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''Não se pode remar contra a corrente''

Para economista, banco público não deveria elevar crédito quando os privados se retraem porque ficou mais arriscado emprestar

, O Estadao de S.Paulo

07 de fevereiro de 2009 | 00h00

O economista Gustavo Loyola comandava o Banco Central (BC) quando o governo lançou, em 1996, o Programa de Incentivo à Redução do Setor Público Estadual na Atividade Bancária (Proes). Resumidamente, pode-se dizer que o objetivo era sanear os bancos estatais e, em alguns casos, privatizá-los. Assim, não haveria mais o risco de que quebrassem e, por tabela, sangrassem os cofres públicos.Com base nessa experiência, Loyola afirma que obrigar Banco do Brasil, Caixa e Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) a aumentar o crédito em meio a um ambiente macroeconômico incerto como o atual pode trazer sérios problemas à frente. O Estado deve ter uma atuação mais forte na concessão de crédito em um momento como o atual?Pessoalmente, acredito que, em certas circunstâncias, quando os mercados privados não conseguem resolver determinadas falhas, o setor público pode atuar. Mas isso é conjuntural. O papel dos bancos públicos tem de ser colocado de forma relativa. Não acho que possam fazer milagre. Primeiro, porque são bancos. Devem emprestar recursos com prudência, atendendo às técnicas bancárias, respeitando as normas do Banco Central, etc. Como essa retração de crédito tem muito a ver com a piora das condições macroeconômicas, se os bancos públicos resolverem se colocar contra a maré, de uma maneira mais ousada, podem estar contratando para o futuro perdas muito grandes em suas carteiras de crédito. A retração do crédito faz parte do ciclo econômico e não adianta querer incentivá-lo de maneira artificial. Prefiro que estímulos econômicos sejam feitos por meio de políticas monetária e fiscal, que permeiam toda a economia. Essas não põem em risco a posição patrimonial dos bancos públicos. BB e Caixa não podem expandir o crédito quando todos os outros estão se retraindo porque ficou mais arriscado. Se o fizerem, estão contratando um custo para o Tesouro a médio e longo prazo. Resumindo: uma coisa é o setor público fornecer funding se o mercado privado está restrito. Outra é colocar o BB e a Caixa para emprestar a custos mais baixos com riscos para estimular a economia. Isso. O que não se pode é tentar remar contra a corrente utilizando os bancos públicos para dar crédito para devedores ou potenciais devedores que não têm, por uma determinada circunstância, capacidade de pagamento. A lógica de análise de crédito de um banco privado deve prevalecer para um banco público. No Brasil, temos experiências do passado de custos muito grandes que foram incorridos para sanear carteiras de bancos públicos. Muitas foram feitas em atendimento a políticas governamentais, bem intencionadas, mas que levaram a essas perdas. Por isso, sou cético sobre a eficácia dessas políticas. Ao contrário, podem aumentar os riscos fiscais a médio prazo e diminuir a qualidade das carteiras de bancos públicos. É relevante o BB voltar a ser o primeiro do ranking de bancos, como disse o ministro Guido Mantega?É tão relevante o BB ser o maior quanto achar que o governo tem de ter a maior padaria ou a maior empresa de telefonia do País. Qual é a lógica por trás da ideia de que o BB tenha de ser o maior? Se for o maior, que seja. Mas, em meio a uma crise dessas, o ministro da Fazenda achar que é um bom momento para o BB voltar a liderar o ranking revela certa inversão de prioridades. Como representante do acionista majoritário do BB, o ministro deve ter em mente que seria bom manter o banco lucrativo e saudável. O BB ser o primeiro não deve ser objetivo de política econômica. Temos visto em outros países o aumento da presença estatal, mas, nitidamente, é uma presença aumentada por força da situação, em circunstâncias temporárias. Não vejo, nesses países, um movimento que pregue a estatização definitiva do setor. E a estatização do crédito?É uma tremenda tolice. O crédito no Brasil não é estatizado, mas há vários segmentos nos quais o governo sempre foi o participante mais importante. Se estatização do crédito resolvesse o problema, o Brasil deveria estar entre as economias mais importantes do mundo. Baixar o juro seria mais eficiente do que estimular o crédito por meio de BNDES, BB e Caixa?Talvez demorasse mais para surtir efeito, mas seria mais eficiente. Por mais que se dê dinheiro para o BNDES, os recursos são limitados. Quando se faz política monetária, subindo ou baixando os juros, há impacto impessoal sobre o setor privado. Não se beneficia nem prejudica ninguém deliberadamente.

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