'Não se pode ter medo do desconhecido'

Líder de empresa de inteligência de e-mail afirma que às vezes é preciso abrir os olhos e saltar mesmo não sabendo onde se vai cair

CLÁUDIO MARQUES , O Estado de S.Paulo

16 de março de 2014 | 02h13

Nascido em Boston há 45 anos, Louis Bucciarelli (foto) soma sete anos de Brasil. Formado pela Universidade de Michigan com MBA pela Universidade Emory, em 2010 ele foi convidado para fazer o startup no Brasil da americana Return Path. Criada há 14 anos no Vale do Silício, a empresa de inteligência de e-mail tem escritórios em oito países e oferece soluções que envolvem ferramentas para que seus clientes, que são principalmente da área de e-commerce, saibam se a correspondência eletrônica enviada chegou ao destinatário, qual é a taxa da leitura ou se vai direto para a caixa de spam. A Return Path também oferece ferramentas para medir o engajamento de usuários e comercializa soluções antiphising. De acordo com a companhia americana, são serviços que aprimoram os programas de e-mail marketing. Bucciarelli acredita que comunicação, ter um bom relacionamento com todas as pessoas que formam o universo corporativo e não ter medo do desconhecido são importantes para crescer na carreira. Ele, por exemplo, já foi para a Inglaterra abrir um novo mercado, mesmo desafio enfrentado na Return Path. Ele também já se arriscou tendo o próprio negócio e trabalhando como consultor depois de atuar por um longo período na Landmark Communications A seguir, trechos da entrevista.

Você já começou nessa área de tecnologia?

A minha carreira sempre foi na área de tecnologia. Às vezes, na parte comercial, muitas vezes na parte de desenvolver novos negócios. Eu tive oportunidade de abrir frentes aqui na América Latina, na Europa, nos Estados Unidos, e, desta vez, eu trabalho aqui responsável pela Return Path, abrindo o mercado aqui no Brasil e América do Sul.

Nessa área de tecnologia, de constante inovação, muitos negócios às vezes foram inicialmente tocados na base da tentativa. Que tipo de habilidade essa situação exigiu mais de você?

Quando eu comecei na Return Path, em 2010, e quando entrei, no Brasil, o mercado de e-mail marketing era muito mais maduro, em termos de uso de e-mail, nos Estados Unidos e Europa. No Brasil, ainda estava evoluindo. Eu cheguei nessa hora e tive de montar uma equipe inteira para tocar a empresa, numa época em que não havia conhecimento profundo sobre esse assunto. O que fez esse trabalho mais fácil é a maneira como a Return Path trabalha. Nela, a coisa mais importante não são os shareholders nem os clientes, são os empregados. É uma visão bem diferente. Então, na hora de contratar as pessoas, nós focamos muito no perfil da pessoa, nos valores da pessoa, o que se encaixa bem na cultura da Return Path, porque se conseguimos acertar esse perfil com valores da empresa, nós sabemos que o resultado vem depois, que o cliente vai ficar feliz, porque nossos empregados vão se esfoçar mais, sabemos que o shareholder vai tirar maior proveito, porque a empresa vai crescer mais rápido, porque os clientes estão felizes. Forma um ciclo em que cada um reforça o outro. Então, quando eu cheguei aqui, eu foquei muito nisso, no perfil da pessoa. Porque se aquela pessoa se encaixa nos valores da empresa, o resto nós conseguimos, como treinar tecnicamente uma pessoa. Agora, treinar pessoas para se darem bem numa cultura diferenciada, é mais difícil.

As tecnologias estão sempre avançando. Como fica a questão do conhecimento?

Às vezes, eu me sinto um pouco perdido, porque as coisas andam tão rápido...Realmente, nosso mercado de tecnologia anda muito rápido. Mas rapidez é bem da Return Path. Me interessa trazer novidades, de dentro ou de fora do País, e discutir como isso pode ser aproveitado aqui. Vou dar um exemplo. Recentemente fizemos uma teleconferência, aqui no Brasil, abordando quais são as novas tendências que podem influenciar campanhas de e-mail marketing em 2014. E foi bem interessante. Discutimos, por exemplo, como funciona o relógio que consegue ler e-mail, como ele pode repicar no Brasil, com qual rapidez, quão importante é isso para gerente de marketing tentando gerenciar um programa de e-mail... Então, nós participamos e também contribuímos, trazemos novidades para o mercado e abrimos espaço para discutir, conversar. O intuito é que, com isso, todo mundo ajuda o mercado a crescer.

Qual é sua característica essencial para se manter nesse mercado e à frente de uma empresa?

Eu diria que é comunicação. É ter canais de comunicação abertos seja com o cliente, seja com os empregados, seja com os diretores lá fora. Eu acho que, com a comunicação, você consegue compartilhar os desafios. Não é só o meu desafio que eu tenho. Não, eu compartilho, com a minha equipe ou com meus diretores lá fora, e com isso você ganha agilidade e rapidez. No mercado em que estamos, é essencial para continuar a crescer.

Para uma pessoa que é nova, que está chegando agora e que pretende fazer uma carreira de executivo, o que ela precisa, além de comunicação? Quais outras características precisa ter?

Além das coisas básicas, acho que as pessoas que se destacam e têm carreiras aceleradas são pessoas que possuem, além de comunicação, um relacionamento muito bom, seja com o cliente, seja internamente.

Como você se define, em termos de carreira?

Acho que sem medo. Você não pode ter medo do desconhecido, tem de ficar aberto a aprender coisas novas. Vou dar um exemplo, eu fui para a Inglaterra para abrir um mercado novo, vim para cá abrir um mercado novo e eu nunca tinha trabalhado antes no ramo de e-mail. Então, de certa maneira, tem de abrir os olhos e pular, pular para frente sem saber exatamente onde vai acabar. Tem de ir em frente. Então, um conselho para quem ainda não sabe o que vai fazer na carreira é olhar para dentro, ver o que gosta de fazer, o que o realiza e vai, arrisca. Segundo, aprendizagem. Uma coisa que sempre pensei sobre este assunto é que eu gosto de aprender coisas novas e eu estou aprendendo muito sobre como criar uma empresa que dá valor ao empregado em primeiro lugar. É uma coisa que era nova para mim quando eu comecei em 2010 e agora faz parte da maneira que eu gerencio e da maneira que eu penso sobre o que é ter um líder empreendedor em uma empresa.

Muitos jovens hoje já não usam e-mail. Parece que ele está se tornando mais uma ferramenta corporativa do que um meio de comunicação entre as pessoas?

Eu acho que todo mundo quer saber qual vai ser o papel do e-mail. Hoje, há muitos aplicativos, muitos meios para comunicação. Há o What's up, o Viber, o Facebook, existe um monte de maneiras para você mandar uma mensagem pessoal. Essa comunicação é muito forte nesses canais, e os jovens realmente não usam o e-mail como comunicação pessoal. Usam e-mail muito mais para comunicação comercial, quando, por exemplo, você vai fazer reserva no avião, vai se cadastrar em algum lugar, até mesmo se cadastrar no Facebook, porque precisa fornecer o endereço de e-mail. Virou uma chave para a vida comercial da pessoa. Sempre vão existir comunicações pessoais, mas acho que cada vez mais vamos ver o e-mail como canal de comunicação comercial. Mas por ser um ambiente universal, acho que vai ser usado no futuro de várias maneiras. Esses jovens, porém, uma hora eles vão ter de trabalhar, espero. E quando trabalharem, a comunicação migra bastante para o âmbito do e-mail.

Quais são os planos para a empresa?

A Return Path é uma empresa de inteligência de e-mail, então, acho que há um grande campo para crescimento, porque o mercado de e-mail continua crescendo, o mercado de marketing digital é muito grande no Brasil e vem crescendo, junto com as empresas, por exemplo, de e-commerce. Houve um grande crescimento nos últimos três anos. Acho que o desafio para eu enfrentar é continuar crescendo nesse mercado, ajudando as empresas a entender como o uso do e-mail está ficando mais competitivo. E uma frente nova que estamos trabalhando bastante aqui no Brasil é a área de proteção da marca, control phising. Existe um grande mercado aqui, para ajudar bancos, principalmente, mas claro que há outras empresas, como de e-commerce. Por fim, há um desafio, eu diria uma oportunidade, é o trabalho fora do eixo São Paulo-Rio.

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