoável se extrapolar movimentos, especialmente em relação à taxa de câmbio, nessas horas de incertezas e ansiedade em que o mercado está passando. Fraga afirmou que a questão da sustentabilidade da dívida deve ser analisada, não olhando apenas um trimestre ou dois. "É preciso tomar um parâmetro mais longo. Na questão da dívida, é preciso olhar com um horizonte de cinco anos, de dez anos. Portanto, não acredito que o trabalho do Ilan esteja defasado. Pelo contrário", afirmou. Nesse sentido, segundo Fraga, "o que temos no Brasil é uma situação com parâmetros conservadores que aguentam uma diferença de taxa de juros e de taxa de crescimento de sete pontos porcentuais. É razoável", afirmou. De acordo com Fraga, "o problema da dívida que temos hoje não é de longo prazo na dívida, mas um problema de confiança, que vai ser superada com uma resposta convincente, rápida e segura do próximo presidente, quem quer que ele seja".

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